Reportagem

Gol histórico da República Democrática do Congo leva alívio a cidade no epicentro do ebola

Empate da República Democrática do Congo com Portugal rendeu raro motivo de celebração em Bunia, onde doença já matou ao menos 44 pessoas

Publicado em 27/06/2026 às 06:00
Torcedores congoleses vestidos com as cores da bandeira nacional celebram o gol de empate em Bunia (Foto de Jospin Mwisha / AFP)
Torcedores congoleses vestidos com as cores da bandeira nacional celebram o gol de empate em Bunia (Jospin Mwisha / AFP)

O primeiro ponto da história da República Democrática do Congo em Copas do Mundo deu aos compatriotas em Bunia, epicentro do surto de ebola, uma rara chance de celebrar.

O gol de Yoane Wissa em Houston — também o primeiro na curta história da seleção em Copas do Mundo — garantiu um ponto contra um Portugal repleto de estrelas, como o lendário Cristiano Ronaldo.

O técnico francês da RD Congo, Sébastien Desabre, disse estar orgulhoso de seus jogadores, “porque representaram o Congo de forma muito positiva, e o país inteiro merece isso”.

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Isso certamente se refletiu em Bunia, capital da província de Ituri, no nordeste do país, que tem sofrido o maior impacto do 17º surto de febre hemorrágica enfrentado pela RD Congo.

O vírus já infectou mais de 1.100 pessoas e resultou em 279 mortes na RD Congo e em Uganda, segundo os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde.

Em Bunia, foram registrados 275 casos e 44 mortes, de acordo com números congoleses, embora a capacidade de testagem seja limitada.

Assistir à Copa do Mundo nos poucos televisores em funcionamento disponíveis trouxe um pouco de alívio para a população local.

O gol de Wissa, no dia 17 de junho — jogador do Newcastle, da Premier League inglesa —, provocou cenas de pura alegria.

Jovens saltavam com os braços erguidos e os rostos iluminados de felicidade, celebrando nas ruas, em frente a lojas com paredes de chapa ondulada.

Uma algazarra ensurdecedora se misturava aos gritos de torcida, enquanto outros faziam “cavalos de pau” de moto.

Os bares estavam à beira de explodir de tanta gente — apesar da decisão das autoridades, no fim de maio, de limitar aglomerações a 50 pessoas na tentativa de conter a propagação do ebola.

“É uma honra apoiar meu país”, disse à AFP Antoinette Makasi, que ficou feliz por ter encontrado um bar com televisão.

Makasi acrescentou, no entanto, estar preocupada com a falta de distanciamento social, e afirmou que, ao chegar em casa, “vou me desinfetar”.

O bar em que ela estava explodiu em comemoração quando Wissa marcou, com todos os clientes se levantando e gritando em coro, em um ambiente iluminado por uma única lâmpada.

Aconteça o que acontecer no restante do torneio, esse grupo já enterrou os fantasmas de seus antecessores de 1974, que representaram o então chamado Zaire e voltaram para casa sem nenhum ponto e tendo sofrido 14 gols.

‘Estou com raiva’

Mas o clima de melancolia no bar reflete a situação da província.

Ituri é uma das regiões mais instáveis da RD Congo, onde grupos armados moldam o cotidiano da população. Rebeldes ligados ao grupo Estado Islâmico e milícias locais realizam ataques frequentes.

“Precisamos de momentos que nos tragam um pouco de felicidade e nos permitam esquecer, ainda que por um instante, a perda de nossos irmãos e irmãs”, disse à AFP Héritier Kimbimbi, com a bandeira nacional sobre os ombros.

Mas nem tudo foi festa antes de a bola rolar. Cerca de uma centena de jovens, com as cores da RD Congo pintadas no rosto e vestindo a camisa da seleção, se reuniram em torno do telão instalado em uma rotatória no centro da cidade. No entanto, foi em vão: a tela permaneceu apagada.

“O dia inteiro, todos os dias, eles transmitem propagandas sobre o ebola, mas na hora do jogo desligam o telão”, disse, irritado, Héritier Dubo.

“Estou com raiva”, disse o taxista Claude Maniwa. “Muitos de nós não têm televisão e, de qualquer forma, há problemas constantes com a energia elétrica. As autoridades nos decepcionaram”, acrescentou, antes de ameaçar quebrar a tela.

Felizmente, a tensão diminuiu, e os jovens pularam em motos-táxi para encontrar algum estabelecimento ou restaurante onde pudessem assistir à partida.

No fim, valeu a corrida, em uma rara noite de boas notícias para o país.

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