Pobreza na Argentina atinge quase metade das crianças em 2026, aponta relatório
Dados oficiais apontam que 4,2 milhões de crianças vivem abaixo da linha de pobreza, alta incentivada por reajuste da cesta básica acima da renda das famílias

Quase 45% das crianças (4,2 milhões) com menos de 14 anos na Argentina vivem hoje em lares abaixo da linha de pobreza, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) referentes ao primeiro semestre de 2026.
O número representa um salto de cerca de 500 mil crianças em relação ao segundo semestre de 2025, mesmo com a vigência do programa social ‘Asignación Universal por Hijo’ (AUH), que repassa uma quantia mensal em dinheiro paga por cada filho menor de 18 anos ou filho com deficiência na Argentina.
A piora ocorreu porque o crescimento da renda média das famílias, que foi de 11,1% durante o semestre, não acompanhou o valor da cesta básica total, que subiu 19,6%. A renda média de uma família pobre é de $ 922.755 (pesos argentinos), enquanto a cesta familiar tem valor estimado de $ 1.440.395 uma diferença de 517.640 pesos argentinos, ou 35,9%. Em relação à linha de indigência, a renda média das famílias pobres fica 33,9% abaixo do necessário.
Para Roberto Uebel, doutor em estudos estratégicos internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisador em temas como geoeconomia, a perda no poder de compra está relacionada com a correção de preços relativos antes reprimidos, principalmente energia, tarifas e serviços, além da redução de subsídios e da pressão recente sobre alimentos e combustíveis. “A queda da inflação média não significa necessariamente aumento imediato do poder aquisitivo, sobretudo para as famílias mais pobres, cuja renda é proporcionalmente mais comprometida com bens essenciais.”
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Pobreza infantil é problema de décadas na Argentina
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), nos últimos 40 anos a Argentina nunca conseguiu reduzir a pobreza infantil para menos de 30% e, desde 2016, nem sequer a manteve abaixo de 40%. “No primeiro semestre de 2026, o Indec registrou pobreza em 45,2% da população de até 17 anos. Portanto, a inflação explica as oscilações, mas não explica sozinha um patamar de pobreza infantil que atravessa governos, modelos econômicos e diferentes ciclos políticos”, diz Uebel.
Pobreza por faixa etária:
- Menores de 14 anos: 44,5%
- De 15 a 29 anos: 36,9%
- De 30 a 64 anos: 28,8%
- Maiores de 65 anos: 14,8%
Os dados do Indec apontam que cerca de 300 mil idosos também entraram na linha da pobreza. Nos últimos seis meses, o aumento equivale a 5,1 pontos percentuais (de 9,7% a 14,1%). Esse crescimento é atribuído à queda na renda de aposentadorias e pensões mínimas e ao congelamento do bônus de até $ 70.000).
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Recorte regional
Na região metropolitana de Buenos Aires, 4,888 milhões de pessoas estão em situação de pobreza, o que representa 36,9% da população local. A média nacional é de 32,3%
Taxas de pobreza mais altas do país:
- Concordia – 56,2%
- Gran Resistencia – 48,6%
- Corrientes – 41%
Taxas mais baixas do país:
- Cidade de Buenos Aires (CABA) – 11,1% (ainda assim em alta comparada aos 9,6% do semestre anterior)
- Mar del Plata – 20,3%
- Neuquén-Plottier – 19,6%