Senado: como eleição com 2 votos faz nulos dispararem e dificulta plano da direita
Votação em cada estado para duas vagas no Senado desencadeia reação comportamental que costuma dificultar escolha de dois candidatos de um mesmo grupo político

Antes de ser condenado e preso, o ex-presidente Jair Bolsonaro havia dado a pista. Em encontros com apoiadores, insistia que o seu campo político deveria concentrar esforços para eleger o maior número de senadores este ano. A estratégia é formar maioria para controlar a Mesa Diretora do Senado, dominar comissões estratégicas e viabilizar pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A crise recente do STF envolvendo o principal alvo dos bolsonaristas, o ministro Alexandre de Moraes, reforça o apelo dessa tese entre a militância e lideranças conservadoras.
Este ano, estão em disputa 54 cadeiras do Senado (2/3 do total), definidas em 2018, quando Bolsonaro foi eleito presidente. Nas eleições de 2022, 14 senadores apoiados pelo ex-presidente se elegeram. Para ter maioria de parlamentares alinhados com as pautas do bolsonarismo (41 dos 81 senadores), o campo da direita precisa conquistar ao menos 27 cadeiras. É possível, mas esse objetivo esbarra na dinâmica de disputa para o Senado em eleições para duas vagas.
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Esse dilema ocorre porque a disputa de 2/3 das cadeiras desencadeia uma reação comportamental na cabine de votação que costuma punir a eleição de dois candidatos de um mesmo grupo político. Como o eleitor não pode votar duas vezes em um mesmo candidato (voto cumulativo), ele é confrontado com uma questão prática. Temendo o risco de não eleger o seu candidato preferível, parte dos eleitores tende a anular o segundo voto, mesmo sendo competidores de um mesmo campo político. Com isso, a segunda vaga quase invariavelmente é capturada por forças concorrentes e sob uma linha de corte de votação mais baixa.
Voto nulo deliberado cresce nesse modelo de disputa ao Senado
Ao comparar as eleições de uma vaga (2006, 2014 e 2022) com as disputas de duas vagas (2002, 2010 e 2018), observamos que a abstenção eleitoral não se altera em função do modelo de eleição do Senado, permanecendo confinada na faixa de 19% nos dois casos. O percentual de votos em branco também permanece rigorosamente estável: a média nacional foi de 8,46% nas disputas de uma vaga e de 8,33% nas disputas de duas vagas. Esses dados sugerem que o eleitor não se torna mais apático ou desinteressado pela política quando é chamado a votar duas vezes.
A diferença ocorre no voto nulo deliberado de cabine. Enquanto nas eleições de uma vaga a taxa de nulos fica em torno de 11,08%, nas eleições de duas vagas salta para 14,56%. Trata-se de uma expansão de 3,48 pontos percentuais, o que representa um crescimento relativo de 31,4%. Em 2018, ano em que foram eleitos justamente os senadores que encerram seus mandatos em 2026, a taxa de votos nulos de cabine atingiu o pico histórico de 17,90%. Somada aos brancos, alcançou quase 27% de todos os votos depositados na urna para o Senado.

O aumento dos votos nulos em eleições para 2/3 do Senado é resultado do mecanismo do voto isolado. Há diferenças consideráveis quando o eleitor é chamado a participar de eleição com apenas uma opção de voto e quando ele precisa fazer isso duas vezes. Nesse segundo caso, o eleitor comparece à seção, digita e confirma o voto no candidato favorito na primeira vaga. Daí em diante temos possíveis hipóteses para o aumento dos votos nulos.
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A primeira é que, sem um segundo nome forte na coligação, o eleitor, temendo o risco de não eleição do seu candidato preferido, anula a segunda opção. Outra hipótese, que tendo a achar seja menos provável, é puro desconhecimento. Sem saber que pode votar em um segundo candidato, o eleitor, ao ser confrontado novamente pela tela de voto, acaba clicando em “Nulo”.

Quando desagregamos os dados pelas 27 unidades da federação, vemos que esse fenômeno não é um desvio regional, mas um padrão nacional consistente. Em 26 dos 27 estados (96,3% do país), a taxa de votos nulos cresce nas disputas de duas vagas. O fenômeno é particularmente intenso, com aumentos superiores a 10 pontos percentuais em Tocantins (+12,88 p.p.), no Pará (+10,81 p.p.) e no Distrito Federal (+7,10 p.p.).

Queda da linha de corte para a segunda vaga
A consequência desse comportamento de anular o voto é a queda da linha de corte da segunda vaga. Ao retirar milhões de votos da conta dos votos válidos, os eleitores acabam reduzindo o custo eleitoral para que forças adversárias ou moderadas conquistem o mandato.
Em 2018, enquanto o primeiro colocado obteve, em média nacional, 27% dos votos válidos, o segundo conquistou a cadeira de oito anos com apenas 20,75% dos válidos. Em alguns colégios eleitorais, o limiar caiu ainda mais: no Distrito Federal, Izalci Lucas (na época do PSDB) foi eleito em segundo com apenas 15,33% dos votos válidos; em Sergipe, Rogério Carvalho (PT) conquistou a vaga com 16,42%; e em Tocantins, Irajá Abreu (PSD) foi eleito com 16,82% dos votos.
Essa dispersão explica por que a estratégia de conquistar duas cadeiras simultaneamente por uma mesma chapa raramente se concretiza. Em 2018, em 74,1% dos estados (20 das 27 UFs), as duas cadeiras de senador foram divididas entre coligações adversárias. Em apenas 7 estados (25,9%) a mesma aliança conseguiu eleger a bancada dupla.
O caso de Minas Gerais em 2018 ilustra o efeito dessa mecânica. Naquele pleito, Rodrigo Pacheco liderou a apuração e conquistou a primeira vaga pelo DEM (hoje União Brasil) com 20,49% dos votos válidos. O seu colega de coligação, Dinis Pinheiro (Solidariedade), alcançou 18,42%, mas acabou derrotado, porque a base aliada concentrou votos em Pacheco. Com a desidratação da chapa, a segunda vaga foi conquistada por Carlos Viana, que concorria por um partido isolado (o PHS) e se elegeu com 20,22% dos votos.
Diante desse cenário, a meta da direita de alcançar a maioria absoluta (41 senadores) depende da sua capacidade de solucionar a coordenação política das chapas. Sem acordos prévios que repartam bases geográficas e puxem o voto casado, o candidato principal tende a canibalizar o aliado da chapa e abrir a segunda vaga para adversários.
Além disso, como a armadilha do voto isolado limita as chances de vitórias duplas, o campo conservador não conseguirá compensar desvantagens regionais (Nordeste) apenas dobrando, por exemplo, as bancadas no Sul, Sudeste ou Centro-Oeste. Para atingir as 27 cadeiras necessárias e ter maioria no Senado, seria, portanto, obrigado a vencer a primeira vaga em praticamente todos os 27 estados da federação — um feito de altíssima complexidade diante da heterogeneidade regional do país.
*Fábio Vasconcellos é cientista político e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática – UFPR