Quem torce para o azarão não vota em patrão
A gente procura consertar as injustiças do mundo com as vitórias do campo. A Inglaterra tem melhores escolas? Nós fazemos gol de bicicleta. A Espanha tem melhores museus? Nós inventamos o futebol arte

Já parou para pensar que a gente tem certa adoração pelo azarão? O mais subestimado, o mais incompleto, o herói improvável é justamente esse que amamos amar. Na Copa do Mundo — sim, o Brasil foi eliminado, mas o que vocês queriam com Neymar em campo e Pelé no céu? — pois bem… na Copa do Mundo a gente torce para o azarão. A gente sonha em ver o impossível acontecer. A saga da vitória improvável é sempre mais bela do que os méritos confirmados dos favoritos de sempre. Nosso cérebro se viciou em histórias de superação.
O sujeito é o menos festejado, portanto, deve merecer meu apoio. Eu não estou disposto a apoiá-lo em dinheiro. Eu não estou disposto a apoiá-lo pagando mais caro pelas mercadorias que o meu país importa do país dele. Eu não quero que a balança comercial seja desfavorável para nós; e se o país dele for invadido por um desses países grandões que invadem os outros, não farei nada além do que mostrar meu repúdio curtindo postagens pacifistas insossas. Contudo, o meu aplauso na Copa os países pequenos têm. A minha torcida está com eles. É assim que somos.
Consertar as injustiças do mundo no campo e torcendo pro azarão
Na semana passada eu falei sobre o desejo de certos autores de consertar os estragos da vida social salvando seus personagens? Pois é. A gente faz o mesmo nos esportes. A gente procura consertar as injustiças do mundo com as vitórias do campo. A Inglaterra tem melhores escolas? Nós fazemos gol de bicicleta. A Espanha tem melhores museus? Nós inventamos o futebol arte. A Alemanha têm as melhores estradas…? Nós… bom, você entendeu o argumento. Possivelmente esse seja um mecanismo de compensação. Ficamos ao lado de Davi por noventa minutos porque Golias é quem manda na gente o restante do tempo. Torcemos para o menor contra o maior porque somos os menores. A vitória do fraco é nossa. Vozinha nos representa porque nós também merecíamos algo melhor do que o título de campeão moral do torneio da vida.
O esporte coloca, em certo sentido, e por um período maravilhosamente catártico: a sensação de vitória ao alcance dos olhos. Mas futebol também é lição: quando eu era jovem — isso foi há oitenta anos — torci com meus amigos contra a Seleção Brasileira. O ano era 1998 e eu acreditava que a vitória da seleção de Ronaldo representaria uma onda de alienação que conduziria à terrível reeleição de Fernando Henrique Cardoso. As massas eram alienadas, o futebol era o ópio do povo, e eu e meus três amigos do Ensino Médio do colégio Sévigné tínhamos a responsabilidade de salvar a revolução socialista. Zinedine Zidane comandou o massacre na final. Nós comemoramos intensamente: Allez, allez les Bleus! Vibramos com a tristeza de Dunga e a cabeça baixa de Taffarel. Foi duro, mas era necessário. Ocorre que Fernando Henrique se reelegeu meses depois. E em 2022, em Yokohama, o Brasil foi pentacampeão, com a minha devida torcida. Naquele mesmo ano, Lula se reelegeu e eu aprendi que política e futebol sempre se misturam, mas nunca da maneira como queremos que se misture. Nas fendas por onde entram as paixões saem também as certezas.