Paulo Abrão
Tentando explicar o Brasil para o mundo: relações internacionais, política, direitos humanos, democracia e meio ambiente
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Análise

Trump e a eleição brasileira: o alerta que vem de 1964

Revelações sobre redes americanas de influência, verba do Departamento de Estado anti-STF e Doutrina 'Donroe' obrigam Brasil a revisitar história de Ipes e Ibad

02/10/2026 às 19:00 · Atualizado há 3 dias
Trump e a lembrança do papel dos EUA em 1964
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após discursar em um retiro do Partido Republicano no Kennedy Center, em Washington. Foto: Mandel Ngan/AFP

A dois dias das eleições brasileiras, os Estados Unidos tomaram uma decisão excepcional: suspenderam simultaneamente os serviços consulares de suas representações no Brasil alegando questões de segurança. Horas depois, surgiu uma informação decisiva para compreender melhor o episódio. A Polícia Federal anunciou ter cumprido dois mandados de busca e apreensão, em São Paulo e no entorno do Distrito Federal, para investigar um “suposto planejamento de atos que poderiam colocar em risco instalações diplomáticas dos EUA no Brasil”.

Segundo a PF, tratou-se de uma ação preventiva, realizada no âmbito de investigação sigilosa e fruto da cooperação permanente com agências de inteligência estrangeiras. O resultado preliminar, entretanto, introduz uma questão adicional. A própria Polícia Federal informou que, até o momento, não foram encontrados elementos que corroborassem os riscos inicialmente apontados, nem identificados suspeitos de envolvimento com organizações criminosas. A investigação continua, inclusive com a análise dos equipamentos de comunicação e mídias apreendidos.

Sabemos, portanto, que existiu um alerta de segurança considerado suficientemente relevante para provocar medidas investigativas no Brasil; ainda não sabemos, porém, qual era sua consistência, sua origem precisa nem por que justificaria a suspensão simultânea dos serviços consulares norte-americanos em todo o país.

O momento da decisão, dois dias antes de uma eleição presidencial disputada, inevitavelmente produziu interpretações políticas. Analistas brasileiros levantaram inclusive a hipótese de que a suspensão pudesse contribuir para produzir uma percepção de instabilidade e preparar uma futura contestação do processo eleitoral. A informação divulgada pela PF recomenda cautela diante dessa interpretação, mas não encerra as perguntas sobre o episódio.

Ao contrário: torna ainda mais importante compreender a sequência dos acontecimentos, a natureza do alerta recebido, a proporcionalidade da reação norte-americana e os resultados finais da investigação brasileira. Neste momento, qualquer conclusão definitiva seria prematura.

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E o contexto realmente importa. Nesta mesma semana, veio a público que integrantes da Abin relataram a delegações estrangeiras da França e da Alemanha suspeitas de interferência no processo eleitoral envolvendo atores externos, entre eles Estados Unidos e Rússia. Mas a preocupação com uma possível interferência norte-americana já ultrapassou as fronteiras brasileiras.

O tema entrou na própria opinião pública dos Estados Unidos: o “New York Times” dedicou uma ampla reportagem no último domingo à possibilidade de Trump tentar influenciar a eleição brasileira, enquanto outros veículos norte-americanos passaram a discutir abertamente o alcance da atuação de Washington sobre o processo político do país.

Mais importante ainda, a questão chegou formalmente ao Congresso dos Estados Unidos. Em 29 de setembro, os senadores Jeanne Shaheen, principal representante democrata no Comitê de Relações Exteriores do Senado, Tim Kaine, principal democrata na subcomissão responsável pelo Hemisfério Ocidental, e Peter Welch enviaram uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, reconstruindo uma sequência de ações da administração Trump em relação ao Brasil.

O documento menciona tarifas e sanções utilizadas durante o julgamento de Jair Bolsonaro, pressões diplomáticas e econômicas, a atuação de funcionários do Departamento de Estado e o encontro de Flávio Bolsonaro com Trump na Casa Branca. Na avaliação dos senadores, essas ações integram um padrão de pressão política capaz de enfraquecer instituições democráticas brasileiras e a confiança no processo eleitoral.

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O senador Flávio Bolsonaro e o presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Divulgação)

Eles formularam então uma pergunta extraordinária para as relações entre duas democracias: o governo Trump se compromete a reconhecer o resultado certificado das eleições brasileiras e a manter relações diplomáticas normais com qualquer candidato livremente escolhido pelos brasileiros?

Leia mais: Senadores dos EUA alertam governo Trump contra interferência em eleições no Brasil

Não foi uma manifestação isolada. Dias antes, 30 deputados e o senador Bernie Sanders haviam enviado outra carta a Rubio expressando preocupação semelhante e cobrando explicações sobre a atuação norte-americana no Brasil. As duas iniciativas foram também resultado de um trabalho de incidência internacional desenvolvido pela sociedade civil brasileira em Washington, especialmente a partir da comitiva que esteve no Congresso norte-americano em julho para apresentar a parlamentares e assessores preocupações sobre possíveis interferências externas no processo eleitoral.

É um dado relevante, porque mostra que a defesa da soberania democrática também pode operar transnacionalmente: diante de pressões que atravessam fronteiras, organizações da sociedade civil podem construir alianças institucionais fora do país para defender o direito dos brasileiros de decidir autonomamente seu futuro.

A relevância desses documentos não está em tomá-los como prova de uma operação de interferência – eles expressam a avaliação política dos parlamentares que os assinam -, mas em demonstrar que a questão deixou de pertencer apenas ao debate político brasileiro. A possibilidade de interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira tornou-se objeto de escrutínio da imprensa norte-americana e de ação institucional dentro do próprio Congresso dos Estados Unidos.

Leia também: Chico Buarque e ganhadores do Nobel denunciam interferência dos EUA nas eleições do Brasil

Na véspera da suspensão dos serviços consulares, o próprio presidente Donald Trump acrescentou outro elemento a esse ambiente ao afirmar que acompanhava a eleição brasileira “muito de perto” e que se tratava de uma eleição “muito importante”.

Outro acontecimento tornou esse quadro ainda mais sensível. O ‘The Guardian’ revelou que a administração Trump está redirecionando mais de US$ 175 milhões do Human Rights and Democracy Fund, do Departamento de Estado, para uma nova agenda internacional conservadora. Entre os projetos aparece uma iniciativa de aproximadamente US$ 1 milhão denominada “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”, destinada a apoiar organizações contrárias ao que seus formuladores caracterizam como abusos judiciais e censura, especialmente por parte do Supremo Tribunal Federal.

A Advocacia-Geral da União reagiu formalmente: encaminhou notícia-crime à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal para que investiguem eventuais destinatários brasileiros desses recursos e a possibilidade de financiamento estrangeiro destinado a influenciar o ambiente político e institucional do país.

Ao mesmo tempo, documentos revelados pela imprensa e pelo canal Amado Mundo mostraram que a Rockbridge Network, rede conservadora norte-americana cofundada por J.D. Vance, hoje vice-presidente dos Estados Unidos, e pelo empresário Chris Buskirk, projetou estabelecer uma operação no Brasil concebida como uma espécie de “venture capital político”. Os materiais descrevem atuação em mídia, formação política de jovens, produção de conhecimento para atividade legislativa e articulação de empresários e investidores internacionais. A Rockbridge afirma que o projeto brasileiro foi rejeitado, nunca recebeu recursos e não chegou a operar.

A história tornou-se ainda mais sensível quando a Folha de S.Paulo informou que dois empresários relacionados à iniciativa teriam prestado aconselhamento ou produzido relatórios para pessoas próximas à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Os envolvidos contestam ter integrado formalmente a campanha; a candidatura afirma não ter recebido recursos ou estrutura estrangeira; e, até agora, não existe prova pública de financiamento externo.

Não há evidência pública de que esses acontecimentos constituam partes de uma operação coordenada. O erro seria tanto transformar hipóteses em conspiração comprovada quanto encerrar perguntas legítimas antes que existam respostas. Entre a credulidade e a paranoia existe o trabalho democrático da investigação, da documentação e da memória.

A sucessão de episódios, às vésperas da eleição e no contexto de uma mudança explícita da política norte-americana para o Hemisfério Ocidental, impõe uma pergunta maior: o que está acontecendo na relação entre a nova política hemisférica dos Estados Unidos e a democracia brasileira?

É justamente aqui que a memória de 1964 deixa de ser apenas história.

Quando a memória acende o alerta

Temos uma vantagem sobre os brasileiros que viveram uma situação muito diferente, mas historicamente instrutiva, há mais de 60 anos: possuímos memória acumulada. Hoje sabemos que o golpe de 1964 não começou quando os tanques saíram dos quartéis. Antes da ruptura houve uma longa preparação do terreno político e social: empresários financiaram organizações, intelectuais produziram argumentos, especialistas formularam programas, meios de comunicação difundiram narrativas, filmes e publicações influenciaram a opinião pública, organizações civis foram mobilizadas, candidatos receberam apoio e o anticomunismo transformou conflitos políticos numa batalha existencial sobre o destino do país.

Duas siglas tornaram-se fundamentais para compreender esse processo: Ipes e Ibad. O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, criado em 1961, reuniu empresários, executivos, intelectuais, militares e profissionais liberais numa sofisticada estrutura de intervenção política. Produziu estudos, livros, panfletos e filmes, articulou organizações sociais, estabeleceu relações com meios de comunicação e participou da elaboração de um projeto alternativo ao governo João Goulart.

O Instituto Brasileiro de Ação Democrática atuou de forma ainda mais diretamente eleitoral e, por meio da Ação Democrática Popular, a Adep, apoiou candidatos nas eleições de 1962. A dimensão dessas atividades levou o Congresso Nacional a instalar, em 1963, uma CPI para investigar o Ibad e suas fontes de financiamento.

Conhecemos essa história porque sobreviveram atas, correspondências, recibos, livros-caixa, filmes, relatórios, depoimentos e documentos diplomáticos. Conhecemos porque houve investigação parlamentar e jornalística, porque arquivos preservaram documentos e porque universidades e historiadores reconstruíram durante décadas aquelas conexões. Em “1964: a conquista do Estado”, René Dreifuss mostrou que Ipes e Ibad não podiam ser compreendidos isoladamente, mas como parte de uma infraestrutura de poder que articulava empresários, capital internacional, intelectuais, organizações sociais, meios de comunicação, políticos, militares e conexões estrangeiras.

Essa talvez seja a primeira lição para o presente: a história tornou-se visível quando deixamos de olhar apenas para os personagens e começamos a reconstruir as redes.

Para mim, essa não é uma discussão abstrata

Há uma razão pessoal para que eu olhe para esses acontecimentos a partir da memória. Uma parte importante da minha trajetória pública foi dedicada às políticas de memória, verdade, justiça, reparação e não repetição. Presidi a Comissão de Anistia do Brasil por quase dez anos, implementei políticas públicas de memória histórica e justiça de transição no país e integrei o grupo de trabalho que elaborou a proposta legislativa que deu origem à Comissão Nacional da Verdade.

Mais tarde, como secretário executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, instalei a Relatoria sobre Memória, Verdade e Justiça, coordenei a elaboração de seus primeiros informes sobre todos os países da região e do desenvolvimento dos princípios interamericanos sobre a matéria. Há mais de doze anos integro também o Board da International Coalition of Sites of Conscience e hoje presido o Conselho da Coalizão Brasil por Memória, Verdade e Justiça.

Essas experiências consolidaram em mim uma convicção: a memória só realiza plenamente sua função quando o conhecimento sobre o passado aumenta nossa capacidade de compreender os riscos do presente e agir antes que seja tarde. Aprendi também a desconfiar de dois erros opostos.

Um é transformar qualquer acontecimento contemporâneo numa repetição automática da história, procurando em cada personagem atual o equivalente de alguém do passado. O outro é tratar cada acontecimento como inteiramente novo e, por isso, recusar-se a reconhecer mecanismos que a história já nos ensinou a identificar. Entre a analogia fácil e o esquecimento existe o caminho da não repetição: conhecer o passado para formular melhores perguntas sobre o presente.

A pergunta, portanto, não é se a Rockbridge é o novo Ipes ou se estamos revivendo 1964. É o que a experiência de 1964 nos ensina a perguntar agora: quem financia? Quem articula? Quem produz as ideias e narrativas? Que organizações estão sendo construídas? Como interesses privados e políticas de Estado se relacionam? Que papel desempenham atores estrangeiros? Que instituições brasileiras são objeto dessas estratégias? E quais interesses políticos, econômicos e geopolíticos estão por trás delas?

Uma nova disputa pelo hemisfério

A Guerra Fria terminou, mas outra disputa global tomou seu lugar. Estados Unidos e China competem por tecnologia, inteligência artificial, semicondutores, energia, infraestrutura, minerais críticos, cadeias produtivas e influência política. Nesse contexto, a América Latina voltou a adquirir importância estratégica para Washington, e a velha Doutrina Monroe reapareceu no vocabulário norte-americano sob uma expressão deliberadamente provocativa: a chamada Doutrina Donroe.

É preciso saber: Alô, América Latina: ‘Domínio americano nunca mais será questionado’, ameaçam EUA

Essa nova orientação recoloca a liderança norte-americana no Hemisfério Ocidental como prioridade estratégica. O Escudo das Américas, por exemplo, combina combate ao narcotráfico, cooperação regional em segurança e inteligência e preocupação crescente com a presença de atores externos na região. Ao mesmo tempo, Washington intensifica sua competição com Pequim por portos, telecomunicações, infraestrutura digital, energia e recursos estratégicos.

A Donroe atualiza, portanto, uma antiga lógica hemisférica para uma competição do século 21. Agora estão em disputa não apenas territórios, mas portos, redes digitais, infraestrutura, energia, minerais críticos, inteligência artificial e cadeias globais de suprimentos. O Brasil ocupa posição inevitavelmente central nesse tabuleiro: é a maior economia da América Latina, uma potência agrícola, ambiental e energética, possui recursos estratégicos e mantém com a China uma relação econômica de enorme importância.

É dentro desse cenário, e não como acontecimentos isolados, que devem ser examinadas as pressões recentes sobre o Brasil, os conflitos em torno da crise do STF, os debates sobre organizações criminosas brasileiras, os interesses em minerais críticos e as novas redes privadas de influência política. Não é necessário imaginar um centro único de comando para reconhecer uma mudança estrutural na maneira como Washington enxerga o hemisfério.

O desafio é investigar onde interesses militares, diplomáticos, econômicos, ideológicos e privados se encontram, onde permanecem independentes e quais efeitos produzem sobre as democracias da região.

Do cinema ao algoritmo e do tanque à erosão por dentro

Também mudaram os instrumentos. O Ipes precisava produzir filmes, fazer cópias físicas, conseguir salas de cinema, imprimir livros e panfletos e construir relações com jornais e rádios. Hoje, redes políticas transnacionais dispõem de plataformas digitais, influenciadores, publicidade microssegmentada, bancos de dados, inteligência artificial e algoritmos capazes de produzir, testar e distribuir mensagens para milhões de pessoas em poucas horas. A influência tornou-se mais barata, veloz, segmentada e difícil de rastrear.

Por isso, interferência estrangeira já não pode ser compreendida apenas como transferência clandestina de dinheiro para candidatos. Pode envolver a construção de uma infraestrutura destinada a modificar o ambiente no qual uma sociedade forma suas preferências: financiar organizações, formar lideranças, produzir pesquisas, sustentar meios de comunicação, mobilizar influenciadores ou jornalistas, apoiar think tanks e estabelecer conexões permanentes entre elites políticas nacionais e estrangeiras.

É sob essa perspectiva que os documentos relacionados à Rockbridge Brasil merecem investigação: não porque comprovem por si mesmos uma conspiração ou uma ilegalidade, mas porque descrevem uma ambição de construção de infraestrutura política de longo prazo num país estrangeiro.

Os próprios processos de ruptura democrática também mudaram. O imaginário latino-americano do século 20 associou o golpe a quartéis mobilizados, tanques nas ruas, fechamento do Congresso, suspensão da Constituição e militares assumindo diretamente o governo. Esse modelo não desapareceu, mas deixou de ser a única forma de destruição das democracias. Hoje, processos autoritários podem avançar por dentro das instituições, quando governantes eleitos utilizam mecanismos formalmente legais para enfraquecer controles, atacar órgãos eleitorais, pressionar tribunais, imprensa, universidades e sociedade civil, modificar regras da competição política e reduzir as possibilidades de alternância no poder.

A erosão democrática contemporânea não é monopólio de uma tradição ideológica da extrema-direita: processos desse tipo podem ser observados em experiências políticas de diferentes orientações, sendo a Nicarágua de Daniel Ortega um dos exemplos mais contundentes em nossa região.

Em vez de abolir imediatamente as instituições, procura-se capturá-las, neutralizá-las ou retirar delas a confiança pública necessária para que funcionem. Eleições continuam acontecendo, parlamentos continuam reunidos e tribunais continuam julgando enquanto a infraestrutura democrática pode ser progressivamente corroída.

A produção deliberada de desconfiança nas eleições (por exemplo, por meio de ataques sem evidências ao sistema de votação e apuração), a deslegitimação antecipada dos resultados (por exemplo, os ataques ao TSE) e o enfraquecimento sistemático da confiança nas instituições (por exemplo, a crise do STF) tornam-se, nesse contexto, questões centrais de segurança democrática.

Isso não significa que toda crítica a tribunais, governos ou sistemas eleitorais seja antidemocrática. Ao contrário: crítica, fiscalização e reforma pertencem à própria democracia. A crise vivida pelo STF, por exemplo, torna legítima e necessária a discussão pública sobre transparência, accountability e limites institucionais. A fronteira relevante está entre exercer essa crítica democrática e utilizar problemas reais ou alegados como instrumento para retirar sistematicamente das instituições a legitimidade indispensável à continuidade do regime democrático.

Se as tecnologias da influência passaram do cinema ao algoritmo, as tecnologias da ruptura também podem passar do tanque para a corrosão institucional e a destruição gradual da confiança pública. Procurar simplesmente “um novo 1964” seria procurar o passado no lugar errado. A memória de 1964 deve nos ensinar a reconhecer mecanismos antes que conheçamos seus resultados e mesmo quando eles reaparecem sob novas formas.

A disputa pela palavra democracia

Existe, contudo, uma continuidade que merece atenção. Ibad significava Instituto Brasileiro de Ação Democrática e Adep, Ação Democrática Popular. Seus integrantes apresentavam sua atuação como defesa da democracia diante da ameaça comunista. Mais de 60 anos depois, encontramos novamente uma disputa internacional em torno do próprio significado de democracia, liberdade e direitos humanos.

O fundo citado pelo Guardian chama-se justamente Human Rights and Democracy Fund. Segundo a reportagem, recursos destinados à promoção internacional desses valores estão sendo redirecionados pela administração Trump para uma agenda que inclui iniciativas anticomunistas e projetos contra instituições acusadas de censura ou “lawfare”, inclusive no Brasil. Os períodos não são equivalentes, mas a questão histórica permanece pertinente: não se disputa apenas quem governa; disputa-se também quem possui autoridade para definir o que significa defender a democracia ou os direitos humanos.

Seguir as redes, seguir o dinheiro

Aqui, o método de Dreifuss permanece atual. É preciso reconstruir relações: quem financia essas novas organizações transnacionais da extrema direita, quem participa de seus conselhos, quais empresários brasileiros mantêm relações com elas, quais organizações recebem recursos, que veículos produzem conteúdo, quais universidades, jornalistas e movimentos juvenis são procurados, quais pesquisas chegam a parlamentares, quais empresas de tecnologia participam dessas redes e quais interesses econômicos estão envolvidos.

À velha recomendação de seguir o dinheiro devemos acrescentar uma exigência do nosso tempo: seguir também os dados, os algoritmos, as plataformas e a inteligência artificial.

O objetivo não pode ser confirmar uma conclusão previamente escolhida. Deve ser produzir documentação suficiente para descobrir qual conclusão os fatos autorizam. Precisamos saber o que está comprovado, o que constitui indício e o que ainda precisa ser demonstrado. Essa distinção é fundamental para que o alerta democrático não se transforme em teoria conspiratória e para que a prudência não se transforme em ingenuidade.

A eleição passa, a disputa pela soberania continua

Seria outro erro imaginar que tudo isso terminará quando forem contados os votos. Lula e Flávio Bolsonaro possuem concepções distintas sobre a inserção internacional do Brasil, sobre Washington e Pequim, sobre os Brics e sobre o grau de alinhamento com os Estados Unidos. Essas diferenças estão legitimamente submetidas à escolha dos eleitores. Mas, qualquer que seja o resultado, a geografia permanecerá no mesmo lugar e os interesses estratégicos não desaparecerão na manhã seguinte.

O Brasil continuará sendo uma das maiores democracias do mundo, a maior economia da América Latina, potência agrícola, ambiental e energética, detentor de recursos estratégicos e parceiro econômico fundamental da China. Os Estados Unidos continuarão tratando o Hemisfério Ocidental como prioridade estratégica. A encruzilhada brasileira, portanto, é maior do que uma eleição: está em questão também quanto espaço o país conservará para decidir autonomamente sua inserção numa ordem global em reorganização.

Soberania não significa antiamericanismo. Brasil e Estados Unidos possuem mais de dois séculos de relações diplomáticas, enormes vínculos econômicos e sociais e inúmeros interesses comuns. Uma política externa soberana deve cooperar com Washington sempre que isso corresponda ao interesse brasileiro, assim como deve poder construir relações com China, Europa, América Latina, África e outras regiões sem que nenhuma potência determine os limites dessas relações.

Cooperar com os Estados Unidos no enfrentamento transnacional ao PCC e ao Comando Vermelho, por exemplo, pode corresponder ao interesse brasileiro, desde que essa cooperação ocorra sob regras definidas conjuntamente, respeite o direito brasileiro e preserve a inviolabilidade do território nacional. Soberania significa, antes de tudo, que as escolhas fundamentais da sociedade brasileira devem ser feitas pelos brasileiros.

A sociedade civil também precisa de política externa

Essa realidade impõe uma consequência prática. Nunca foi tão necessário que a sociedade civil brasileira desenvolva capacidade internacional própria, coordenada, articulada e estratégica, especialmente quando decisões tomadas por governos estrangeiros podem produzir efeitos diretos sobre nosso ambiente democrático.

O poder tornou-se profundamente transnacional: dinheiro, ideias, plataformas e narrativas atravessam fronteiras; think tanks compartilham estratégias; empresários organizam redes; movimentos políticos cooperam; parlamentares estabelecem alianças; governos utilizam sanções, vistos, tarifas e recursos públicos para produzir consequências políticas fora de seus territórios.

Uma sociedade civil confinada às fronteiras nacionais estará em desvantagem diante de atores que operam globalmente. Defender a democracia brasileira exige relações permanentes com organizações sociais, universidades, centros de pesquisa, sindicatos, movimentos de direitos humanos, imprensa, diásporas, organismos multilaterais e parlamentares de outros países. Isso vale especialmente para os próprios Estados Unidos, que não constituem um ator monolítico. A experiência recente das cartas enviadas ao Departamento de Estado mostra, concretamente, que a articulação internacional da sociedade civil pode transformar preocupações brasileiras em questões submetidas ao escrutínio de instituições políticas de outros países.

Defender a soberania brasileira não significa mobilizar brasileiros contra americanos, russos ou chineses. Significa construir alianças internacionais, inclusive dentro dos Estados Unidos, em torno de um princípio simples: cabe aos brasileiros decidir o futuro do Brasil. Se redes transnacionais podem ser utilizadas para pressionar democracias, redes transnacionais também podem contribuir para protegê-las. A defesa internacional da democracia não pode começar quando a democracia já está sob ataque; precisa constituir uma infraestrutura permanente.

Para que serve, afinal, a memória de 1964?

Passei uma parte importante da minha vida trabalhando com vítimas da ditadura, políticas de reparação, arquivos, verdade, justiça e garantias de não repetição. Essa experiência, acumulada no Brasil, no sistema interamericano e numa rede internacional de lugares de consciência, ensinou-me que a memória não é apenas um lugar para onde uma democracia olha quando quer compreender ou homenagear seu passado.

A memória é também um lugar de onde uma democracia olha para o futuro. A principal função democrática da memória não é reconhecer a repetição do passado depois que ela aconteceu, mas aumentar nossa capacidade de reconhecer no presente as condições que podem tornar possíveis novas formas de interferência e erosão democrática.

É esse, para mim, o sentido mais profundo da garantia de não repetição. Ela não promete ingenuamente que a história jamais produzirá novamente autoritarismo ou violência. Procura construir instituições, conhecimento e cultura democrática capazes de reconhecer suficientemente cedo as condições que tornam a ruptura possível. A memória é uma das melhores ferramentas humanas contra a barbárie porque permite transformar a experiência do sofrimento em capacidade de prevenção.

Mas ela só cumpre essa função quando produz consequências no presente. Sem alerta, a memória corre o risco de virar cerimônia. A memória sem organização, pode se tornar apenas a documentação cuidadosa de uma tragédia depois que ela aconteceu. Precisamos investigar enquanto os acontecimentos estão em curso, seguir o dinheiro enquanto ele circula, mapear as redes enquanto estão sendo construídas, preservar os documentos enquanto existem, defender as instituições enquanto podem ser defendidas, organizar a sociedade civil antes da emergência e construir solidariedade internacional antes do isolamento.

A eleição terminará, mas a disputa geopolítica permanecerá. Também permanecerá nossa responsabilidade de compreendê-la. Uma sociedade soberana, portanto, não é apenas aquela que protege suas fronteiras, é aquela que conhece suficientemente sua história para perceber quando sua capacidade de decidir autonomamente o futuro começa a ser disputada por outros.

Os brasileiros de 1962 não tinham diante de si os arquivos que hoje possuímos sobre Ipes, Ibad, a atuação empresarial, a propaganda política, o financiamento eleitoral e as conexões internacionais que antecederam a ruptura de 1964. Nós temos. E isso aumenta nossa responsabilidade.

A memória não nos autoriza a dizer que 2026 é 1964. É essa a ponte entre 1964 e 2026: não procurar personagens equivalentes nem prever que o desfecho será o mesmo, mas utilizar aquilo que só conseguimos compreender retrospectivamente sobre 1964 para formular, em tempo real, as perguntas que podem ajudar a proteger a soberania e a democracia brasileiras em 2026. A memória de 1964 nos impede de esperar 2066 para compreender o que está acontecendo em 2026. Talvez seja essa, afinal, a dimensão mais exigente da não repetição: não apenas recordar aquilo que aconteceu quando já não podemos modificá-lo, mas utilizar aquilo que aprendemos para agir enquanto a história ainda está aberta.

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