A conta fóssil que não fecha na transição energética do governo
Análise do Observatório do Clima aponta que 80% dos investimentos previstos até 2035 vão para petróleo e gás e que as emissões do setor devem subir 18%

O governo aprovou em julho o planejamento para a expansão do setor energético brasileiro na próxima década, apresentando-o como parte da transição para uma economia de baixo carbono. Mas uma análise divulgada pelo Observatório do Clima nesta sexta-feira, 4, aponta que os próprios números do Plano Decenal de Expansão de Energia, o PDE 2035, preveem forte expansão dos combustíveis fósseis no período.
Dos R$ 3,5 trilhões em investimentos previstos pelo plano até 2035, R$ 2,8 trilhões, ou 80% do total, estão destinados à produção de petróleo e gás natural. Para o OC, está aí a principal contradição do planejamento energético brasileiro.
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No lançamento do plano, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que o PDE está “alinhado aos desafios da transição para uma economia de baixo carbono”. A análise do OC, porém, aponta que a produção brasileira de petróleo e gás deve crescer 56% até 2035, na comparação com 2024.
Segundo as projeções do PDE, a produção de petróleo pode chegar a 4,9 milhões de barris por dia em 2035, alta de 44% em relação a 2024. Mais da metade da produção deve continuar a ser exportada. Além do pré-sal, o plano considera novas fronteiras de exploração, como a Margem Equatorial, que inclui a Foz do Amazonas.
O gás natural é outro ponto da contradição apontada pelo Observatório do Clima. Embora frequentemente apresentado como “combustível de transição”, ele continua sendo um combustível fóssil. Segundo a análise, sua produção deve crescer mais de 60% até 2035, e boa parte da demanda adicional virá das termelétricas.
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A avaliação destaca que, apesar da expansão, a participação de fontes renováveis na matriz energética deve permanecer em 51%, o mesmo patamar de hoje. Já as emissões do setor devem chegar a 516 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2035, 18% acima de 2025. Para o OC, o problema está em tratar a transição energética como expansão das fontes renováveis sem planejar, ao mesmo tempo, a redução da dependência de petróleo e gás.
A análise também aponta um risco econômico. A própria Empresa de Pesquisa Energética (EPE), responsável pela elaboração do plano em conjunto com o Ministério de Minas e Energia, reconhece que a eletrificação e o avanço dos biocombustíveis podem reduzir a demanda e os preços do petróleo no longo prazo.
O PDE, porém, também considera o risco de empresas reduzirem investimentos antes que a demanda caia, o que poderia provocar escassez e alta dos preços. O OC questiona essa aposta: e se a demanda cair mais rapidamente do que o previsto? Nesse cenário, destaca a análise, investimentos pesados em uma indústria em processo de declínio podem se tornar um problema para o país.