Reportagem

Secas severas ameaçam abastecimento de 20 milhões no Sudeste, alerta estudo

Pesquisa da UERJ e da Funceme indica que estiagens no Rio Paraíba do Sul podem durar até dois anos contínuos e ter severidade sete vezes maior até o fim do século

por Luiza Barufi
Publicado em 21/08/2026 às 02:01
Terreno com solo seco e rachado devido às secas
Solo seco e rachado reflete o avanço da estiagem e os riscos de crises hídricas (Freepik)

Secas menos frequentes, porém substancialmente mais severas e duradouras, devem ameaçar a segurança hídrica das regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro nas próximas décadas. Um estudo realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) em parceria com a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), divulgado pela Agência Bori e publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos, projeta um cenário crítico para a Bacia do Rio Paraíba do Sul — manancial do qual dependem mais de 20 milhões de pessoas.

A urgência do alerta acompanha a expansão do fenômeno pelo país. Dados do Monitor de Secas revelam que, entre junho e julho, a estiagem se intensificou em 12 estados — incluindo Rio de Janeiro e Minas Gerais —, enquanto São Paulo registrou um abrandamento temporário. Apenas quatro unidades da Federação, como Rio Grande do Sul e Santa Catarina, permanecem totalmente livres da seca.

Mapa do Monitor de Secas em junho e julho de 2026 (Divulgação)

Segundo a projeção para um cenário climático intermediário de emissões, as estiagens na sub-bacia de Paraibuna darão um salto de duração, passando dos históricos oito meses para quase dois anos contínuos até o fim do século. Já na sub-bacia de Santa Cecília, em Barra do Piraí (RJ) — ponto central de transferência de água para a região metropolitana fluminense —, o índice que mede a força e a duração acumulada das secas disparará da média histórica de 7,9 pontos para mais de 58 pontos no cenário de aquecimento mais pessimista.

Para alcançar maior precisão nas estimativas, os pesquisadores aplicaram o Índice de Representação de Seca (DRIP), metodologia desenvolvida pelos próprios autores. O uso da ferramenta reduziu as incertezas dos modelos climáticos em até 70%, confirmando a necessidade urgente de planos de contingência governamentais.

Apesar de o estudo focar no futuro, o impacto do clima e das secas já é perceptível na prática. “Trata-se de cenários futuros, mas a bacia já sentiu os efeitos das mudanças climáticas em eventos recentes. Como o estudo utiliza modelos de previsão, ele não crava exatamente o que está acontecendo agora, mas indica uma tendência. Em 2015, tivemos uma seca severa na bacia e, mais recentemente, em 2025, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) decretou estado de alerta para a região da bacia e do Cantareira. O Sudeste já vem sofrendo com esses eventos”, explica o pesquisador e um dos autores do estudo, Lucas Pereira de Almeida.

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O perigo do ‘ciclo hidro-ilógico’

Um dos principais alertas do estudo é o risco da perda de memória coletiva e de políticas públicas durante os anos de fartura de chuvas, fenômeno conhecido no meio científico como ciclo hidro-ilógico. Como os eventos de estiagem serão mais espaçados, a tendência do poder público é relaxar a prevenção.

“A nossa preocupação é que a memória, principalmente das políticas públicas, às vezes é muito curta. A gente tende a esquecer aquele evento drástico que teve no passado. Se passamos muitos anos sem seca, a tendência de esquecer é grande, e o planejamento durante o período de bonança não acontece”, alerta Lucas.

O especialista compara a dinâmica climática projetada a um organismo debilitado: “O desafio do futuro não será necessariamente conviver com mais eventos de secas, mas com secas potencialmente mais difíceis de enfrentar. É como um paciente que adoece menos vezes, mas enfrenta infecções muito mais graves e debilitantes. A recuperação entre um evento crítico e outro pode levar mais tempo”.

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Infraestrutura e o desafio da caixa d’água regional

A porção alta da bacia, localizada no estado de São Paulo, abriga os reservatórios de Paraibuna e Santa Branca. Essa região estratégica exige atenção redobrada dos gestores públicos dos três estados banhados pelo rio (SP, RJ e MG).

“Essa parte alta funciona como se fosse a caixa d’água da bacia toda. Quando uma seca atinge essa área, é como se essa caixa demorasse muito mais para ser reabastecida. Aos poucos, os impactos das secas se espalham para outras partes da bacia, afetando o abastecimento das cidades e a geração de energia”, explica o pesquisador.

Embora a Região Metropolitana de São Paulo venha adotando medidas de flexibilização operacional e restrição de uso, os principais beneficiários da bacia continuam sendo o seu próprio interior e a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Esta última depende diretamente da transposição das águas do Paraíba do Sul para a Bacia do Rio Guandu.

“A transposição [para o Guandu] não é uma infraestrutura de abastecimento natural; foi criada há muito tempo para produção energética e depois virou fundamental para o abastecimento do Rio de Janeiro. Ela tem uma regra operativa que foi revisitada na crise de 2015, mas hoje discute-se se esse regramento deveria ser rediscutido para abarcar grandes mudanças climáticas. Acredito que algumas ações têm sido feitas, mas ainda temos muito a evoluir para garantir a resiliência dos sistemas. Temos condições de aprimorar a governança e criar regras operativas que sejam adaptáveis aos cenários futuros”, destaca Lucas.

Ciência para a tomada de decisão

Para os autores, a divulgação dos dados busca municiar os gestores públicos e a sociedade civil antes que os piores cenários se concretizem em períodos de secas. “Não podemos confiar cegamente em modelos climáticos, mas a falta de informação sobre previsões futuras no Brasil é um grande problema. A intenção é provocar a preparação. A tendência está posta. Queremos que gestores, políticos e empresas privadas comecem a pensar em como se preparar caso esse futuro se concretize, garantindo um ambiente informado para aprofundar a discussão”, conclui Lucas.

Ações de mitigação recomendadas

Para evitar crises de desabastecimento de grandes proporções, o estudo aponta diretrizes essenciais para os governos estaduais e municipais durante os momentos de abundância hídrica:

  • Regras operacionais dinâmicas: flexibilização da gestão dos reservatórios de acordo com projeções sazonais.
  • Gatilhos de contingência: mecanismos automáticos de resposta rápida ao primeiro sinal de estiagem prolongada.
  • Gestão de demanda por setor: políticas de controle de consumo para a indústria, agricultura e abastecimento doméstico.
  • Uso de modelos preditivos: incorporação de dados de tendência climática para antecipar cenários de risco antes do esgotamento dos mananciais.
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