O escritor tinha acesso ao Claude… ia ia oouu
Canadense, nascido no Haiti, negro, Thélyson Orélien está envolvido em confusão imensa na França por acusações de uso de IA no livro mais recente. É racismo?

Na última semana, a França mergulhou numa discussão sobre literatura e o uso de inteligência artificial: um perfil anônimo no antigo Twitter (impressionante como tudo de ruim sai de lá…) denunciou um suposto caso de uso de inteligência artificial no processo de escrita do mais recente livro de Thélyson Orélien.
Acontece que aparentemente um dos integrantes do grupo que controlava o perfil anônimo era um ensaísta do “Le Figaro”.
Acontece que ele é branco.
Acontece que ele é de direita.
Acontece que o autor acusado é negro. Pronto. Caiu a casa.
A direção do prêmio Goncourt, o maior da França, acabou por retirar o livro da lista dos premiáveis. Orélien nega as acusações de uso de inteligência artificial, mas nos veículos onde escreveu abundam também denúncias de plágio contra ele. O cara tá bem enrolado.
Thélyson Orélien é uma fraude? É um injustiçado?
Essa história toda me faz pensar: será que toda coisa ruim dita sobre a literatura de um escritor negro é racismo? Será que qualquer coisa ruim dita sobre a literatura de um escritor negro tem que ser imediatamente salva da suspeita de ser racismo? Orélien é uma fraude literária? Orélien é um injustiçado?
Não há resposta fechada a essas perguntas. Fato é que há críticos racistas porque há pessoas racistas. Mas nem todo juízo estético é oriundo de racismo. Para simplificar as coisas: celebrar o tropeço de alguém porque esse alguém é negro é racismo. Constatar o tropeço, não.
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Ah, a justiça, a honestidade, o senso estético
Se um crítico diz que um livro é ruim porque foi escrito por um autor negro, esse crítico é…racista! Se um crítico diz que um livro é ruim porque é mal escrito ele pode até ser racista em sua vida particular, mas no exercício de sua crítica está sendo apenas… crítico!
Gostaria de poder dizer que há um mundo onde os críticos são justos. Gostaria de poder dizer que há um mundo onde os autores são honestos. Gostaria de poder dizer que há um mundo no qual a ojeriza a certos livros de autoria negra é fruto exclusivo do puro exercício do bom discernimento estético. Gostaria de poder dizer que há um mundo no qual a defesa dos autores negros resulta somente da justa indignação e do combate às injustiças culturais.
Há mesmo muitas coisas que eu gostaria de poder dizer. Contudo, meu papel na vida é dizer somente o que posso. E, às vezes, isso é bastante coisa.