Polymarket dribla proibição e divulga apostas sobre as eleições brasileiras
Mesmo após bloqueio determinado pelo Ministério da Fazenda, plataforma de previsão baseada em criptomoedas utiliza perfis alternativos, páginas de fofoca e influenciadores para promover mercado de apostas eleitorais de mais de US$ 140 milhões

Apesar de estar proibida de ofertar e divulgar serviços no Brasil desde 24 de abril de 2026, a plataforma Polymarket continua promovendo ativamente apostas sobre os resultados das eleições brasileiras deste ano. Uma investigação da repórter Jeniffer Mendonça, do Núcleo Jornalismo, mostra o ecossistema de marketing digital utilizado pela empresa para contornar as restrições da Justiça e das autoridades econômicas brasileiras. A investigação faz parte do LIE (Laboratório de Investigação Eleitoral), uma coalizão jornalística que reúne a Agência Pública, o Amado Mundo, o Aos Fatos e o Núcleo Jornalismo.
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O roteiro da Polymarket para driblar os bloqueios
Em abril, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, determinou o bloqueio da Polymarket e de outros sites de mercado de previsão, por operarem como “bets” sem autorização. No entanto, enquanto a conta internacional oficial da empresa no Instagram está inacessível para brasileiros, a página secundária @polymarketbrasil permaneceu ativa e com movimentos frequentes. A agência de relações públicas FSB Comunicação, que atende a Polymarket no país, confirmou que o perfil pertence à empresa. Coincidentemente, após ser questionada pela reportagem, a página mudou seu nome de usuário para @polymarketportugues em 2 de setembro.
Até 24 de agosto, o levantamento do Núcleo mapeou 103 publicações referentes às eleições brasileiras na página. Para camuflar o caráter comercial e driblar a fiscalização, os posts usam formatos de carrossel de notícias ou memes com linguagem informativa. Além disso, a página realiza postagens colaborativas (collabs) e marcações com grandes perfis de fofoca, humor e futebol — como @opoeteiro (2,3 milhões de seguidores) e @diferentona (3,5 milhões de seguidores) —, sem sinalizar de forma clara se as publicações foram pagas, o que contraria as regras do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária).
Diretor da Data Privacy Brasil, Rafael Zanatta avaliou à reportagem do Núcleo Jornalismo que a utilização de uma linguagem noticiosa ou de meme é uma maneira de a página do Polymarket driblar a proibição.
“A conta oficial está indisponível e tem uma subsidiária na prática fazendo um anúncio escamoteado mesmo que não tenha um link direto para o site”, apontou. Para Zanatta, a prática incentiva usuários a buscarem acessar a plataforma de alguma maneira.
O professor Fernando Neisser, da FGV, avaliou que, do ponto de vista eleitoral, as publicações, por não terem pedido explícito para acesso à plataforma nem link direto e não se apresentarem como pesquisa eleitoral, não indicam ilícito eleitoral em uma primeira análise.
Neisser sinalizou, contudo, que seria necessária uma apuração mais aprofundada para verificar se o conteúdo mascara uma suposta propaganda irregular do mercado de apostas e se visa prejudicar ou beneficiar algum candidato. “Se eles estão realmente visando o lucro, estão fazendo de uma forma com um grau de discrição muito grande, porque não tem um link, um aviso de ‘clique aqui, venha para cá, venha na nossa página, faça um VPN’ para poder acessar”, disse à reportagem.
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A conexão com o “Not Journal” e representantes locais
A investigação apontou que a página com maior frequência de colaborações com a Polymarket é a @notjournal.ai, associada ao site Not Journal. O sócio-administrador e editor-chefe do portal, Bruno Richards de Souza Figueiredo, se apresenta publicamente desde abril de 2026 como funcionário e country manager (responsável pelas operações locais) da Polymarket no Brasil. O site do Not Journal exibe um banner da plataforma de apostas em destaque no topo de sua página inicial.
Anteriormente, o Not Journal já havia sido apontado pela Polícia Federal (PF) no “Projeto DV” — por receber R$ 30 mil da agência Mithi em 2025 por publicações coordenadas para gerar desinformação de maneira proposital — e citado em coluna do jornalista Guilherme Ravache no Valor Econômico sobre o uso de inteligência artificial para replicar e “roubar” conteúdo de veículos de imprensa tradicionais sem remuneração.
Riscos jurídicos e eleitorais
A Resolução nº 23.735/2024 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proíbe plataformas de oferecer produtos ou propagandas associadas a candidaturas ou resultados de pleitos eleitorais. O descumprimento pode caracterizar infrações graves, como abuso de poder econômico ou captação ilícita de votos.
Até 2 de setembro de 2026, o volume estimado de apostas sobre a eleição brasileira dentro do site da Polymarket acumulava o montante de US$ 141,7 milhões.
Em resposta enviada à reportagem, a Polymarket declarou em nota institucional que respeita as autoridades locais, que não tem equipe física no Brasil e que funciona globalmente como uma infraestrutura de informação neutra, sem apoiar candidatos ou possuir viés editorial.
Nota de crédito: Esse texto foi escrito com base na reportagem investigativa original “Apesar de proibição, Polymarket promove apostas sobre eleições brasileiras”, escrita por Jeniffer Mendonça, com a coleta de dados de Vitor Almeida, publicada no Núcleo Jornalismo e na Agência Pública, no dia 3 de setembro de 2026. A investigação faz parte do LIE (Laboratório de Investigação Eleitoral), uma coalizão jornalística que reúne a Agência Pública, o Amado Mundo, o Aos Fatos e o Núcleo Jornalismo. Para ler a apuração completa, acesse a matéria original diretamente no site do Núcleo Jornalismo.
