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Análise

Rankings sexuais: quando a misoginia vira brincadeira, jogo e violência 

Mais do que bullying, os rankings sexuais revelam como a cultura digital transforma a objetificação de meninas em entretenimento coletivo

Publicado em 22/07/2026 às 06:00
Misoginia nas redes
Misoginia nas redes (Foto Pexel)

Nos últimos dias temos acompanhado notícias sobre os chamados “rankings sexuais”, que são listas que adolescentes têm criado para listar meninas em categorias depreciativas, como “GOAT” (“Greatest of all time ou “a melhor de todos os tempos”), “comeria no lucro” ou “bêbado vai”. Ao todo, as investigações dos casos de misoginia mais recentes no Rio de Janeiro apontam para 131 vítimas identificadas, entre 14 e 18 anos, de colégio de elite a instituto federal. 

Leia também: Estupro coletivo de dois meninos é retrato cruel de pandemia silenciosa

Tais casos não são necessariamente uma novidade. Sabe-se que esse tipo de lista sempre aconteceu nas escolas. A questão que amplifica a violência é que agora as listas são disponibilizadas na internet. Uma das vítimas, do Colégio Cruzeiro, da zona sudoeste do Rio de Janeiro, descobriu a violência ao colocar o próprio nome completo em um buscador, em uma brincadeira com as amigas. 

Algo que antes era tido como brincadeira — e cabe aqui dizer que nunca foi — agora se transformou em uma violência amplificada pelas redes. E, vale dizer, em um contexto onde temos falado insistentemente sobre misoginia, esse ódio gratuito a mulheres, que pode vir inclusive a se tornar crime, se o Projeto de Lei da Misoginia avançar. 

Importante olhar para estes casos com as lentes do momento. Não são os mesmos meninos dos anos 80, 90. Mas são filhos deles, que hoje, além da estrutura machista de outrora, contam com uma nova estrutura organizada para legitimar suas frustrações e transformá-las em ódio: a machosfera. A misoginia é a mesma daqueles tempos, mas a violência é ampliada, sistematizada, divulgada e, quiçá, eternizada. Pois ainda que os sites sejam retirados do ar, os nomes das vítimas sempre serão associados ao ocorrido por qualquer nova busca na internet.

A machosfera como escola informal da misoginia

Os meninos de hoje são bombardeados por conteúdos de influenciadores que ensinam – literalmente, com passo a passo – como objetificar meninas e mulheres. Alguns até usam isso como discurso para atraí-las, aproveitando a vulnerabilidade da frustração de alguns com as rejeições delas. Qualquer menino de 10 a 12 anos hoje se depara facilmente com algoritmos que os estimulam a humilhar mulheres, e com o atrativo da cortina do humor. 

Há outro aspecto importante no fato de esta violência estar nas redes sociais, que é a “gamificação da misoginia”. Os participantes não necessariamente começam motivados por ódio explícito às meninas, mas pela dinâmica “gamer”, da competição, da graça e da recompensa social. Curtidas, compartilhamentos e a aprovação do grupo tornam a violência um jogo coletivo. Os meninos que se recusam a fazer parte acabam sendo rechaçados e excluídos. 

Aqui é importante lembrar que nenhuma violência começa no último degrau, no patamar físico, como um estupro ou feminicídio. Aqueles estupros coletivos dos quais falamos meses atrás têm nessas “brincadeiras” a mesma lógica cultural: a de que meninas existem para serem avaliadas, classificadas, compartilhadas e consumidas coletivamente. Os rankings sexuais não são apenas uma manifestação da misoginia na internet. São um lembrete de que a violência de gênero começa muito antes da agressão física. Ela começa quando o corpo feminino deixa de ser reconhecido como sujeito de direitos.

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Em uma sociedade em que estupros coletivos continuam acontecendo, vale questionar o que está por trás desses episódios e uma lista feita por adolescentes. E a resposta não está na intensidade da violência, mas na lógica que a sustenta: a ideia de que mulheres existem para servir ao desejo, ao julgamento e à validação masculina. Enquanto essa lógica continuar sendo ensinada — em casa, nas escolas, nas redes e pelos algoritmos — seguiremos tratando os sintomas sem enfrentar a raiz do problema. 

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