Reportagem

STF amplia disputa sobre celular de Vorcaro na véspera de sessão sobre Moraes

André Mendonça tenta evitar que colegas do STF tenham acesso à íntegra do celular de Daniel Vorcaro; PF afirma que tem condições técnicas de entregar material

por Lourenço Flores
13/09/2026 às 20:13 · Atualizado há 3 semanas
Celular de Vorcaro é mais uma fonte de briga entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, ministros do STF
Alexandre de Moraes e André Mendonça, ministros do STF (Carlos Moura/SCO/STF)

O Supremo Tribunal Federal (STF) chega à véspera do que promete ser o capítulo mais grave de sua crise interna – até agora – com um impasse: quem tem direito de acessar o conteúdo dos celulares do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Neste domingo, 13/9, a Polícia Federal respondeu ao presidente da Corte, Edson Fachin, que tem condições técnicas de enviar cópias do material aos ministros. A posição da corporação é mais uma cutucada no ministro André Mendonça, relator original do caso, que se opõe à abertura dos dados para os colegas.

Pouco depois, o ministro Cristiano Zanin ordenou, em um despacho cheio de recados ao colega André Mendonça, que a PF envie todo o conteúdo do celular, impreterivelmente, até as 23h deste domingo. A comunicação de Zanin afirma que “os elementos de prova pertencem ao plenário do Supremo Tribunal Federal e aos seus integrantes, não a um integrante específico do Supremo Tribunal Federal”. O ministro chega a escrever que “não há hierarquia” entre integrantes da Corte, e que não há como chegar à sessão marcada para terça-feira sem todas as informações.

O caso gira em torno, primordialmente, de um iPhone 17 Pro apreendido na Operação Compliance Zero, que investiga uma miríade de operações suspeitas no Banco Master, e na Operação Sem Desconto, sobre fraudes no INSS. Vorcaro está preso preventivamente desde março de 2025. Foi da extração dos dados do aparelho que a PF reuniu indícios de que o ex-banqueiro trocou mensagens e pediu conselhos ao ministro Alexandre de Moraes às vésperas de sua prisão. E foi esse material que acabou revelado por Mendonça e embasou o pedido que pode resultar na investigação do colega (e rival) Alexandre de Moraes.

Em 1º de setembro, por meio da petição 16.662, Mendonça levantou o sigilo do relatório da PF que revelou os diálogos entre Vorcaro e Moraes — e também com o procurador-geral da República, Paulo Gonet. O material fez explodir uma crise sem precedentes no tribunal. Moraes se enfureceu e pediu que Mendonça fosse incluído no Inquérito das Fake News para ser investigado, alegando haver “indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade” na condução pelo colega, que ocupa a poltrona ao lado da sua no plenário da Corte, dos procedimentos ligados ao caso Master.

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A disputa pelo HD

O ponto central do embate é uma cópia de segurança dos dados, entregue voluntariamente pela PF ao gabinete de Mendonça em 8 de março de 2026. O material chegou em envelope lacrado — sob o lacre B0003311945 — como um HD criptografado. O celular original permanece sob custódia da PF.

Mendonça sustenta que a cópia é uma “contraprova”, a ser usada apenas em caso de perda ou extravio do material original, e afirma que ela nunca foi manuseada por ele. Em despacho neste domingo, escreveu que a abertura de “todas as informações contidas no celular” apenas “contribuiria para tumultuar o julgamento” e “colocaria em risco todo o seguimento e êxito das investigações”. O ministro também pediu que Fachin responda a questionamentos de quatro delegados da PF sobre divergências de informação no repasse dos dados.

Leia mais: Fachin tira Mendonça do comando de processo que investiga ligações de Moraes e Vorcaro

Do outro lado, Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes batalham pelo acesso à íntegra antes do julgamento. Zanin argumenta que se trata de uma cópia — e que a cadeia de custódia se preserva em relação ao material original —, além de lembrar que a defesa de Vorcaro já teve acesso ao conteúdo, ao contrário dos demais ministros do STF. E Gonet reforçou: todos os magistrados deveriam conhecer previamente a integralidade dos dados para formar seus votos.

Fachin assume o caso

Na noite de sábado, 12/9, Fachin tomou duas decisões de peso. Determinou que a PF informasse, em 24 horas, quem detém a custódia do material e em que estado ele está. E retirou a relatoria da petição 16.662 das mãos de Mendonça, transferindo-a para a Presidência do STF.

Fachin também determinou o envio à Presidência dos processos sobre o Banco Master e sobre os descontos indevidos no INSS — ambos relatados por Mendonça —, mas não assumiu (ainda) a relatoria deles. E rejeitou o pedido de julgamento conjunto dos casos de Moraes e de Mendonça.

O que está em jogo

Na terça-feira, 15/9, o plenário decide, em sessão transmitida ao vivo, se abre investigação formal contra Moraes por suposto recebimento de dinheiro para proteger Vorcaro. O julgamento envolve a petição 15.556. O risco de adiamento é real: se o envio do HD ocorrer, cresce a chance de um ministro pedir vista.

Para a quarta da semana seguinte, 23/9, Fachin pautou a análise de suposto crime de responsabilidade e abuso de autoridade atribuído a Mendonça. No sábado, a defesa de Vorcaro pediu que o tribunal filtre dados íntimos e protegidos por sigilo — imagens de familiares, inclusive dos filhos, e comunicações com advogados — antes de qualquer divulgação. O tema se somou ao inquérito aberto em março para apurar o vazamento de mensagens do ex-banqueiro, entre elas conversas com a empresária Martha Graeff, ex-namorada de Vorcaro, que vieram a público após a apreensão.

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Em paralelo, o ministro Flávio Dino retirou, também neste domingo, o sigilo da investigação do caso Dark Horse com material da Polícia de São Paulo, sobre desvio de emendas parlamentares, e o ministro Dias Toffoli declarou-se suspeito para julgar a prisão de Vorcaro.

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