Sucessivas intervenções do PT nacional debilitaram PT de Minas Gerais
Estratégia para ganhar o Planalto sempre foi imposta ao PT mineiro. Resultado está aí

O PT aprendeu a governar Belo Horizonte, mas nunca conseguiu transformar esse sucesso em um projeto duradouro para Minas Gerais. A legenda que administrou a capital por quase um quarto de século chega às eleições de 2026 sem uma liderança naturalmente competitiva para disputar o Palácio Tiradentes.
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É comum atribuir esse vazio à força dos adversários. Afinal, o partido enfrentou nomes como Eduardo Azeredo, Itamar Franco, Aécio Neves e, mais recentemente, Romeu Zema, além da ascensão da extrema direita. Esses fatores ajudam a explicar o cenário, mas não contam toda a história.
A dificuldade do PT em se consolidar no estado também decorre de escolhas feitas dentro da própria legenda. Ao longo de décadas, o projeto político mineiro foi repetidamente subordinado às prioridades nacionais do partido. Sempre que surgia uma liderança capaz de construir um caminho próprio em Minas, a estratégia presidencial acabava prevalecendo.
Paradoxalmente, Belo Horizonte mostra que o problema nunca foi falta de quadros.
Em 1992, Patrus Ananias foi eleito prefeito tendo Célio de Castro como vice. Depois, Célio sucedeu Patrus e Fernando Pimentel sucedeu Célio. Foi uma sucessão cuidadosamente construída, que garantiu estabilidade administrativa e continuidade política.
Mesmo quando Célio deixou o cargo por problemas de saúde, o grupo conseguiu preservar sua influência. Em 2008, Pimentel articulou a eleição de Márcio Lacerda, do PSB, ampliando para quase 24 anos a permanência de um mesmo campo político no comando da capital.
Se o modelo funcionou em Belo Horizonte, por que nunca foi reproduzido em Minas?
Porque, nas disputas estaduais, a lógica era outra.
Desde os anos 1990, o PT lançou candidaturas ao governo estadual — Virgílio Guimarães, Antônio Carlos Pereira (Carlão), Patrus Ananias e Nilmário Miranda — sem jamais conseguir romper a hegemonia de seus adversários.
É difícil não levantar uma questão: essas campanhas eram concebidas para conquistar o governo estadual ou, sobretudo, para assegurar ao candidato presidencial do PT um palanque robusto no segundo maior colégio eleitoral do país?
O episódio de 2010 simboliza essa dinâmica.
Fernando Pimentel venceu as prévias do partido e aparecia como o nome mais competitivo para disputar o governo mineiro. Ainda assim, a direção nacional decidiu preservar a aliança com o PMDB e apoiar Hélio Costa. A escolha podia fazer sentido para a estratégia presidencial de Lula, mas adiou novamente a construção de um projeto estadual próprio.
Pimentel só disputaria o governo em 2014. Foi eleito, tornando-se o primeiro governador petista de Minas. Seu mandato, porém, coincidiu com a mais profunda crise política e econômica enfrentada pelo país nas últimas décadas. A recessão, a Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff e a grave situação fiscal do estado limitaram sua capacidade de governo. Além disso, investigações e denúncias de corrupção envolvendo sua gestão e aliados desgastaram ainda mais o partido em Minas. Ao fim do mandato, o PT não conseguiu construir um sucessor competitivo.
O padrão se repetiu depois.
Em 2022, a legenda abriu mão de candidatura própria para apoiar Alexandre Kalil. Já em 2026, voltou a buscar alternativas externas antes mesmo de reorganizar suas lideranças estaduais.
Enquanto isso, outros estados seguiram trajetória diferente. Na Bahia, no Piauí e no Ceará, o PT conseguiu formar lideranças locais, produzir sucessões e consolidar projetos de longo prazo.
Em Minas, esse processo nunca se completou.
Seria simplista atribuir toda essa trajetória exclusivamente às decisões da direção nacional. Houve adversários fortes, mudanças no comportamento do eleitorado, disputas internas e o desgaste provocado pelo governo Pimentel. Todos esses fatores pesam.
Ainda assim, chama atenção a recorrência com que o partido sacrificou sua estratégia estadual em favor de objetivos nacionais.
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O resultado aparece de forma clara em 2026. O grupo político que revelou nomes como Patrus Ananias, Célio de Castro, Virgílio Guimarães, Nilmário Miranda e Fernando Pimentel — e que governou Belo Horizonte por quase um quarto de século — não dispõe hoje de uma liderança naturalmente viável para disputar o governo estadual, enquanto a direita ocupa esse espaço com muito mais facilidade.