Menopausa: Anvisa aprova primeiro remédio não hormonal para fogachos
Especialista da Febrasgo explica como nova pílula "recalibra" o termostato do cérebro; entenda o mecanismo e quem pode tomar

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o fezolinetanto, primeiro medicamento não hormonal desenvolvido especificamente para tratar as ondas de calor e suores noturnos associados à menopausa. Comercializado no Brasil pela farmacêutica Astellas, com o nome Veoza (45 mg), o remédio de uso diário em comprimido chega para mudar a realidade de um mercado que, até então, só oferecia terapias hormonais ou adaptações de outros remédios, como antidepressivos, para aliviar os sintomas vasomotores.
A novidade impacta diretamente a saúde pública do país: estima-se que cerca de 30 milhões de brasileiras estão na fase do climatério e da menopausa — o que representa aproximadamente 7,9% de toda a população do país —, enfrentando os incômodos calorões, que surgem, em média, entre os 48 e 51 anos.
Para a Rita de Cassia Dardes, ginecologista da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), a aprovação “é uma excelente notícia, porque reconhece a importância dos sintomas da menopausa e oferece uma alternativa não hormonal especificamente desenvolvida para os fogachos. Mas o tratamento moderno não significa escolher sempre o medicamento mais novo: significa avaliar cada mulher individualmente, explicar benefícios e riscos e tomar a decisão em conjunto com ela”.
Um dos maiores impactos dessa aprovação é reduzir uma importante lacuna assistencial. “Ele oferece às mulheres que não podem, não desejam ou não toleram hormônios uma alternativa baseada no mecanismo dos fogachos, com eficácia demonstrada, permitindo que o tratamento seja mais personalizado e que essas pacientes recuperem sono, funcionalidade, qualidade de vida e liberdade de escolha.”
Principais questões sobre o novo remédio para menopausa
Para aprofundar as principais dúvidas que cercam a chegada do Veoza ao mercado nacional, confira a entrevista detalhada com a especialista Rita de Cassia Dardes:
Como o remédio funciona no cérebro se não tem hormônio?
Durante muito tempo, sabíamos que a queda do estrogênio da menopausa estava relacionada aos fogachos, mas não compreendíamos com precisão qual circuito cerebral transformava essa alteração hormonal em ondas de calor e suores noturnos. Foi necessário um longo processo de pesquisa básica e translacional até se identificar o papel central dos neurônios KNDy, localizados no hipotálamo, e especialmente da sinalização entre a neurocinina B e o receptor NK3 no controle da temperatura corporal.
Na menopausa, a redução dos níveis de estrogênio aumenta a atividade desse sistema, estreitando a chamada zona termoneutra. Como consequência, pequenas variações da temperatura corporal passam a desencadear respostas desproporcionais de dissipação de calor, como vasodilatação, rubor e sudorese. O fezolinetanto bloqueia seletivamente o receptor NK3 e reduz essa hiperatividade, sem administrar estrogênio.
Por que há um alerta rígido sobre exames de fígado (monitoramento hepático)?
O medicamento já é utilizado nos Estados Unidos, onde foi aprovado em 2023, mas a experiência de vida real ainda é relativamente recente.
Portanto, ainda não temos dados observacionais de décadas ou estimativas definitivas sobre eventos muito raros. A principal contribuição da farmacovigilância internacional até o momento foi justamente identificar casos raros, porém potencialmente graves, de lesão hepática induzida pelo medicamento que não haviam aparecido com a mesma gravidade nos estudos clínicos.
Por conta disso, o monitoramento por exames de sangue antes e durante os primeiros meses de tratamento é uma regra de segurança indispensável.
Qual o impacto real e a quem se destina essa nova opção?
O maior ganho dessa aprovação é reduzir uma importante lacuna assistencial na saúde feminina.
Ele oferece às mulheres que não podem, não desejam ou não toleram hormônios uma alternativa baseada no mecanismo dos fogachos, com eficácia demonstrada, permitindo que o tratamento seja mais personalizado e que essas pacientes na menopausa recuperem sono, funcionalidade, qualidade de vida e liberdade de escolha.
Historicamente, as opções não hormonais eram limitadas. O que tornou o desenvolvimento do fezolinetanto um desafio científico tão longo?
O desenvolvimento foi desafiador, porque era necessário criar uma molécula que chegasse adequadamente ao sistema nervoso central, tivesse ação seletiva, pudesse ser administrada por via oral e apresentasse segurança aceitável para uso prolongado. Compostos anteriores que atuavam nessa mesma via chegaram a demonstrar eficácia, mas alguns tiveram seu desenvolvimento interrompido por alterações das enzimas hepáticas. Isso tornou a avaliação da segurança do fígado particularmente rigorosa durante o desenvolvimento dessa classe.
O fezolinetanto é uma inovação porque foi desenvolvido especificamente a partir do conhecimento do mecanismo neural que produz o sintoma, tão associado à menopausa.
Que tipo de dado a experiência internacional nos traz sobre o risco no fígado?
Nos estudos de fase 3, elevações das enzimas do fígado (transaminases) ocorreram em aproximadamente 2,3% das mulheres que receberam o remédio (contra 0,9% no grupo placebo). Em geral, foram alterações assintomáticas e reversíveis. Porém, após a comercialização nos EUA, foram notificados casos de lesão hepática com sintomas como cansaço, náuseas, icterícia (pele e olhos amarelados) e urina escura.
Isso levou a FDA americana a incluir um alerta máximo em bula no fim de 2024, exigindo exames de sangue antes do início do tratamento e repetições mensais nos três primeiros meses. No Brasil, o acompanhamento deve seguir exatamente o esquema de segurança que foi estabelecido pela Anvisa.
O medicamento pode ser considerado uma solução universal ou há perfis que não se beneficiam? E qual o cuidado com pacientes que tiveram câncer de mama?
Não é uma solução universal. Ele atua especificamente sobre fogachos e suores noturnos moderados a intensos. Não trata a secura vaginal, não previne a perda óssea e não resolve alterações de humor. Mulheres com sintomas leves não precisam dele, e pacientes com cirrose ou doença renal grave podem ter contraindicações.
Sobre o câncer de mama: pelo fato de ser não hormonal, gera grande interesse. Contudo, mulheres em tratamento oncológico ativo não foram incluídas nos principais testes. As informações internacionais atuais não recomendam seu uso rotineiro durante o tratamento do câncer enquanto não saírem estudos específicos (como o Highlight 1, que está em andamento). Para quem já terminou o tratamento, a decisão deve ser tomada em conjunto entre o ginecologista e o oncologista.
Para quem tem contraindicação absoluta aos hormônios, como histórico de trombose, qual o real impacto dessa chegada?
O impacto é enorme. No estudo Daylight, feito justamente com mulheres inadequadas para a terapia hormonal por contraindicação ou intolerância, o fezolinetanto reduziu significativamente as ondas de calor e melhorou a qualidade do sono. A paciente ganha autonomia: ela não precisa mais escolher entre suportar um sintoma que destrói sua produtividade e bem-estar ou correr riscos de saúde. Vale ponderar que ele não elimina a necessidade de acompanhamento médico e que a terapia hormonal tradicional continua sendo a mais eficaz para quem pode usá-la. O fezolinetanto não veio para competir, veio para somar e preencher um vazio histórico.