Tarifaço: governo calcula impacto, promete ajuda a empresários e prepara reação
Nova tarifa de 25% entra em vigor em 22 de julho; governo amplia apoio a setores afetados e nega irregularidades citadas pelos EUA

O governo Lula estima que 18% das exportações do país aos Estados Unidos serão atingidas pela nova rodada de tarifas anunciada pelo presidente Donald Trump com base na investigação da Seção 301. O indicador é o equivalente a US$ 7,4 bilhões. O cálculo foi feito com base nos dados de exportação de 2024, antes do primeiro tarifaço, no ano passado. A nova tarifa de 25% entra em vigor no dia 22 de julho. Mercadorias já em trânsito ficam isentas da cobrança adicional, desde que sejam desembaraçadas na alfândega até o dia 29 de julho.
Leia também: Mauro Vieira chama tarifaço de injustificável e afirma que Rubio ofendeu o Brasil
Para conter os efeitos do tarifaço sobre empresas e empregos, o governo anunciou que vai ampliar e reforçar o Plano Brasil Soberano, programa de apoio a setores considerados “injustamente afetados” pela tarifa americana. A coordenação da iniciativa ficará a cargo do ministro Márcio Elias Rosa, de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, que vai promover uma nova rodada de escuta com os setores atingidos.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconheceu que setores específicos da economia devem sofrer impacto mais forte, mas descartou que o tarifaço comprometa a macroeconomia brasileira como um todo. Ele também criticou grupos políticos e lideranças empresariais que, segundo ele, apoiam o pleito americano mesmo indo contra os interesses dos próprios setores que representam.
“Já temos prontos os mecanismos de proteção de nossas empresas e dos nossos empregos. Portanto, os setores afetados serão mais uma vez chamados ao diálogo, e nós ampliaremos e reforçaremos o Plano Brasil Soberano, que dá apoio a quem foi injustamente afetado pelo tarifaço dos Estados Unidos”, afirmou Durigan.
O ministro afirmou que as linhas de apoio a empresários nacionais já foram testadas com sucesso em outros momentos. Questionado sobre a viabilidade do novo Plano Brasil Soberano no orçamento, Durigan respondeu que o objetivo é reforçar as linhas já existentes do programa sem abrir mão do compromisso fiscal do governo.
“Faremos isso mantendo os nossos compromissos fiscais, mantendo as metas fiscais, como temos feito em todos os programas que temos anunciado recentemente, como, por exemplo, de minimização (dos impactos) da guerra do Irã”, disse.
Sobre a aplicação da Lei da Reciprocidade, o grupo de ministros que concedeu uma entrevista coletiva nesta quinta-feira (16/7) deve levar o tema ao presidente Lula, que dará orientação sobre a retomada do processo. Além de Rosa e Durigan, participaram o vice-presidente, Geraldo Alckmin; o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo; a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães; e os ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores; e João Paulo Capobianco, do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Como ficam as tarifas
Segundo Rosa, o quadro geral da pauta exportadora brasileira aos EUA — somando todas as camadas tarifárias em vigor — ficou assim, após o anúncio mais recente de Trump:
- 57% das exportações continuam sem qualquer tarifa;
- 24% estão sujeitas à Seção 232 (que atinge aço, alumínio e o setor automotivo, com alíquotas que podem chegar a 50%);
- 18% passam agora a ser afetadas pela Seção 301.
Governo nega irregularidades e cobra diálogo
O vice-presidente, Geraldo Alckmin, classificou a medida norte-americana como “injusta e descabida”. Segundo ele, dados do próprio governo dos Estados Unidos mostram que é o país americano quem tem excedente comercial com o Brasil, e não o contrário: nos últimos 15 anos, os EUA acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil. Alckmin lembrou ainda que, entre os países do G20, apenas três têm superávit comercial com os EUA: Brasil, Reino Unido e Austrália.
O vice-presidente também citou números sobre o acesso de produtos americanos ao mercado brasileiro: a tarifa média de entrada desses produtos no Brasil é de 3,1%, e cerca de 75% dos dez itens mais exportados pelos americanos ao país entram com tarifa zero.
“A medida é extremamente injusta e descabida, porque os argumentos levantados na Seção 301 têm base totalmente falsa, não têm a menor justificativa, seja a questão do Pix […] estamos batendo recorde de (combate ao) desmatamento. Todas as áreas que a gente for verificar, as bases não têm a menor procedência”, disse Alckmin.
O chanceler Mauro Vieira reforçou a sua declaração dada mais cedo, nesta quinta, e voltou a rebater as afirmações do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sobre o tarifaço. Segundo Vieira, desde março de 2025 o governo brasileiro manteve mais de 30 reuniões com autoridades americanas.
O chanceler lembrou ainda que a carta enviada pelo presidente Trump a Lula em 9 de julho de 2025, quando as tarifas foram elevadas a 50%, teria motivação política que está ligada, segundo o governo brasileiro, a uma tentativa de interferência no processo que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por golpe de Estado. “Eu sou testemunha de que desde o primeiro momento o presidente Lula buscou o diálogo, enfatizou a disposição de negociar qualquer tema.”
Vieira afirmou que o incômodo do governo americano decorre do fato de o Brasil não ter “se curvado” a demandas consideradas desmedidas durante as negociações, mas reiterou a disposição do país de seguir negociando, não apenas com os Estados Unidos, mas com qualquer parceiro comercial, como marca da política externa brasileira.
Desmatamento, Pix e combate à corrupção
O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, afirmou que os argumentos americanos sobre desmatamento não têm nenhum fundamento técnico e mudaram de versão ao longo do processo. Segundo ele, o governo dos EUA inicialmente alegava que o desmatamento no Brasil crescia de forma descontrolada, mas, diante de dados que mostram o contrário, passou a acusar o país de exportar madeira ilegal.
“Verificando que seria impossível seguir acusando o Brasil de aumentar o desmatamento de forma descontrolada, apareceram com uma nova informação, essa ainda mais falsa”, disse Capobianco.
Já o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, rebateu a alegação americana de que o Pix prejudicaria empresas dos Estados Unidos. Para ele, o argumento foi construído a posteriori para justificar uma tarifa pensada originalmente em torno do déficit comercial, e não se sustenta: mesmo após a criação do Pix, o uso de cartão de crédito no Brasil cresceu 150%, enquanto quem perdeu espaço foram o cheque e o dinheiro físico.
A secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães, por sua vez, disse que as alegações americanas sobre combate à corrupção ignoram informações e estatísticas apresentadas pelo Brasil ao longo de mais de 30 reuniões com os EUA. Segundo ela, parte da acusação se baseia em um relatório da OCDE de 2023 com dados do governo anterior, enquanto um relatório mais recente do mesmo organismo, de 2026, reconhece avanços do país no combate à corrupção, à lavagem de dinheiro e ao crime organizado.
Guimarães afirmou que o Brasil esperava do governo americano uma resposta à proposta de cooperação conjunta encaminhada por determinação do presidente Lula, mas não obteve nenhum retorno. “Nós agimos de boa fé e não tivemos nenhuma consideração pelas informações encaminhadas e nenhuma resposta à nossa proposta de atuação conjunta.”