Copa do Mundo: como surgiu a tradição de jogadores entrarem em campo com crianças?
Ritual criado em 1976 pelo Atlético-MG para vender ingressos virou símbolo humanitário do futebol mundial e hoje é repensado na Copa de 2026

Antes de qualquer grande jogo de futebol, incluindo os da Copa do Mundo, a cena se repete. Os jogadores caminham em fila rumo ao gramado, cada um segurando a mão de uma criança. É um dos rituais mais reconhecíveis do esporte e, apesar de parecer antigo como o próprio jogo, tem data, lugar e nome de nascimento bem definidos: 5 de setembro de 1976, no Mineirão, em Belo Horizonte, idealizado por um jornalista do Clube Atlético Mineiro.
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O modelo que conhecemos hoje (uma criança para cada jogador titular, entrando de mãos dadas) foi inventado no Brasil, e a motivação foi essencialmente comercial. Em 1976, o Atlético Mineiro enfrentava dificuldades financeiras e precisava aumentar a renda de bilheteria. Ronan Ramos Oliveira, então jornalista e diretor de relações públicas do clube, teve uma sacada simples: se uma criança pudesse realizar o sonho de pisar no gramado de um grande estádio, os pais certamente comprariam ingresso para acompanhá-la na arquibancada. Ao estender a ideia para todo o time titular, o clube multiplicava as famílias atraídas ao estádio.
No começo, crianças precisam ser ‘sósias’ dos ídolos
A estreia aconteceu no Mineirão, contra o América Mineiro, em um clássico vencido pelo Atlético por 1 a 0, com gol de Reinaldo. Mas a versão original tinha uma exigência curiosa que hoje soa quase impossível. As crianças precisavam ser sósias físicas dos jogadores.
Essa regra gerou um baita quebra-cabeça logístico de encontrar uma criança parecida com o então goleiro, Ortiz, conhecido por seus cabelos longos presos por uma faixa elástica. A missão atrasou o projeto em semanas.
Os próprios jogadores só souberam da novidade minutos antes de entrar em campo, e ficaram surpresos ao encontrar, no túnel, 11 crianças que eram réplicas visuais deles mesmos. Em um gesto de esportividade, o Atlético sugeriu que o América Mineiro também levasse suas mascotes mirins ao gramado — o pontapé inicial para a disseminação da prática pelo país. Antes de lançar a iniciativa, Oliveira chegou a pesquisar em arquivos de jornais e consultar cronistas esportivos mais experientes para confirmar que aquele desfile de 11 crianças de mãos dadas com os titulares era, de fato, inédito no futebol mundial.
Da América do Sul para os gramados europeus
Ao longo das décadas seguintes, a ideia se espalhou de forma orgânica pela América do Sul e, já nos anos 1990, chegou à Europa, impulsionado pela modernização comercial de ligas como a Premier League e a Bundesliga. Até o fim do século, porém, a maioria dos clubes europeus ainda mantinha apenas uma ou duas crianças guiando o time coletivamente — sem o modelo de um acompanhante por jogador.
A virada definitiva veio na Eurocopa de 2000, sediada por Bélgica e Holanda. A UEFA determinou oficialmente que cada titular entrasse em campo de mãos dadas com uma criança, substituindo a tradição até então comum de os jogadores das seleções entrarem com os braços entrelaçados em sinal de união, postura mantida durante a execução dos hinos. A partir dali, o novo protocolo virou regra nas grandes competições internacionais.
A virada humanitária da Copa de 2002
Se a UEFA padronizou o formato do ponto de vista estético, foi a FIFA, em parceria com a UNICEF, quem deu ao ritual um significado humanitário global — na Copa do Mundo de 2002, no Japão e na Coreia do Sul. Em novembro de 2001, na sede da ONU, o secretário-geral Kofi Annan e o então presidente da FIFA, Sepp Blatter, ao lado de Pelé, firmaram uma aliança dedicando aquela Copa às crianças do mundo. Nasceu daí a campanha “Say yes for children”, voltada à promoção de educação, saúde e lazer seguro para a infância.
Nos 64 jogos daquele Mundial, as crianças entraram em campo vestindo camisetas brancas estampadas com o símbolo da campanha. A data de 19 de junho de 2002 foi instituída como o “Say yes for children world football day”. A ação incluiu ainda leilões solidários de camisas de jogadores revertidos para a UNICEF e campanhas com embaixadores do esporte, como o capitão italiano Paolo Maldini, além da gestão logística do programa, entregue ao McDonald’s, que selecionou 1.408 crianças de mais de 70 países para viajar, com despesas pagas, aos países-sede — consolidando o formato que se repetiria nas Copas seguintes.

Comercialização e suas críticas
Com o tempo, o protocolo se dividiu em dois caminhos bastante distintos. Federações e organizadores de torneios internacionais, como a UEFA, mantiveram sistemas de seleção via sorteios e parcerias com campanhas comunitárias. Já boa parte dos clubes europeus, sobretudo na Inglaterra, passou a vender pacotes comerciais para famílias, cobrando valores que chegam a centenas de libras para que uma criança entre em campo com kit personalizado, ingressos e fotos oficiais. O que gerou críticas por excluir famílias de menor renda de um momento pensado, originalmente, como aspiracional. Alguns clubes, como o Chelsea, adotam o caminho oposto, oferecendo vagas gratuitas por meio de listas de espera que chegam a durar anos.
A faixa etária das crianças (geralmente entre 6 e 12 anos) também não é aleatória. Reflete a ideia de que crianças menores têm mais dificuldade de lidar com a sobrecarga sensorial de um estádio lotado — luzes fortes, ruído intenso, multidão — enquanto as mais velhas já têm estabilidade emocional e motora suficiente para aproveitar a experiência sem estresse excessivo.
Por que a prática ‘pegou’
Além do apelo comercial e humanitário, há uma função comportamental para o ritual. A presença de crianças pequenas junto aos jogadores tende a inibir atos de violência nas arquibancadas, como o arremesso de objetos ao gramado, já que o torcedor evita colocar uma criança em risco mesmo em meio à euforia ou à raiva do jogo. O raciocínio é parecido com o de outra iniciativa brasileira. Em 2015, o Sport Club do Recife recrutou cerca de 30 mães de torcedores organizados para atuar como seguranças em um clássico contra o Náutico, sob o argumento de que ninguém quer brigar na frente da própria mãe, e a ação ajudou a conter confrontos entre torcidas rivais sem intervenção policial.
Do lado dos próprios atletas, a caminhada de mãos dadas com uma criança também cumpriria um papel psicológico. Ajudaria a aliviar a ansiedade pré-jogo e funcionaria como lembrete de que aquele jogador é observado (e imitado) por uma geração de fãs mirins, o que reforçaria a autocontenção em campo.
O modelo da Copa 2026: menos vitrine comercial, mais inclusão social
Meio século depois da estreia no Mineirão, a Copa do Mundo de 2026 — realizada em conjunto por Estados Unidos, México e Canadá — tenta reposicionar o protocolo. Em vez de sorteios ligados a marcas, a organização firmou parcerias com mais de 30 organizações comunitárias nas cidades-sede para recrutar 1.400 crianças de contextos de vulnerabilidade social, entre projetos como o StationSoccer, em Atlanta, ligado a uma rede de futebol gratuito construída perto de estações de trem, e a Puede Network, em Dallas, que atende bairros de baixa renda.