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A política, a TV, o entretenimento e o que bomba nas redes

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Análise

Será que a gente precisa mesmo saber de tudo?

Talvez estar bem-informado não seja conhecer todas as notícias. Talvez seja conseguir identificar quais delas realmente merecem um pedaço da sua vida

27/09/2026 às 05:55 · Atualizado há 2 semanas
Notícias sem parar, o tempo todo
(Imagem gerada com IA/Magnific)

Tenho uma lembrança cada vez mais distante de quando acordar significava simplesmente acordar. Você abria os olhos, levantava, escovava os dentes, tomava café e, em algum momento, descobria o que estava acontecendo no mundo. Agora não.

Agora você acorda e, antes mesmo de decidir se vai levantar, já sabe que alguém falou uma barbaridade, uma autoridade respondeu, outra autoridade rebateu a resposta, um famoso terminou o casamento, outro começou, uma pesquisa eleitoral saiu, um vídeo viralizou, uma guerra piorou, alguém foi preso, alguém foi solto e existe uma nova polêmica que, aparentemente, todo mundo já está discutindo há três horas.

São 7h14 da manhã.

E você nem fez xixi.

Talvez um dos grandes luxos do nosso tempo tenha se tornado justamente não saber de alguma coisa. Para alguém que trabalha com notícia, como eu, essa frase chega a soar como heresia. Passei boa parte da vida profissional acreditando – e continuo a acreditar – que informação é uma ferramenta fundamental de cidadania. Uma sociedade bem-informada toma decisões melhores, fiscaliza melhor quem exerce o poder e fica menos vulnerável à manipulação.

O problema é que informação e excesso de informação não são necessariamente a mesma coisa…

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Cansaço profundo e o fim do silêncio

Divulgado no último mês de junho, o Digital News Report 2026, produzido pelo Reuters Institute da Universidade de Oxford, encontrou um dado que me chamou especialmente a atenção: 47% dos brasileiros afirmam evitar notícias às vezes ou com frequência. Quase metade do país!

Talvez a primeira reação seja pensar: as pessoas estão desinteressadas. Mas não tenho certeza se é isso. Talvez elas estejam cansadas.

Porque durante muito tempo o problema da humanidade foi a escassez de informação. Era preciso esperar o jornal chegar, ligar o rádio, assistir ao telejornal. Entre um acontecimento e a notícia daquele acontecimento havia um intervalo. E esse intervalo, que hoje pareceria intolerável, produzia uma coisa que praticamente desapareceu da nossa relação com o noticiário: silêncio.

Hoje não existe intervalo.

A notícia chega. Depois chega a repercussão da notícia. Depois a reação à repercussão. Depois alguém faz um vídeo reagindo à reação da repercussão. Depois surge um corte desse vídeo. Depois alguém contesta o corte. Depois aparece uma thread explicando por que a contestação está errada. E, quando finalmente entendemos o que aconteceu, já aconteceu outra coisa.

O próprio Reuters Institute registrou uma mudança histórica em 2026: pela primeira vez, considerando os países pesquisados, redes sociais e plataformas de vídeo ultrapassaram sites e aplicativos jornalísticos como principal maneira de acessar notícias on-line. São 54% contra 51%. Isso muda mais do que o lugar onde recebemos informação: muda a velocidade. Muda a linguagem. Muda a hierarquia.

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Guerra, cachorro fofinho, pudim e adeus àquele casal tão shippado

Na capa de um jornal havia uma decisão editorial dizendo: isto é mais importante do que aquilo. Num feed, a guerra no Oriente Médio pode aparecer entre um vídeo de cachorro e uma receita de pudim. Um escândalo político divide espaço com a separação de um casal famoso. Uma tragédia entra antes de uma publicidade de tênis e depois de um meme.

E tudo parece exigir de nós uma reação. Esse talvez seja o aspecto mais exaustivo dessa nova relação com a informação: já não basta saber. Parece que precisamos imediatamente sentir alguma coisa sobre aquilo: indignação, revolta, comoção, deboche, medo…

E, de preferência, publicar.

A notícia deixou de ser apenas algo que recebemos. Virou algo que precisamos processar, comentar, compartilhar, contestar ou defender. O cidadão contemporâneo ganhou um segundo emprego que ninguém pediu: comentarista permanente da realidade.

Talvez por isso tanta gente esteja apertando o botão de desligar. E aqui mora um problema…

Quando alguém decide que não aguenta mais acompanhar o noticiário, não desaparecem apenas a gritaria, as notificações e as polêmicas inúteis. Podem desaparecer junto informações necessárias para compreender uma eleição, uma mudança na economia, uma decisão judicial, uma política pública ou alguma coisa que afeta diretamente a sua própria vida.

O desafio, portanto, talvez não seja consumir mais notícia. Talvez seja reaprender a consumir notícia.

Escolher fontes. Estabelecer horários. Desligar notificações. Entender que não precisamos acompanhar cada capítulo de cada polêmica. Aceitar que podemos descobrir uma coisa duas horas depois sem que a República entre em colapso.

E, principalmente, recuperar uma distinção que os algoritmos fizeram questão de embaralhar: aquilo que é urgente e aquilo que simplesmente conseguiu chamar nossa atenção.

Lembrar que silêncio talvez também seja saúde.

Claro, não estou propondo que ninguém abandone o noticiário. Seria particularmente contraditório escrever isso numa coluna de site. Estou propondo apenas uma ideia que parece quase revolucionária em 2026: você não precisa saber de tudo.

Nem imediatamente.

Talvez estar bem-informado não seja conhecer todas as notícias. Talvez seja conseguir identificar quais delas realmente merecem um pedaço da sua vida.

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
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