Reportagem

O que pensam – e prometem – os 6 principais presidenciáveis sobre tecnologia no Brasil

Pesquisadores de comunicação e política analisaram as propostas de tecnologia dos seis principais candidatos à Presidência

por Letícia Corrêa
28/09/2026 às 05:59 · Atualizado há 2 semanas
tecnologia IA: tecnologia está no centro de disputa econômica e de poder (Cottonbro Studio)
IA: tecnologia está no centro de disputa econômica e de poder (Cottonbro Studio)

Falar do desenvolvimento de um país e não falar sobre tecnologia é algo impossível nos dias de hoje. Pensando nisso, a especialista em estratégias de comunicação digital pela Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getulio Vargas (FGV) Ana Carolina Santana, a doutoranda no programa de pós-graduação em ciência política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Quesia Silva e o professor de comunicação política da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Rafael Sampaio analisaram o que os seis principais candidatos à Presidência propõem sobre tecnologia. A proposta dos pesquisadores não foi necessariamente tratar da área isoladamente, mas coletar e identificar outros setores— como saúde, segurança e educação — onde ela é citada.

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A análise do Laboratório Interdisciplinar de Inteligência Artificial para Métodos, Democracia e Sociedade (Labiia lab), programa criado pelos especialistas, reuniu 592 páginas dos programas de Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (NOVO) e Ronaldo Caiado (PSD), registrados na Justiça Eleitoral.

Volume de palavras versus capacidade de execução na tecnologia

O levantamento identificou 98 promessas diretas ligadas a tecnologia, inteligência artificial, ciência, conectividade e soberania digital.

O relatório alerta que contabilizar a repetição de palavras-chave pode gerar diagnósticos enganosos sobre o real compromisso das candidaturas. Enquanto Augusto Cury lidera em menções explícitas à expressão “inteligência artificial” (56 vezes) e Ronaldo Caiado se destaca na frequência de termos como “tecnologia”, “digital”, “dados” e “ciência”, a consistência das propostas varia quando submetida aos critérios de viabilidade técnica.

Para avaliar a exequibilidade, o estudo submeteu cada proposta a cinco sinais formais de execução: identificação do instrumento, órgão responsável, prazos ou etapas, fontes de financiamento e metas mensuráveis:

Candidato Número de Promessas Tecnológicas Média de Sinais de Execução (0 a 5) Promessas com Alto Detalhamento (3+ sinais)
Ronaldo Caiado (PSD) 22 3,05 19 de 22
Renan Santos (Missão) 15 3,00 11 de 15
Romeu Zema (NOVO) 14 2,57 Proporção intermediária
Augusto Cury (Avante) 18 2,39 Proporção intermediária
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) 16 2,38 Proporção intermediária
Flávio Bolsonaro (PL) 13 2,08 Menor detalhamento relativo

Fonte: Relatório ‘Quem tem um plano para o futuro digital do Brasil?’ (Laboratório Interdisciplinar de IA para Métodos, Democracia e Sociedade).

Ronaldo Caiado: abrangência e governança por risco

Para os pesquisadores, o governador de Goiás reúne o maior número de propostas estruturadas (22 promessas). Ele promete integrar cibersegurança, semicondutores, modelos de linguagem em português, governo digital e infraestrutura para data centers. Seu plano é o único que prevê explicitamente mecanismos formais de validação, supervisão humana, auditoria e regulação de inteligência artificial por níveis de risco.

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Renan Santos: foco em terras raras e agroindustrialização

O plano do Partido Missão concentra as propostas tecnológicas em minerais críticos, terras raras e inteligência artificial aplicada ao agronegócio. Por focar em instrumentos econômicos específicos — como Zonas Econômicas Especiais, contratos de compra futura e fundos de garantia —, alcança a segunda maior média de detalhamento executivo (3,00), embora apresente menor cobertura em áreas como direitos digitais e educação.

Lula: soberania digital e continuidade estatal

A plataforma do atual presidente ancora a tecnologia na soberania digital, na política industrial e no fortalecimento de capacidades estatais, citando modelos de linguagem soberanos, ecossistemas de dados e infraestrutura de nuvem pública. O plano se apoia na continuidade de programas ativos, como a Nova Indústria Brasil, o Fust e o Plano Brasileiro de IA, o que garante sustentação institucional, mas traz diretrizes gerais que nem sempre se convertem em metas e orçamentos novos para o próximo mandato.

Flávio Bolsonaro: governo digital e simplificação de serviços

A candidatura do PL prioriza a digitalização de serviços públicos e a eliminação de burocracias sob os programas “Brasil sem Fila”, a assistente virtual “ClarIA” e a integração de prontuários eletrônicos. Se apoia em plataformas existentes — Gov.br e Rede Nacional de Dados em Saúde — , mas deixa lacunas em relação ao custeio de integração, auditoria de decisões automatizadas e manutenção de canais de atendimento presencial para excluídos digitais.

Augusto Cury: saúde, educação e prevenção com IA

O médico e escritor associa a inteligência artificial à formação escolar, saúde pública (telemedicina), modernização industrial e detecção de incêndios. Apesar da alta frequência do tema em seu texto, parte expressiva das propostas deixa em aberto os orçamentos, cronogramas e repartição de responsabilidades institucionais.

Romeu Zema: produtividade e estímulo ao mercado privado

O plano do ex-governador mineiro aborda a tecnologia sob a ótica da eficiência econômica, atração de investimentos para data centers, biotecnologia e avaliação de desempenho público. Na área acadêmica, sugere vincular o financiamento e bolsas de pesquisa aos resultados aplicados e às demandas do mercado.

Pesquisadores concluem que não há vencedor no tópico

Os autores do estudo concluem que a disputa eleitoral de 2026 não se resume a decidir sobre “usar mais ou menos inteligência artificial”, mas sim sobre quais capacidades tecnológicas o Brasil pretende dominar, que tipos de dependência externa aceita reduzir e quais salvaguardas de direitos acompanharão a digitalização acelerada da sociedade e do Estado.

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