Reportagem

O Viagra vai acabar? O futuro do tratamento para disfunção erétil

Urologistas explicam o que há de real e o que é mito nas novas tecnologias que prometem devolver a autonomia sexual dos homens sem dependência de pílulas tipo Viagra

por Luiza Barufi
Publicado em 07/06/2026 às 06:00
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Viagra Foto: Freepik

Vinte e oi­to anos após o lan­ça­men­to da pí­lu­la azul que re­vo­lu­cio­nou o mer­ca­do, a me­di­ci­na se­xual as­sis­te a um mo­men­to de no­vas tec­no­lo­gias que po­dem mu­dar o tratamento para a dis­fun­ção eré­til. No fi­nal do sé­cu­lo pas­sa­do, o fo­co es­ta­va na com­pen­sa­ção ime­dia­ta — to­mar um comprimido de Viagra mi­nu­tos an­tes do se­xo —, mas a ciên­cia con­tem­po­râ­nea es­tá vol­ta­da para a re­ge­ne­ra­ção te­ci­dual e na au­to­no­mia. O ob­je­ti­vo atual não é criar uma ere­ção ar­ti­fi­cial, mas re­abi­li­tar o or­ga­nis­mo para que o ho­mem não de­pen­da de re­mé­dios.

Para ho­mens dia­bé­ti­cos, car­dio­pa­tas ou pós-ci­rur­gia de prós­ta­ta, os re­mé­dios tra­di­cio­nais sim­ples­men­te não fun­cio­nam ou são con­tra­in­di­ca­dos. É nes­sa bre­cha que pes­qui­sas com ade­no­si­na e géis com na­no­tec­no­lo­gia des­per­tam in­te­res­se, em­bo­ra exi­jam cau­te­la.

Pois existe um abismo en­tre as pro­mes­sas de la­bo­ra­tó­rio e a rea­li­da­de dos con­sul­tó­rios, como esclarece o uro­lo­gis­ta Cás­sio An­dreo­ni, do Hos­pi­tal Is­rae­li­ta Al­bert Eins­tein.

“A ade­no­si­na de­mons­trou me­lho­rar a fun­ção eré­til em mo­de­los de ra­tos, re­du­zin­do a fi­bro­se pe­nia­na. No en­tan­to, não há for­mu­la­ções co­mer­cial­men­te dis­po­ní­veis para hu­ma­nos. A pes­qui­sa per­ma­ne­ce em fa­se ex­pe­ri­men­tal.”

Andreoni alerta que, entre as opções que chegam como promessas inovadoras,  apenas o Alprostadil tópico apresentou sucesso de 65% em tipos específicos de pacientes nos ensaios.

O uro­lo­gis­ta Eduar­do Mi­ran­da com­ple­men­ta re­for­çan­do a rea­li­da­de dos con­sul­tó­rios:

“Es­ses tra­ta­men­tos de no­vas vias não apre­sen­taram ainda uma al­ter­na­ti­va su­pe­rior aos com­pri­mi­dos tra­di­cio­nais. Te­mos que es­pe­rar es­tu­dos ro­bus­tos. Fe­liz­men­te, exis­tem tra­ta­men­tos con­sa­gra­dos para quem não res­pon­de às pí­lu­las, como as in­je­ções lo­cais, com efi­cá­cia pró­xi­ma a 95%, além das pró­te­ses pe­nia­nas”.

O mito do Viagra ‘eletrônico’

O de­sen­vol­vi­men­to de dis­po­si­ti­vos de neu­ro­es­ti­mu­la­ção im­plan­tá­veis — o “mar­ca­pas­so se­xual” —, tam­bém de­ve ter o al­can­ce restrito: “Não é uma so­lu­ção am­pla. Trata-se de uma so­lu­ção es­pe­cí­fi­ca para pa­cien­tes com le­sões neu­ro­ló­gi­cas se­ve­ras, como pós-ci­rur­gia de prós­ta­ta. Não se­rá algo de am­pla uti­li­za­ção, e não ve­jo isso acon­te­cen­do no mer­ca­do bra­si­lei­ro den­tro dos pró­xi­mos cin­co anos”, esclarece Miranda.

Entre o físico e o psicológico

Para sa­ber se a falha é do or­ga­nis­mo ou da men­te, o uro­lo­gis­ta João Brun­ha­ra ex­pli­ca que o per­fil do pa­cien­te é o mai­or in­di­ca­dor. Por exemplo, em um ho­mem jovem, até os 40 anos e sem do­en­ças gra­ves, a cau­sa mais pro­vá­vel é a psi­co­gê­ni­ca.

“Se ele con­se­gue ter ere­ções nor­mais so­zi­nho ou acor­da com a ere­ção ma­ti­nal pre­ser­va­da, mas fa­lha na ho­ra da re­la­ção com ou­tra pes­soa, o com­po­nen­te é cla­ra­men­te psi­co­ló­gi­co.”

Mes­mo as­sim, exa­mes de ro­ti­na (como os de gli­ce­mia e co­les­te­rol) são fei­tos para afas­tar ris­cos. “A re­gra ge­ral é: quan­to mais jovem, mai­or o pe­so do psi­co­ló­gi­co; ul­tra­pas­sa­da a bar­rei­ra dos 50 ou 60 anos, a ba­lan­ça pu­xa para a par­te fí­si­ca”, diz Brun­ha­ra.

Estilo de vida é definidor

Ganho de pe­so ou no­ites mal dor­mi­das ini­ciam um ci­clo vi­cio­so: “A ati­vi­da­de se­xual exi­ge do cor­po. Se você es­tá aci­ma do pe­so, fu­man­do e es­tres­sa­do, vai cor­rer e sen­tir fal­ta de ar. O mes­mo va­le para o se­xo. Um ho­mem de 50 anos não res­pon­de igual à quan­do ti­nha 30. Quan­do ele per­ce­be es­sa mu­dan­ça na­tu­ral, a con­fian­ça é mi­na­da. E a fal­ta de con­fian­ça jo­ga ga­so­li­na na fo­guei­ra”, esclarece Brunhara.

Nas relações sexuais, a an­sie­da­de ati­va o sis­te­ma de de­fe­sa do cor­po. “O es­tres­se ele­va a adre­na­li­na, que fe­cha as ar­té­rias e cor­ta a ere­ção. É o mes­mo que sen­tir me­do de falar em pú­bli­co ou an­dar de avi­ão: o pê­nis en­co­lhe. É uma res­pos­ta do cé­re­bro que leu o se­xo como um pe­ri­go ex­tre­mo”, de­ta­lha.

A epidemia de jovens dependentes do Viagra

Es­se me­do ex­pli­ca o boom de ho­mens sub-30 de­pen­den­tes psi­co­ló­gi­cos do Viag­ra. Eduar­do Mi­ran­da pon­tua a fra­gi­li­da­de com­por­ta­men­tal: “Is­so an­da la­do a la­do com o agra­va­men­to da saú­de men­tal: an­sie­da­de, de­pres­são e iso­la­men­to. Di­an­te de qual­quer di­fi­cul­da­de, o ho­mem bus­ca so­lu­ções pa­lia­ti­vas e ime­dia­tas em vez de cons­truir con­fian­ça. Ele jo­ga a su­jei­ra para de­bai­xo do ta­pe­te e cria de­pen­dên­cia.”

A So­cie­da­de Bra­si­lei­ra de Uro­lo­gia orient­a tra­tar es­ses ca­sos com fo­co no es­ti­lo de vi­da e na par­te psicossocial. A dis­fun­ção eré­til, ho­je, é encar­a­da co­mo o pri­mei­ro sinal de aler­ta de que o co­ra­ção corre pe­ri­go: “Exis­te uma de­man­da ilu­só­ria por so­lu­ções pu­ra­men­te tec­no­ló­gi­cas. Só que a dis­fun­ção eré­til es­tá in­ti­ma­men­te relacionada à saú­de me­ta­bó­li­ca. Te­mos que fo­car no ve­lho e bom es­ti­lo de vi­da: per­da de pe­so, ati­vi­da­de fí­si­ca, nu­tri­ção e con­tro­le do es­tres­se e do so­no.”

Se a fa­lha acon­te­cer, a orientação é ti­rar o pe­so da per­for­man­ce: “O pi­co de adre­na­li­na do me­do du­ra pou­cos mi­nu­tos. Mu­de o fo­co para es­tí­mu­los que não de­pen­dem da ere­ção. Is­so ga­nha tem­po para o cor­po re­la­xar e fo­car em pen­sa­men­tos ex­ci­tan­tes, não na ere­ção em si. Re­ti­rar a obri­ga­ção da pe­ne­tra­ção alivia a pres­são e de­ixa o se­xo mais fá­cil”, finaliza Brunhara.

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