Eleições 2026: entre Lula 4 e Bolsonaro 2, o país olha no espelho e decide quem deseja ser
Do futuro do STF à relação com os EUA, de um possível indulto a Bolsonaro ao orçamento de 2027: analistas avaliam o que muda no país a depender do resultado

Quando os brasileiros forem às urnas neste domingo, 4 de outubro, estarão definindo quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos, quem serão os chefes de governo de 26 estados e do Distrito Federal, os parlamentares estaduais e distritais, os ocupantes de todas as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e de 54 das 81 vagas no Senado. Essa é a parte da eleição mais fácil de explicar – e a que menos revela sobre o que está em jogo hoje (e, nas semanas seguintes, até dia 25, onde forem necessárias disputas de segundo turno para definição dos vencedores).
O mais desafiador é conseguir descrever com a devida gravidade tudo o que está em disputa nestas eleições, mais notadamente na disputa presidencial. Como até os arrebites do tão exaustivamente usado avião do hoje infame ex-banqueiro Daniel Vorcaro sabem, o próximo presidente será ou Lula 4 ou Bolsonaro 2 (por tabela, com a candidatura do senador Flávio, filho 01 do ex-presidente Jair).
O que se decide agora, porém, não é apenas quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos. É a composição do Supremo Tribunal Federal até a próxima década, um eventual indulto com libertação de Jair Bolsonaro, a relação com um governo americano de extrema direita cada vez mais faminto, um orçamento nacional mais e mais espremido, modelos distintos de condução econômica, opções opostas por grupos sociais prioritários, visões sobre educação e segurança pública, relação com a ciência, com a cultura, com o esporte.
É uma escolha entre formas diametralmente opostas de ver o mundo. Neste domingo, o país vai, pela décima vez desde a redemocratização, olhar no espelho e decidir quem é e quem quer ser.
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“A eleição não define só quem vai ocupar o Palácio do Planalto. Ela coloca em evidência a disputa entre modelos de gestão do Estado: segurança pública, política econômica, relação com os outros Poderes e inserção internacional”, resume o analista político Deividi Lira.
O cientista político Leonardo Barreto, da Think Policy, aponta duas circunstâncias que tornam 2026 diferente de tudo o que veio antes. A primeira é o interesse explícito dos Estados Unidos no resultado. A segunda é um Judiciário desgastado, justamente quando pode ser chamado a arbitrar uma disputa apertada. “É a primeira eleição em que os Estados Unidos restabeleceram a América como sua zona de influência e têm interesse específico no resultado”, afirma. “Vimos isso com o tarifaço e com o reconhecimento das organizações criminosas como terroristas. Tudo isso virou agenda.”
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Interferência americana deixou o campo da teoria da conspiração
A interferência americana deixou de ser teoria da conspiração para virar fato político comprovado. Como mostrou a coluna Guilherme Amado, no Amado Mundo, Pedro Sang, articulador no Brasil da Rockbridge Network, rede de financiadores trumpistas cofundada pelo vice-presidente americano J.D. Vance, participou da montagem do comitê de Flávio Bolsonaro em São Paulo e manteve contato direto com o candidato.
A coluna também revelou um memorando de 22 páginas, elaborado por André Marinho, candidato do Novo ao governo do Rio, que propõe uma parceria com os EUA para explorar terras raras num eventual governo do senador. Sang nega ter intermediado recursos, e a campanha de Flávio não respondeu. O PT pediu ao TSE, à PF e à PGR que investiguem um possível financiamento estrangeiro, prática proibida pela lei eleitoral.
É aqui que a disputa de projeto de país se revela com mais nitidez. Lula aposta na autonomia: política externa própria, relação de proximidade estratégica com China e Brics e a aposta de que as eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro, vão enfraquecer Trump — por isso mantém a relação com Washington “em banho-maria”.
Flávio fez o movimento oposto: buscou em Trump uma espécie de fiador contra o que considera um sistema que trabalha contra ele. O preço, na avaliação de Barreto, pode aparecer no dia seguinte à eleição. Um alinhamento automático com Washington, diz ele, geraria crise com o empresariado e até com o agro, que veem os americanos como concorrentes. “Um alinhamento automático não faz o menor sentido.”
Divisão entre inteligência e cooperação ou “prendo e arrebento”
A segurança pública expõe a mesma clivagem. Lula aposta na PEC da Segurança, na integração entre União e estados, em inteligência e na asfixia financeira das facções. Flávio, que fez do tema o principal mote da campanha, defende penas mais duras, mais presídios de segurança máxima, redução da maioridade penal e a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações narcoterroristas.
“As medidas de Flávio são mais evidentes, mais agressivas, ficam mais claras para o eleitor. Lula evita o tema, que não é de domínio dele”, avalia Lira. Barreto acrescenta o peso externo: num governo Flávio, prevê “uma ingerência americana muito forte”, com cooperação de inteligência e até a possibilidade de uma base americana no país.
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Senado, futura maioria no STF, impeachments
O segundo grande campo de batalha é o Supremo. O próximo presidente poderá indicar até quatro dos 11 ministros do STF — uma vaga já aberta com a aposentadoria antecipada de Luís Roberto Barroso, depois que o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias, e outras três que se abrirão com as aposentadorias compulsórias de Luiz Fux (2028), Cármen Lúcia (2029) e Gilmar Mendes (2030). “Um mandato presidencial termina em quatro anos, mas uma indicação ao Supremo pode produzir efeitos institucionais por décadas”, lembra Lira.
Aqui o temor de governabilidade ganha forma concreta. Barreto prevê que, seja quem for o vencedor, será preciso fazer uma espécie de transição política: não haverá reformas econômicas nem agenda no Congresso sem pacificar o Judiciário. E o cenário é explosivo. Se Flávio vencer e cumprir a promessa de anistiar o pai e os condenados pelo 8 de Janeiro, um indulto presidencial abriria embate imediato com o Supremo — um partido de oposição poderia contestar o decreto na Corte, num “cenário explosivo” que deixaria o tribunal “muito fragilizado”.
Se Lula vencer, o drama é o oposto: indicar mais quatro ministros num Senado que renova dois terços das cadeiras e que, pela primeira vez, teve o STF como pauta eleitoral. “O senador que não votar algo relativo ao STF vai ter traído seu eleitor”, diz Barreto, que prevê uma direita dominante no Senado a partir de 2027. “Depois da eleição, não haverá chance de Lula indicar outro Flávio Dino ou outro Cristiano Zanin.”
A cientista política Mayra Goulart, da UFRJ, resume o momento com o mote “democracia ou barbárie”. Ela lembra que líderes de extrema direita tendem a radicalizar no segundo mandato — o exemplo de Trump está aí — e que, se Flávio vencer, a família voltará ao Planalto para um segundo mandato, agora com laços estreitos com a direita global, de Trump a Netanyahu. “Regimes com tendências autoritárias entram em contradição com princípios do constitucionalismo democrático liberal, como os direitos civis e a separação de Poderes.”
Aperto no arranjo fiscal que existe ou ‘tesouraço’ drástico
Há ainda a conta que ninguém quis discutir a valer durante a campanha, um assunto perdido entre Daniel Vorcaro e seus aparentemente onipresentes tentáculos na sociedade brasileira (dos milhões aos Bolsonaros para, supostamente, ‘Dark Horse’, a mimos a políticos de todos dos matizes a Luciano Huck), Nossa Senhora, o STF quase se autoimolando, orgias: a economia. O ajuste fiscal ficou fora do debate.
Flávio, que seria o candidato do ajuste, disse que não vai mexer em aposentadoria nem em salário mínimo — sua aposta é que a própria vitória derrubaria os juros futuros e abriria espaço fiscal, um efeito “psicológico” de credibilidade. Lula, por sua vez, enfrentaria um dilema parecido com o de Dilma em 2015: um ajuste duro logo após a eleição alimentaria acusações de estelionato eleitoral. Mas Dario Durigan, ministro da Fazenda que sucedeu Fernando Haddad, tem sido claro ao dizer a quem quer ouvir que defende sim um arrocho nas regras fiscais.
Os programas divergem: Lula propõe um novo arcabouço fiscal, mais apertado, mas com investimento público, política industrial e nova etapa do PAC; Flávio defende o que simplifica como ‘tesouraço’, reduzindo dramaticamente (é o tom das declarações do candidato e de seus assessores, embora se recusem a especificar o tamanho da cirurgia) a máquina pública, cortando e fundindo ministérios. Como aponta Lira, contudo, os dois, em maior ou menor grau, deixam de fora o essencial: “Qual deve ser o tamanho e o papel do Estado no desenvolvimento? Isso não fica claro para o eleitor”.
No social, o Bolsa Família não está em risco — os dois prometem mantê-lo. O que está em jogo é o escopo da proteção social: financiamento, articulação com o emprego e crescimento econômico. Barreto prevê que a principal revisão do próximo governo será no BPC; no Bolsa Família, pequenos ajustes. Mayra se preocupa com o tom do debate, com um discurso que desqualifica o beneficiário de política pública como preguiçoso, de menor mérito.
“Há, por um lado, uma percepção cada vez maior e muito salutar de que políticas públicas devem ser entendidas na chave dos direitos. Mas, ao mesmo tempo, há um discurso que invalida o papel do Estado enquanto promotor de políticas públicas.”
Caminhos para a decisão
Quem decide, no fim, é o eleitor independente. “O quietinho, que não fala nas pesquisas”, como define Lira. Se Lula terminar o primeiro turno com quatro pontos ou mais de vantagem, Flávio precisaria conquistar cerca de 65% desses eleitores no segundo turno. Se o senador empatar, ganha “cheiro de poder”, e a campanha dele recebe gás. A abstenção tende a pesar contra Lula — idosos e eleitores de baixa escolaridade, seus melhores grupos, são os que mais faltam —, mas o PT sabe trabalhar isso: em 2022, a abstenção no segundo turno foi menor do que no primeiro.
Barreto teme o dia seguinte a uma eleição muito disputada. Se o resultado for apertado e um dos lados contestá-lo, o país pode ter um “juiz do jogo muito fragilizado”. “O Judiciário não tem a confiança e a autoridade de outros momentos para tomar essa decisão. Tenho medo de um impasse institucional.”
No campo governista, o foco de contestação seriam as suspeitas de interferência americana na campanha. “Se tiverem alguma prova e quiserem fazer alguma coisa, vão ter que fazer antes do segundo turno. Depois do resultado apurado, isso não vai acontecer”, avalia. “O segundo turno promete um jogo ainda mais violento do que o que vimos até agora.”
Independentemente de quem vença, quase metade da população vai ficar insatisfeita. Esta é a marca da eleição que fecha um ciclo: ela não resolve a polarização — ela a institucionaliza, transfere-a para o Supremo, para o Senado, para o orçamento e para a relação com Washington.
O fim de uma era
Pela primeira vez, o jogo se prepara para continuar sem a sua âncora. O Brasil não está apenas escolhendo um governo. Está escolhendo as regras do jogo para a próxima década, e quem vai arbitrá-las depois que Lula sair de cena, agora ou em 2030. Por idade e pelos sinais claros de exaustão de um ciclo histórico, é pouco provável que o líder petista apareça outra vez em uma urna. O que se decide entre este domingo e o dia 25 próximo é o fechamento de um ciclo político aberto há quase meio século.
Lula, independentemente de você amá-lo ou odiá-lo, é figura dominante da política nacional desde as greves do ABC paulista nos anos 1970. Passou pelos estertores da ditadura, ganhou protagonismo na redemocratização meio cambaleante no início, virou gigante com a fundação do maior partido de esquerda da América Latina. Para o bem ou para o mal, o ex-torneiro mecânico é, desde então, a referência do cenário brasileiro, atraindo ou repelindo todas as demais forças políticas. Sem Lula, ninguém ainda arrisca chutar o que vai acontecer.
O fato é que, antes de tudo, esta é uma eleição de despedida. O que se abre, com o petista reeleito ou com Flávio no terceiro andar do Palácio do Planalto, é um outro ciclo. Ele não é uma questão apenas da esquerda, mas de todo o sistema político. O PT terá o imenso desafio de encontrar uma liderança à altura do vácuo criado.
O centro, que por décadas orbitou em torno do petista, ora mais próximo, ora mais distante, terá de aprender a se mover sem essa referência. A direita perderá o adversário que, mais do que qualquer outro fator, funcionou como seu principal elemento de coesão. Nenhum ator sai intacto dessa transição, o que contribui fortemente para tornar essa disputa de 2026 ainda mais particular.