Talita Fernandes

De Jerusalém, análises sobre política, mundo e Oriente Médio

De Jerusalém, análises sobre política, mundo e Oriente Médio

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Análise

Desocupar a arte: uma reflexão sobre memória e apagamento do povo palestino

Artistas levam na carne e na alma as marcas da ocupação sobre o povo palestino. Buscam na criação uma forma de sobrevivência e de esperança

18/07/2026 às 05:54 · Atualizado há 3 meses
Povo palestino busca qualquer resquício de normalidade para enfrentar o sofrimento
Povo palestino busca qualquer resquício de normalidade para enfrentar o sofrimento: futebol em maio à destruição de Beit Lahia, Gaza (Abdalhkem Abu Riash/Anadolu via AFP)

São raras as vezes em que as questões de identidade e da ocupação israelense não aparecem em primeiro plano em obras de arte de autoria palestina. São temas centrais em filmes, livros, pinturas e na música do povo palestino. A ausência desses temas, ou quando são tratados como laterais, costuma causar estranhamento.

É o caso do livro “The Coin” (sem tradução para o português, cujo título poderia ser “A Moeda”), romance de estreia da escritora Yasmin Zaher. Publicado nos Estados Unidos em 2024, o livro veio à tona num momento em que a questão palestina estava em grande evidência, em meio a um genocídio em Gaza que deixou mais de 73 mil mortos, a maioria deles crianças e mulheres – de uma população de pouco mais de 2 milhões de habitantes. 

O romance tem uma protagonista intrigante: uma jovem palestina de classe alta, sem nome, que trabalha como professora nos Estados Unidos e se envolve em um esquema de venda de bolsas de luxo. Numa leitura rasa, simplista, talvez até moralista, pode soar estranho que uma autora palestina tenha escolhido um tema tão “fútil” como o centro de seu livro de estreia.

Há, porém, sofisticação e originalidade na forma como Yasmin aborda a questão da identidade palestina e o impacto da ocupação israelense: é quando a protagonista redescobre em si um corpo estranho, uma moeda que ela engoliu por acidente durante uma viagem de família na infância. A professora não consegue ver o objeto, mas pode senti-lo, e os efeitos de sua presença nas costas, o que a leva a um ritual de limpeza compulsiva. Trata-se de uma moeda de shekel, unidade monetária adotada por Israel e que circula nos territórios palestinos.

A metáfora escrita por Yasmin, na qual a marca do colonizador não sai do corpo do palestino nem mesmo quando ele mora a quilômetros e quilômetros de distância do conflito e vive uma vida de conforto material em Nova York, ressoa nas palavras de outra escritora palestina, Suad Amiry, autora de obras como “Sharon e minha sogra” (publicada em português pela Editora Francis).

Leia mais: Esperando o sol (não se trata aqui de morte da razão, mas de um bom livro)

Marca irremovível da ocupação no povo palestino

Em uma entrevista de 2024 ao podcast Kalam, Suad fala sobre o quanto se sente “ocupada” pela causa palestina. “Todos os palestinos são ocupados pela Palestina. A gente sempre fala sobre a Palestina estar ocupada; na verdade, o que eu sofro mais é a Palestina me ocupando. Nós fomos ocupados, e eu queria me libertar da Palestina, no sentido de viver uma única hora da minha vida em que eu não penso em mim mesma como palestina.”

Em contraste com a constante presença dos temas de ocupação e de identidade, o noticiário sobre a Palestina parece ter perdido o momento desde que foi assinado um cessar-fogo no Egito em outubro passado. Em uma foto um tanto estranha, sem que houvesse qualquer presença palestina, Donald Trump anunciou um plano de paz para a Faixa de Gaza.

Nos últimos nove meses, mais de 1.000 palestinos de Gaza foram mortos, e quase 4 mil, feridos. A população de pouco mais de 2 milhões de pessoas segue cada vez mais espremida em um território coberto de escombros, com moradias precárias e acesso limitado a itens de primeira necessidade, além da falta de esperança e de perspectiva.

Segundo a ONU, cerca de 80% do território está sob controle israelense, e os civis vivem numa faixa que não passa de 15% de toda a área. Há duas semanas, em um anúncio que repercutiu de forma tímida, o Hamas, organização política e armada, deixou o governo de Gaza. A população hoje segue com acesso precário à moradia, à comida, à saúde e à educação e está sem um governo claro. 

A diáspora

A população de Gaza é apenas uma parte dos 15 milhões de palestinos espalhados pelo mundo. A estimativa é de que, deste total, cerca de 7 milhões estejam nos territórios palestinos ocupados (Gaza e Cisjordânia) e em Israel, e os 8 milhões restantes sejam parte da diáspora, espalhada em diversos continentes do mundo. Numa divisão mais simplista, pode-se afirmar que os palestinos se dividem em cinco grupos: habitantes de Gaza, da Cisjordânia, da diáspora, aqueles com cidadania israelense (também chamados de palestinos de 1948) e habitantes de Jerusalém sem direito à cidadania, que têm apenas uma permissão de residência. 

Os palestinos se veem cada vez mais segregados entre si devido às fortes restrições de movimento, seja pela construção de muros e checkpoints, seja pela presença de colonos extremistas que não hesitam em atentar contra o livre trânsito de palestinos na Cisjordânia sem qualquer tipo de reprimenda por parte do governo israelense. 

É na arte, na manutenção da memória e da comida que esses encontros continuam acontecendo. Em “Minha avó e seus adereços”, uma exibição que aconteceu entre 20 de junho e 10 de julho na Al-Hoash, Corte de Arte Palestina, em Jerusalém, vi um grupo de cinco artistas recontar a construção de joias de todos os territórios que compõem a Palestina pré-1948: de Gaza à Cisjordânia.

Na semana seguinte, em Ramallah, visitei o Instituto Khalil Sakakini, onde está em exibição “Experimentos em Arquivos Compartilhados”, que reúne uma rigorosa curadoria para valorizar o arquivo do Centro Cultural. Durante a minha visita, descobri que todo o acervo foi digitalizado por completo desde que o Exército israelense invadiu Ramallah em 2002 para evitar perdas futuras.

Algum alívio, uma pitada de normalidade, tristeza sem fim

Durante as visitas dessas exibições e de outros eventos culturais que têm aparecido entre Jerusalém, Belém e Ramallah neste verão, eu noto um certo entusiasmo de alguns palestinos. Me parece um gosto agridoce de quem respira com certo alívio diante do fato de que aos poucos algum ar de normalidade volta às suas vidas, com uma certa tristeza e cansaço de viver em eterno retorno à memória do que foi a Palestina do passado, antes que a ocupação tenha se tornado o centro de todos os assuntos. 

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