Reportagem

‘Shopee do voto’ na Paraíba: candidato vai à justiça contra rival por compra de votos

Ação aponta esquema documentado na internet e detalha operação que envolveria servidores públicos na oferta de cirurgias, material de construção e dinheiro

por Henrique Fregonasse
30/09/2026 às 18:19 · Atualizado há 1 semana
Cícero Lucena (MDB) e Lucas Ribeiro (PP) (Pedro França/Agência Senado; Divulgação)
Cícero Lucena (MDB) e Lucas Ribeiro (PP) (Pedro França/Agência Senado; Divulgação)

A reta final da eleição na Paraíba ganhou um novo e explosivo capítulo. A coligação do ex-prefeito de João Pessoa (PB) e candidato a governador Cícero Lucena (MDB) protocolou, na manhã desta quarta-feira, 30/9, uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) para apurar um suposto esquema de compra de votos pela campanha do governador Lucas Ribeiro (PP) envolvendo servidores públicos do estado, batizado pela acusação de “Shopee do Voto”. A investida judicial acirra os ânimos na última semana de campanha.

De acordo com a denúncia, o esquema operaria por meio de uma plataforma online hospedada no endereço virtual “www.qualificada83.com.br”. O advogado Walter Agra, que representa a campanha de Cícero, detalhou à reportagem o funcionamento do que classifica como um gravíssimo e bem estruturado esquema de compra de votos.

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A operação consistia em realizar visitas exclusivas a residências de eleitores que não declaravam voto em Lucas. Durante a abordagem, as demandas dos moradores eram anotadas, priorizando pedidos que pudessem ser resolvidos a curto prazo. A lista de ofertas incluía desde exames médicos e cirurgias até sacos de cimento, tijolos e dinheiro para reformas residenciais. Após o cumprimento da promessa, os operadores do esquema retornavam para cobrar o voto no candidato.

Para a acusação, a prova material mais robusta do caso é o próprio sistema de registro. A plataforma supostamente documentava cada passo da operação: o dia, o local e a hora da visita, quem acompanhou o atendimento, além do detalhamento exato do que foi pedido pelo eleitor, do que foi prometido e se a entrega de fato ocorreu. Toda essa estrutura, segundo a denúncia, era alimentada e operada por servidores públicos.

A AIJE catalogou um total de 8.592 abordagens, 1.721 demandas individualizadas, 723 pedidos de material e 6.942 revisitas. A plataforma foi retirada do ar após a denuncia, mas, segundo Agra, os dados foram baixados e encaminhados ao Ministério Público Eleitoral (MPE).

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Questionado sobre o impacto político da denúncia às vésperas da eleição, Agra preferiu não comentar o cenário eleitoral, restringindo sua análise ao âmbito jurídico. No entanto, o advogado foi enfático ao classificar o episódio como um fato “gravíssimo”. Ele ressaltou que nunca havia se deparado com um registro tão bem estruturado e focado na compra e oferta de vantagens em troca de proveito político.

“Era inimaginável um esquema como esse de compra de votos. E ainda mais surreal ter um sistema para registrar cada um dos passos, cada uma das promessas e todos os atendimentos”, afirmou Agra, em mensagem enviada à reportagem. “Entenda bem: só prometer em troca de voto alguma vantagem já constitui um abuso; imagine registrar e documentar tudo isso”, explicou.

Lucas Ribeiro rebate AIJE: “espetacularização”

Alvo da ação, o governador Lucas Ribeiro reagiu às acusações. Em entrevista ao programa Correio Debate, da Rede Correio SAT, o candidato minimizou a denúncia e acusou o adversário de tentar criar fatos políticos na última semana da disputa.

“Estão desesperados, atacando de qualquer forma e qualquer jeito, espetacularizando a eleição para tentar chamar a atenção de alguma forma”, declarou Lucas.

O governador sustentou que a campanha de Cícero está “espetacularizando a eleição” em uma tentativa de atrair os holofotes na reta final da disputa eleitoral estadual.

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