Relato de Bruno Gagliasso sobre ‘iniciação’ sexual com prostituta reacende debate sobre violência
Introdução precoce ao sexo e exposição à pornografia afetam desenvolvimento de adolescentes, apontam pesquisadoras

Pagar uma mulher, que está se prostituindo, para transar com um menino de 13 anos não é introduzi-lo ao sexo, é cometer uma violência contra esse pré-adolescente.
Pela lei brasileira, toda pessoa menor de 14 anos é considerada incapaz de consentir, e, portanto, qualquer ato sexual com crianças e adolescentes dessa idade é considerado estupro de vulnerável. Também comete o crime quem age para que ele aconteça. Mesmo assim, a prática, tida como uma “introdução sexual” dos meninos, é naturalizada e disseminada no Brasil.
O ator Bruno Gagliasso passou por isso. Ao jornal O Globo, contou que só teve consciência de que a experiência foi traumática depois de algum tempo. “Levaram uma garota de programa na minha casa, e eu tinha obrigação de fazer sexo. Foi difícil, não foi legal, foi ruim. Fingi que foi bacana. E foi traumático”, afirmou, em entrevista à jornalista Maria Fortuna, no videocast “Conversa vai, conversa vem”.
Ao lembrar da experiência, ele a comparou com o consumo precoce de pornografia, que coloca meninos e meninas em risco: “Tive que reaprender a fazer sexo, porque achava que era o que via nos filmes, na pornografia. E vejo isso, hoje, como traumático”.
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O ator defendeu o controle sobre a exibição do conteúdo pornográfico e apontou que é nocivo também para os homens, que têm desde cedo o imaginário moldado por performances sexuais inalcançáveis e envoltas em violência.
Danos da pornografia são tema de estudo no Brasil e nos EUA
O tema é objeto de estudo da pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), ligada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Ana Cristina Sousa. Ao dar aulas para adolescentes por mais de 20 anos, ela percebeu os prejuízos que a pornografia estava causando no desenvolvimento da vida sexual de suas alunas e de seus alunos.
Preocupada com a “sexualidade roubada” desses adolescentes, Sousa se voltou aos estudos internacionais sobre o tema e percebeu que os gêneros mais consumidos na pornografia, como “gang rape” (estupro coletivo) e incesto, “estão fazendo download de uma programação superviolenta em pessoas cada vez mais jovens”.
Ela notou ainda a falta de pesquisas sobre o tema no Brasil e o protagonismo dos Estados Unidos na produção de evidências nas últimas décadas. Submeteu então um projeto ao Programa de Especialista da Fulbright (Fulbright Specialist Program) e conseguiu trazer ao país a psicóloga clínica e pesquisadora argentina Ana Julia Bridges, professora do Departamento de Ciências Psicológicas da Universidade do Arkansas.
Referência em estudos sobre a relação da pornografia com violência sexual e os seus impactos sobre as relações, Bridges está no país, com o apoio da Faperj, para compartilhar seus estudos com estudantes e pesquisadores interessados em compreender os efeitos sociais e psicológicos da pornografia contemporânea, especialmente em adolescentes e jovens adultos.
O que os estudos da especialista apontam vai na direção do que Bruno Gagliasso constatou na prática. Para Bridges, discutir pornografia não significa defender censura, mas compreender como determinadas narrativas e padrões de sexualidade podem influenciar percepções sobre consentimento, poder e violência.