Como rede extremista no X montou e espalhou falsa associação de Lula à pedofilia
Monitoramento de quase 2 mil posts revela como fala sobre prevenção do câncer de próstata foi distorcida e impulsionada por IA, influenciadores e rivais de Lula

Uma investigação realizada pelo portal Aos Fatos revelou como uma rede de perfis de extrema direita no X (antigo Twitter) articulou uma narrativa falsa para associar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à pedofilia. O levantamento, baseado no monitoramento de 1.819 publicações feitas entre 28 e 29 de setembro de 2026, reconstituiu o caminho percorrido pela desinformação, que partiu de manipulações com inteligência artificial até atingir o topo dos assuntos mais comentados da rede social.
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Manipulação via IA e distorção de discurso de Lula
A articulação começou horas antes de um comício do presidente em Belém (PA), no qual Lula discursava sobre exames de prevenção ao câncer de próstata. Integrantes da chamada “bolha da resenha” — ecossistema de perfis alinhado à estética de chans, os fóruns de discussão online anônimos, e ao humor extremista — realizaram testes com o Grok, assistente de inteligência artificial do X. Ao usarem jogos de palavras com a expressão “cerveja e picanha”, os usuários forçaram o chatbot a publicar que “Lula consome CP” (sigla em inglês para pornografia infantil). Embora a própria ferramenta tenha esclarecido depois que se tratava de um jogo de palavras sem sustentação factual, a manipulação serviu de estopim.
Logo após a fala em Belém, perfis como a influenciadora Pâm (do portal The Incorrupt e do Estúdio 5) e a página Space Liberdade divulgaram cortes do discurso. Em questão de minutos, as publicações passaram a acusar o presidente de pedofilia de forma explícita e a convocar mutirões para subir hashtags como “PROTEJAM AS CRIANÇAS” e “LULA NÃO TOQUE NAS CRIANÇAS”. Ao todo, 43% das publicações analisadas no levantamento faziam acusações diretas ou incitavam o compartilhamento da alegação.
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Amplificação política e determinação do TSE
A desinformação virou uma “bomba” nacional na manhã de 29 de setembro, quando o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um vídeo reproduzindo o corte. Pouco após a postagem do parlamentar, os slogans da campanha atingiram o topo dos “Assuntos do Momento” no X.
Diante da gravidade da distorção, a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que o deputado removesse a publicação da rede social no prazo de 24 horas. A decisão destacou que o vídeo retirou uma declaração de saúde pública de seu contexto original para atribuir-lhe uma conotação falsa associada a crimes contra crianças e adolescentes.
Nota de Crédito: esse texto foi elaborado com base na reportagem investigativa original “Como uma rede extremista no X articulou a falsa associação de Lula à pedofilia”, escrita pela repórter Méuri Elle e publicada pelo portal Aos Fatos em 30 de setembro de 2026. A investigação faz parte do LIE (Laboratório de Investigação Eleitoral), uma coalizão jornalística que reúne a Agência Pública, o Amado Mundo, o Aos Fatos e o Núcleo Jornalismo.
