Reportagem

Projeto do YouTube, Amado Mundo e Quaest traz docs e dados das festas juninas do Nordeste

'São João do Brasil' percorre Campina Grande, Amargosa e Caruaru para revelar os bastidores da festa, enquanto pesquisa inédita da Quaest mapeia o impacto das quadrilhas juninas

por Brenda Gusmão
22/06/2026 às 15:00 · Atualizado há 4 meses
No São João de Amargosa, mulher toca sanfona
O episódio sobre o São João de Amargosa, na Bahia, estreia no dia 23 de junho (Foto: Iago Aquino)

Muito antes do forró ocupar os palcos e milhões de pessoas tomarem as ruas, o São João já movimenta costureiras, músicos, quadrilheiros, artesãos e trabalhadores que passam meses preparando uma das maiores manifestações culturais do país. É desse espaço pouco visível que parte “São João do Brasil”, nova série documental do Amado Mundo que percorre Campina Grande (PB), Amargosa (BA) e Caruaru (PE) para acompanhar as histórias de quem faz a festa acontecer. Os docs integram um projeto do YouTube que inclui ainda a Quaest, com uma pesquisa exclusiva sobre os festejos.

Para o jornalista Guilherme Amado, publisher do Amado Mundo, a iniciativa ajuda a ampliar o conhecimento sobre São João fora dos territórios onde a tradição está presente. “Esta é uma pequena amostra de um fantástico e divertido mundo que o Brasil, infelizmente, conhece muito pouco. É uma alegria para um canal que tem diversidade no seu DNA poder contar um pouco dessas histórias. A parceria com o YouTube e a Quaest é uma aposta na força da diversidade brasileira”, ressaltou.

Realizada em parceria com o YouTube e com apoio do Ministério da Cultura, a série é dividida em três episódios e acompanha os bastidores das festas juninas a partir do olhar de cineastas locais. O primeiro documentário, dedicado a Campina Grande (PB), estreou em 16 de junho. No dia 23, chega ao canal o capítulo sobre Amargosa (BA), comandado por Iago Aquino. A série se encerra em 30 de junho com o episódio sobre Caruaru (PE), dirigido por Analice Bezerra e Adriano Ruivão.

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A escolha por cineastas dos estados retratados foi um dos pilares do projeto. Segundo o diretor de Desenvolvimento e do AmaDocs, braço documental do Amado Mundo, Luís Gustavo Ferraz, a proposta era que cada realizador encontrasse, a partir de seu próprio olhar, momentos capazes de revelar aspectos particulares das festas juninas. A soma dessas perspectivas ajuda a construir um retrato plural do São João em diferentes regiões do Nordeste.

“Para construir a série, propusemos aos cineastas que, cada um à sua maneira, buscassem instantes irrepetíveis. Momentos que, mesmo pertencentes a uma tradição, fossem tão específicos e únicos para as pessoas retratadas que só poderiam ser testemunhados daquela forma uma vez, no São João deste ano, diante da câmera deles”, explicou.

‘Maior São João do mundo’

Ensaio da quadrilha “Moleka 100 Vergonha” (Foto: doc Campina Grande)

A festa junina de Campina Grande, no agreste paraibano, costuma ser lembrada pelos números. Desde 2022, o município detém oficialmente o título de Maior São João do Mundo. Nesta 43ª edição, serão 33 dias de programação e a expectativa é receber mais de 3,5 milhões de visitantes no Parque do Povo. O primeiro episódio, já disponível no Amado Mundo, volta o olhar para o que acontece antes da abertura dos portões e da chegada dos turistas.

Dirigida por Ana Calline, a produção passa pela Feira Central de Campina Grande, considerada um dos principais símbolos da identidade cultural da cidade, acompanha ensaios da quadrilha Moleka 100 Vergonha e apresenta costureiras, quadrilheiros e artistas populares que ajudam a manter viva a celebração.

Nascida na Paraíba, Calline conta que o São João faz parte de sua própria trajetória e que o processo de gravação permitiu conhecer mais de perto personagens e bastidores que ajudam a construir a festa muito antes de junho chegar.

“O São João de Campina Grande está marcado em mim como uma tatuagem, literalmente, pois tenho uma em meu corpo que representa essa época. Espero que o documentário seja mais um impulso para projetar a nossa identidade para o mundo”, disse.

O São João de Amargosa entre devoção e memória

A fé é parte fundamental do São João de Amargosa (Foto: Iago Aquino)

O episódio dedicado a Amargosa, no Recôncavo Baiano, busca registrar aquilo que seus moradores definem como o “charme” do São João. Dirigido pelo cineasta Iago Aquino, o documentário acompanha a preparação da cidade para os festejos, passando pela montagem das decorações, pelas quadrilhas juninas e, é claro, pelas tradições ligadas às celebrações de Santo Antônio.

Para Aquino, o desafio do filme foi justamente registrar uma manifestação cultural que ultrapassa os sentidos. Segundo ele, o São João ocupa um lugar afetivo na formação de muitos nordestinos e só pode ser plenamente compreendido por quem vivencia a festa.

“O São João não passa apenas pelo que a gente vê e escuta. É um campo afetivo para nós, nordestinos. Cada acontecimento vai se juntando ao outro e [isso] torna o São João o que ele é. Um sentimento que só quem participa da festa consegue sentir. Todos os lugares que a gente passava, o assunto era São João. A música era a música de São João, a comida era a comida de São João”, afirmou.

O São João de Caruaru ao longo dos anos

O doc dedicado a Caruaru observa como o São João se transformou ao longo das décadas. Dirigido por Analice Bezerra e Adriano Ruivão, o filme percorre polos de festa, feiras, ruas e personagens que ajudam a entender como uma manifestação popular se tornou uma das maiores engrenagens culturais e econômicas do país sem romper totalmente com suas origens.

A relação dos dois diretores com a cidade ajudou a construir esse olhar. Analice se mudou para Caruaru ainda na adolescência e conta que seu primeiro contato com o principal palco da festa aconteceu por meio de um show distante das tradições juninas. Com o tempo, porém, passou a buscar os espaços onde o forró, o baião e outras expressões culturais locais permaneciam mais presentes.

“Comecei nas pequenas faíscas da infância, passei pelas fogueiras do interior e desaguei no clarão enorme de Caruaru. E é ali, no meio de tanta luz, que continuo aprendendo a procurar o que permanece aceso”, contou.

Já Adriano Ruivão, que nasceu em São Paulo, passou pelo Recife e vive em Caruaru desde 2015, observou que morar na cidade permitiu ver uma relação com o São João que não se restringe ao mês de junho e vai muito além de quadrilhas e quermesses.

“É uma cidade que realmente respira o São João, onde o tempo e o cotidiano parecem se orientar pelo que acontece antes ou depois dos festejos. A comida de milho não é só no período junino; durante todo o ano você encontra pamonha, canjica ou mungunzá nas ruas, nos mercados e nas padarias”, destacou.

No passo das quadrilhas juninas

A série integra o projeto Viva Junina, realizado em parceria com o YouTube, que também inclui um levantamento inédito conduzido pela Quaest sobre as quadrilhas juninas. A pesquisa ouviu representantes de grupos de diferentes estados e identificou que as quadrilhas se consolidaram como uma das expressões mais relevantes da cultura popular brasileira.

Segundo o estudo, os grupos podem mobilizar de cerca de 100 a mais de 300 pessoas, entre dançarinos, costureiras, músicos, cenógrafos, produtores e equipes de apoio.

O levantamento aponta ainda que as quadrilhas funcionam como importantes espaços de inclusão e convivência. A gerente de Sustentabilidade e Riscos da Quaest, Nathalia Bernis, ressaltou que elas criam verdadeiras redes de apoio e oportunidades que vão além da preservação cultural.

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“Para além da beleza estética e cultural, dos concursos e festivais, as Quadrilhas Juninas funcionam como potentes vetores de progresso social no Brasil. Os dados revelam um impacto profundo na base da sociedade e nos territórios onde atuam: elas transformam realidades de vulnerabilidades sociais, promovem a inclusão e criam redes de apoio essenciais para os quadrilheiros. Elas se tornaram projetos de vida em seus territórios, criando laços de pertencimento”, diz Nathalia Bernis, gerente de Sustentabilidade e Riscos da Quaest.

O levantamento aponta ainda que as quadrilhas funcionam como importantes espaços de inclusão e convivência. Os grupos reúnem pessoas de diferentes gerações, classes sociais, religiões e trajetórias de vida, além de desempenharem papel relevante no acolhimento da população LGBTQIAPN+. A pesquisa também identificou forte presença feminina em funções de liderança, gestão e criação artística. Em Campina Grande, por exemplo, seis das 14 quadrilhas pesquisadas são presididas por mulheres.

Outro dado destacado pela Quaest é que, apesar da crescente sofisticação dos espetáculos, as quadrilhas continuam enfrentando desafios para garantir sustentabilidade financeira. A produção envolve áreas como figurino, cenografia, maquiagem, música, transporte, comunicação e gestão, gerando trabalho para diversos profissionais da cultura. Ao mesmo tempo, os grupos dependem de editais, concursos e programas de incentivo para manter suas atividades ao longo do ano.

Assista ao primeiro episódio da série “São João do Brasil”:

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