Opinião: O que Rachewsky preferiu não ler
Em tréplica ao texto de João Moreira Salles na revista piauí, o empresário Ricardo Lacerda detalha o que percebeu a partir da resposta de Roberto Rachewsky

Li com atenção a réplica de Roberto Rachewsky, publicada no “Brazil Journal”, ao ensaio de João Moreira Salles na “piaui”. Fiquei com a impressão de que ele não leu o texto por inteiro. Ou leu e não entendeu. Ou, no cenário mais provável, entendeu e preferiu responder a outro texto.
Rachewsky rebate uma acusação de cumplicidade: pede provas de atos individuais, de nexo causal, de participação. Mas Salles não acusa ninguém de cumplicidade. Fala de algo mais simples e mais incômodo: complacência. Pessoas bem-informadas, intelectualmente preparadas, que sabem o que está em jogo e decidem que isso não pesa o suficiente. Refutar uma acusação que não foi feita é fácil; difícil é responder à que foi.
Comece o dia sabendo o que importa. Receba gratuitamente a Antes da Reunião, a newsletter de política e economia do Amado Mundo. De 2ª a 6ª, às 6h30. Assine!
O mais curioso é que a resposta a Rachewsky está no próprio texto dele. Ele afirma que a democracia é apenas um método e que os valores primários são a vida, a liberdade e a justiça. Quem não concorda? E é justamente por isso que a tortura é o limite. Ela é a negação mais brutal do direito à vida e à integridade de um indivíduo diante do Estado. Se a vida é o valor primário, tolerar quem faz apologia da tortura não é um detalhe a ser compensado por um suposto compromisso com a responsabilidade fiscal. É ceder no único ponto em que não se pode ceder.
Rachewsky insiste que Flávio não é o pai e que ninguém herda culpa. Aceito a razoabilidade do critério. Julguemos Flávio por Flávio.
Em 2017, anos antes de se apresentar como candidato moderado, ele publicou uma biografia de Jair Bolsonaro em que nega ter havido golpe em 1964, exalta a ditadura militar, elogia o coronel Brilhante Ustra, uma figura abjeta, e desacredita as urnas eletrônicas, como revelou a “Folha de S.Paulo”. Sobre Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador, Flávio escreve que foi “um homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria”.
No mesmo livro, afirma que a Lei da Anistia beneficiou apenas os terroristas, que os militares mereciam ser tratados como heróis nacionais e trata a Comissão da Verdade como uma iniciativa revanchista. Chega a pôr em dúvida que Rubens Paiva tenha desaparecido pelas mãos do Exército, quando o mundo e até o próprio Estado brasileiro já reconheceram que sua morte foi obra da ditadura.
Não se trata de um texto de juventude esquecido, ou de uma opinião antiga fora de contexto. Na última quinta-feira, 1º de outubro, Flávio incluiu o nome de Ustra entre as tags da live que transmitiu no horário do último debate presidencial da Globo, ao qual decidiu não comparecer. A três dias da eleição, o torturador continua sendo, para ele e seus influenciadores que disseminam o ódio, um ativo de engajamento.
Não há aqui culpa por associação. Não há herança. Há palavras e escolhas do próprio candidato, mantidas ao longo de quase uma década.
Rachewsky diz que cada um responde pelos seus atos. Mais uma vez concordo. Votar e emprestar prestígio a uma candidatura também é um ato, e é sobre esse ato que Salles faz sua reflexão às elites. Não se trata de culpa hereditária, mas de escolha presente, feita com pleno conhecimento.
O princípio vem antes do personagem, escreve Rachewsky. Pois então que o princípio seja este: quem trata um torturador como homem íntegro não pode receber o aval de quem diz colocar a vida acima de tudo.
Flávio Bolsonaro pode estar perto de ser eleito presidente pela maioria dos brasileiros assim como seu pai o foi em 2018. Se isso acontecer, será pela via legítima das urnas, e o resultado deverá ser respeitado. Mas a legitimidade do voto não dispensa a clareza moral. Cabe a ele, e a quem o apoia, afirmar de forma inequívoca seu compromisso com a vida, com a integridade de cada indivíduo diante do Estado e com o repúdio à tortura, sem ressalvas, sem relativizações e sem a desculpa de que é preciso olhar para o outro lado. Até que o faça, a pergunta de João Moreira Salles continuará de pé, e caberá a cada um de nós respondê-la.
* Ricardo Lacerda é empresário.