Reportagem

Guerra nas redes tem ‘defesa da soberania contra os Bolsonaro’ x ‘antitrumpismo de Lula’

Levantamento do Instituto Democracia em Xeque mostra que 58% das interações se concentraram na busca por culpados pelo novo tarifaço

por Brenda Gusmão
17/07/2026 às 20:43 · Atualizado há 3 meses
Tarifaço em disputa entre esquerda e direita
Presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (fotos: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil e Leandro Lozada/AFP)

O novo tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deixou de ser apenas uma discussão sobre comércio exterior para se transformar em uma batalha política nas redes sociais. Embora a maior parte das publicações tenha se concentrado na cobertura factual da investigação americana e dos desdobramentos econômicos da medida, foram as discussões sobre quem deveria ser responsabilizado pela crise e sobre a defesa da soberania nacional que mobilizaram o maior engajamento, antecipando a disputa eleitoral de 2026.

É o que mostra um relatório do Instituto Democracia em Xeque (DX), divulgado nesta sexta-feira (17/7). O levantamento analisou 3.084 publicações entre os dias 10 e 16 de julho, período marcado pela oficialização das novas tarifas pelo governo Donald Trump e pela reação do Palácio do Planalto, que anunciou a possibilidade de retomada da Lei de Reciprocidade e atribuiu a medida do governo norte-americano à atuação da família Bolsonaro junto à Casa Branca.

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Ao todo, os conteúdos monitorados somaram 14,8 milhões de interações. O estudo identificou cinco eixos temáticos. Três deles – a investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), a crise envolvendo o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e a lista de produtos atingidos pelas tarifas – responderam por 51% das publicações. Já os dois eixos políticos, centrados na disputa pela culpa do tarifaço e na defesa da soberania nacional, representaram 49% do volume de posts, mas concentraram 58% das interações.

O relatório também identificou um cenário incomum de equilíbrio entre os principais atores da discussão. Direita e esquerda responderam, cada uma, por 34% das publicações, enquanto a imprensa concentrou os 32% restantes. De acordo com o DX, o equilíbrio é considerado raro para debates de alta polarização política.

Defesa da soberania impulsiona narrativa da esquerda

A defesa da soberania nacional foi o principal eixo mobilizado pela esquerda durante a crise. Nesse grupo, o campo respondeu por 65% das publicações (contra 31% da direita), impulsionando críticas ao governo Donald Trump, a defesa do Pix diante das acusações americanas e a narrativa de que a família Bolsonaro teria colaborado para a adoção das tarifas.

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O apelido “Tariflávio”, usado para associar o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro à decisão do governo americano, voltou com força. Também se destacaram publicações em defesa de uma resposta firme do governo brasileiro às tarifas impostas pelos Estados Unidos.

Direita aposta na culpabilização de Lula

O segundo maior eixo do levantamento, responsável por 30% das publicações, concentrou a disputa sobre quem seria o responsável pelo tarifaço. Nele, a direita respondeu por 44% das postagens (contra 38% da esquerda) ao atribuir a crise à política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo o relatório, perfis conservadores defenderam que Lula teria substituído a negociação diplomática por um confronto ideológico com Washington, e passaram a apresentar Flávio Bolsonaro como um possível interlocutor junto ao governo Trump. Declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, foram mobilizadas, por essa perspectiva dos contrários a Lula, para reforçar a narrativa de que o governo brasileiro seria o responsável pela deterioração da relação entre os dois países.

A cobertura factual da crise

A imprensa manteve a cobertura voltada para desdobramentos da medida. O relatório aponta que os veículos priorizaram a investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), as declarações de autoridades brasileiras e americanas e a divulgação da lista de produtos atingidos pelas novas tarifas.

Juntos, os três eixos factuais responderam por 51% das publicações analisadas. Apesar de concentrarem a maior parte do volume de posts, esses conteúdos registraram menos engajamento do que os eixos políticos.

Pesquisa Quaest aponta vantagem de Lula no debate sobre o tarifaço

Um levantamento Genial/Quaest divulgado na quinta-feira (16/7), realizado entre os dias 10 e 13 de julho – portanto, antes da oficialização do novo tarifaço –, mostrou que os brasileiros tendem a concordar mais com a posição de Lula do que com a de Flávio Bolsonaro na crise diplomática entre os dois países.

Ao serem questionados sobre quem teria razão no embate em torno da responsabilidade pelo tarifaço, 51% dos entrevistados disseram concordar mais com Lula, que atribui a medida à atuação de Flávio Bolsonaro junto ao governo Donald Trump. Outros 30% afirmaram concordar com o senador, que responsabiliza a política externa do governo brasileiro pela decisão americana, enquanto 19% não souberam responder.

Em outro cenário apresentado pelo instituto, 49% concordaram com a avaliação de Lula de que as tarifas representam uma retaliação ao Pix, contra 33% que concordaram com Flávio Bolsonaro, para quem a medida seria uma reação às declarações do presidente contra os Estados Unidos. Outros 10% disseram não concordar com nenhuma das duas posições, e 8% não responderam.

A pesquisa também mostrou preocupação com os possíveis efeitos econômicos da crise. Para 63% dos entrevistados, o novo tarifaço deve prejudicar a vida de suas famílias, enquanto 31% acreditam que não haverá impacto direto. O levantamento ouviu 2.004 pessoas em todo o país e tem margem de erro de dois pontos percentuais.

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