Paulo Abrão
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Análise

Quem decide o Brasil no domingo? O voto que falta tem rosto de mulher

Decisão pode pender para quem compreender melhor o que pensam as brasileiras – seus medos, suas prioridades materiais, relação com família, religião e cuidado

28/09/2026 às 16:57 · Atualizado há 1 semana
Voto das mulheres pode ser decisivo
O Levante Mulheres Vivas em ato em Brasília para denunciar violência contra mulheres (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Na reta final do primeiro turno, a eleição parece ser decidida menos por conversão ideológica e mais por administração de medos, rejeições e disposição de comparecer. Lula e Flávio Bolsonaro chegam aos últimos dias com eleitorados fortemente consolidados, rejeições praticamente idênticas e relativamente poucos votos disponíveis. Numa disputa assim, quatro ou cinco pontos não são necessariamente uma multidão abstrata: são pessoas concretas que ainda hesitam, podem mudar, podem escolher o voto útil ou simplesmente podem não aparecer no domingo.

E algo me chama particularmente a atenção nessa parcela ainda móvel do eleitorado: a última semana parece ter rosto de mulher.

O Datafolha oferece uma pista importante. Na pergunta espontânea, aquela em que os nomes dos candidatos não são apresentados, 18% dos brasileiros ainda não sabem em quem votar. Mas essa indecisão é profundamente desigual: chega a 24% entre as mulheres e cai para 13% entre os homens. Duas semanas antes, eram 29% entre elas e 16% entre eles. Ou seja, a indecisão está diminuindo, como seria esperado na reta final, mas continua muito mais concentrada no eleitorado feminino.

A Quaest acrescenta uma segunda informação ainda mais sugestiva: mudou a natureza do medo entre as mulheres. No conjunto do eleitorado, o país aparece dividido quase perfeitamente entre o temor da reeleição de Lula e o temor da volta da família Bolsonaro ao poder. Entre as mulheres, porém, o medo da volta do bolsonarismo cresceu nas últimas semanas. Esse movimento coincide com uma ampliação da vantagem de Lula nesse segmento, embora as oscilações precisem sempre ser lidas dentro das margens de erro.

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‘Voto feminino’ pode ser chave na reta final

Não significa que exista um “voto feminino” homogêneo. Não existe. Mulheres evangélicas e católicas, negras e brancas, pobres e de classe média, jovens e idosas vivem experiências políticas muito diferentes. Michelle Bolsonaro é, aliás, uma demonstração eloquente disso. A Foreign Policy acaba de chamar atenção para sua crescente importância na reorganização da direita brasileira e para o investimento do bolsonarismo numa linguagem especificamente voltada às mulheres, articulando família, religião, maternidade e participação política.

Mas justamente porque os dois campos perceberam sua centralidade, vale perguntar se não está aí uma das chaves da última semana.

As mulheres são maioria do eleitorado brasileiro. E vários dos temas que Lula decidiu colocar no centro da ofensiva final atravessam de forma muito concreta a vida familiar: endividamento, renda, Bolsa Família, custo dos alimentos, saúde, apostas online, proteção econômica. O combate às bets talvez seja o exemplo mais evidente. Uma pesquisa citada pela cobertura eleitoral encontrou 62% das mulheres favoráveis à proibição, e a campanha identificou explicitamente o problema como especialmente sensível ao eleitorado feminino. O debate deixou de ser apenas sobre regulamentação de uma indústria e passou a falar sobre famílias endividadas, perda de renda e saúde mental.

Quando governos são forçados a reencontrar a sociedade

Há algo politicamente interessante nessa ofensiva. Campanhas eleitorais obrigam governos a reencontrar a sociedade. Governos progressistas, em particular, frequentemente chegam ao poder movidos por expectativas de transformação e depois são engolidos pelo pragmatismo administrativo, pela administração permanente de crises, pelos vetos institucionais e pelos jogos de poder de Brasília. A reta final recolocou Lula numa posição mais propositiva: bets, renda, trabalho, endividamento, proteção social e soberania voltaram a organizar sua linguagem política.

Historicamente, desde que chegou à Presidência em 2003, o PT venceu todas as eleições presidenciais disputadas enquanto controlava o Executivo federal. A retomada da ousadia e da capacidade de iniciativa do governo não determina o resultado atual, mas ajuda a explicar por que a ofensiva governamental ganhou intensidade. Para Lula, mobilizar sua militância e reconectar-se à identidade de líder sindical e social pode ser tão importante quanto conquistar novos eleitores.

Estamos vendo uma espécie de retorno da política à administração. E talvez seja por isso que algumas dessas iniciativas estejam produzindo circulação tão intensa nas redes. No debate sobre as bets, por exemplo, uma publicação de Lula concentrou 53% das interações relacionadas ao tema em determinado período monitorado pelo Instituto DX. Isso não prova conversão eleitoral, mas mostra capacidade de recolocar uma questão social no centro da conversação pública, depois de tantos meses enfocada na crise do Supremo e no escândalo do Banco Master. Lula ganha terreno quando o debate passa a ser mais programático e comparativo entre governos.

A polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida acrescentou outra camada. Uma imagem feminina, negra e profundamente enraizada na cultura popular brasileira entrou no centro de uma disputa política e religiosa de enorme intensidade digital. Não é possível converter automaticamente simbolismo religioso em comportamento eleitoral. Mas é significativo que, justamente na reta final, religião, gênero, pertencimento popular e política tenham se cruzado dessa maneira.

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Também não sabemos quanto existe de voto silencioso. Seria especulativo afirmar que um número determinado de mulheres esconde o voto do marido, da família ou do pastor. Mas é perfeitamente legítimo lembrar que pesquisas captam aquilo que as pessoas declaram. O voto secreto existe precisamente para garantir uma esfera de autonomia que nenhuma pressão doméstica, comunitária ou religiosa pode controlar por completo. Numa eleição com identidades políticas tão intensas, essa diferença entre declaração pública e decisão individual merece atenção.

A importância da mobilização contra a abstenção

Depois vem a questão talvez mais decisiva de todas: comparecer. Entre eleitores de Lula, alguns de seus melhores desempenhos históricos estão justamente entre mulheres, pessoas de menor renda e segmentos mais velhos. Mas preferência eleitoral só vira voto quando a pessoa chega à seção eleitoral. E o voto torna-se facultativo a partir dos 70 anos. O “Globo” chama atenção nesta segunda-feira para rejeições elevadas, desinteresse e risco de abstenção. Em uma eleição apertada, mobilizar para votar pode valer tanto quanto persuadir.

A campanha também ocorre em um ambiente digital de difícil mensuração e alta vulnerabilidade a manipulações, enquanto conteúdos sintéticos e desinformação continuam desafiando a fiscalização eleitoral. Flávio Bolsonaro, percebendo a intensificação da campanha adversária, mudou sua estratégia e confirmou presença no último debate da TV Globo, desafiando Lula a comparecer.

Lula precisa calcular muito bem sobre ir ou se ausentar no último debate da Globo. Não apenas porque será o primeiro confronto potencialmente direto entre os principais candidatos nesta reta final, mas porque a televisão aberta ainda alcança públicos que não necessariamente acompanham o debate político cotidiano nas redes. Um debate que mobiliza a audiência logo depois da novela das 21h, e dentro dela estão eleitoras mulheres mais velhas e de menor escolaridade, justamente segmentos cujo comparecimento e decisão final podem assumir importância elevada.

Há ainda voto útil. Entre eleitores de Cury, Caiado, Zema e Renan Santos existe uma proporção relevante que admite mudar de candidato. O Datafolha mostra que, entre os eleitores não alinhados ao petismo nem ao bolsonarismo, 35% ainda podem mudar o voto. O movimento final pode ocorrer não apenas entre Lula e Flávio, portanto, mas pela antecipação ao primeiro turno de escolhas que alguns imaginavam fazer apenas num eventual segundo. O fim da eleição no primeiro turno ainda é uma probabilidade, mesmo que menor.

Corrupção, interferência externa e guerra cultural completarão esse ambiente. Uma nova denúncia pode alterar a pauta em horas. Uma decisão de plataforma digital pode ganhar interpretação política. Uma declaração de Washington pode alimentar novamente o debate sobre soberania. Um conteúdo falso pode circular milhões de vezes antes que qualquer desmentido o alcance.

Mas, sob todo esse barulho, talvez exista algo mais simples. O eleitorado brasileiro parece ter pouca disposição para grandes conversões ideológicas nesta última semana. O movimento possível está nas bordas: quem ainda hesita, quem votará útil, quem teme mais um resultado do que deseja outro, quem comparecerá e quem ficará em casa. E uma parte desproporcionalmente importante dessa zona de incerteza é feminina.

Por isso, talvez a pergunta da última semana não seja apenas se Lula ou Flávio conseguirão convencer novos eleitores. Talvez seja quem compreenderá melhor aquilo que está acontecendo entre as mulheres brasileiras: seus medos, suas prioridades materiais, sua relação com família, religião e cuidado, sua autonomia diante da urna e sua disposição de participar.

Não sabemos se elas decidirão a eleição no Brasil, mais uma vez. Mas os dados permitem uma hipótese que merece ser acompanhada até o último voto: a última semana tem rosto de mulher.

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
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