Reportagem

História das favelas: estudo usa literatura para revelar o impacto das remoções

Pesquisa da PUCPR analisa Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Sérgio Vaz para resgatar o que mapas e estatísticas oficiais não conseguem registrar

por Luiza Barufi
29/09/2026 às 05:59 · Atualizado há 2 semanas
Registro histórico em preto e branco da demolição de barracos durante a remoção da Favela do Castelo, no Rio de Janeiro, em 1961
Remoção da Favela do Castelo, no Rio de Janeiro, em 1961 (Domínio público/Acervo Arquivo Nacional – Reprodução Bori)

Ao reconstruir as trajetórias históricas das favelas brasileiras ao longo de mais de seis décadas, um estudo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) publicado na Revista Brasileira de História e divulgado pela Bori recorreu à literatura periférica para revelar a vivência real de quem enfrentou as políticas estatais de remoção. O estudo traz obras de autores como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo como fontes históricas para documentar perdas sociais durante deslocamentos forçados em cidades como São Paulo e Belo Horizonte.

“O documento oficial mostra a operação, mas a literatura consegue registrar a experiência”, sintetiza a urbanista Manoela Massuchetto Jazar, autora principal do artigo “Favelas brasileiras: trajetórias históricas, três obras literárias (1960-2016)”.

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Fruto de dois anos de pós-doutorado de Jazar, em coautoria com os professores Clovis Ultramari e Paulo Nascimento Neto, a pesquisa aproxima os estudos urbanos, a história e as letras. A proposta central não é substituir os levantamentos estatísticos, como explica a pesquisadora, mas complementar seus pontos cegos: enquanto os censos quantificam, cartografam e fornecem a escala bruta dos centros urbanos, “a literatura resgata os laços comunitários, a memória, o medo e o pertencimento que a burocracia técnica não alcança”.

O olhar de dentro: a literatura periférica contra a visão estigmatizante

Historicamente, as favelas foram descritas por relatórios governamentais e pela imprensa tradicional a partir de uma ótica externa, frequentemente rotuladas como “elementos estranhos” ou problemas a serem saneados. O estudo da PUCPR subverte essa lógica ao analisar três obras fundamentais produzidas a partir da experiência direta de seus territórios:

  • Quarto de Despejo (1960), de Carolina Maria de Jesus: diário sobre a favela do Canindé (SP) nos anos 1950, que retrata a luta cotidiana contra a fome e a indiferença das instituições públicas.
  • Becos da Memória (2006), de Conceição Evaristo: narrativa ambientada na década de 1970 em Belo Horizonte, que expõe o trauma da remoção forçada e o desmonte das memórias coletivas pelas retroescavadeiras.
  • Flores de Alvenaria (2016), de Sérgio Vaz: poesia contemporânea gestada na Zona Sul de São Paulo, representativa da fase em que a periferia se organiza politicamente em torno de saraus, coletivos e do orgulho territorial.

“A partir desses relatos, vemos o espaço urbano pela perspectiva de quem vive a dor e a delícia daquele lugar”, afirma Jazar. “Aparecem as redes de solidariedade e vizinhança, mas também a denúncia viva da ineficiência e da ausência deliberada do Estado.”

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Para conferir rigor acadêmico à leitura das obras, os pesquisadores utilizaram ferramentas da teoria literária de Umberto Eco. O texto é compreendido como uma mensagem lançada em uma garrafa ao mar: decodificada com métodos científicos, a subjetividade literária passa a funcionar como fonte documental para a historiografia e o urbanismo.

Carolina Maria de Jesus e o pioneirismo do diário da favela

Publicado em 1960, “Quarto de despejo: diário de uma favelada” marcou uma ruptura histórica ao colocar no centro do debate público a voz de uma mulher negra e catadora de papel. O impacto foi imediato: os 3 mil exemplares da tiragem inicial esgotaram-se rapidamente, alcançando cerca de 90 mil cópias vendidas no Brasil em apenas seis meses.

Com vendagens que ultrapassam as de Jorge Amado na época e traduções para mais de 14 idiomas, a obra de Carolina antecipou o papel da escrita periférica como documento sociológico incontornável sobre as tensões da modernização urbana no país.

O custo humano das remoções de favelas e a expulsão para as margens

Ao comparar os episódios de remoção das décadas de 1960 e 1970 com as dinâmicas atuais, o estudo evidencia a continuidade de uma lógica higienista: a retirada de populações de baixa renda de áreas centrais valorizadas e a sua transferência para franjas periféricas desprovidas de serviços básicos e transporte coletivo.

“Tratar a moradia apenas como um obstáculo físico a ser removido para abrir espaço a intervenções viárias ou imobiliárias é uma continuidade perversa”, avalia Jazar. “Esse processo destrói trajetórias de vida e redes comunitárias de apoio mútuo. Mesmo programas habitacionais recentes repetiram erros ao alocar conjuntos em locais distantes e desarticulados da malha urbana consolidada.”

Como contraponto, o estudo defende a incorporação do termo “cidades incipientes“, propondo abandonar a classificação estigmatizante de irregularidade para reconhecer as favelas como partes da cidade em consolidação ativa, cujas tecnologias sociais precisam guiar o desenho das políticas públicas.

Cidades incipientes: a urgência de uma escuta efetiva no planejamento urbano

Apesar da permanência da desigualdade territorial, o estudo reconhece avanços institucionais conquistados no país, como a consolidação do Estatuto da Cidade, a função social da propriedade, o debate sobre o direito à cidade e a recente decisão do IBGE de retomar formalmente a palavra “favela” nos censos oficiais.

O nó crítico permanece na aplicação prática. Segundo a pesquisadora, as audiências e oficinas de participação social muitas vezes se esvaziam em formatos burocráticos que não captam os anseios das comunidades.

“A literatura lembra que a cidade é constituída por laços afetivos e redes de sobrevivência que não podem simplesmente ser desfeitos para dar lugar a habitações padronizadas em locais distantes”, conclui Jazar. A intenção da equipe agora é ampliar a metodologia para a música e o cinema periféricos, reforçando que o planejamento urbano precisa dialogar com a sensibilidade artística para compreender as cidades brasileiras por inteiro.

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