Reportagem

O poder político da velhice feminina: como as idosas viraram fiéis da balança em 2026

Com quase 24% dos eleitores, a população idosa, de maioria feminina, consolida o voto mais decidido do país e coloca a economia do cuidado no centro da disputa

por Letícia Corrêa
Publicado em 02/10/2026 às 05:45
idosos
Mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro, com mais de 81,8 milhões de eleitoras (Justiça Eleitoral)

Enquanto o debate político e o marketing eleitoral historicamente voltaram seus olhos para a juventude, que mostra sinais de descrença na política, idosos – e, ainda mais notadamente, as idosas – se revestem de cada vez mais importância no processo político. Em 2026, o eleitorado com 60 anos ou mais atingiu 23,60% do total de inscritos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — somando quase um quarto de todo o eleitorado nacional, contra 21,02% registrados em 2022.

Leia mais: Mulheres votam contra as bets

Esse avanço demográfico de envelhecimento da população traz, para a professora e pesquisadora Silvia Lilian Ferro, do Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Ilaesp/Unila), como marca estrutural a chamada “feminização da velhice”. Como a expectativa de vida das mulheres é superior à dos homens, elas constituem a maioria absoluta da população idosa em todas as regiões do país. E isso traz também uma expectativa grande para as eleições, por constituírem grupo muito significativo estatística e socialmente.

Datafolha e Quaest isolados no bloco dos idosos

O peso eleitoral do eleitorado maduro reflete nos levantamentos estatísticos recentes, que revelam um comportamento político muito mais decidido em comparação com a volatilidade dos eleitores mais jovens. No cruzamento por faixas etárias da pesquisa Datafolha de setembro de 2026, o segmento de 60 anos ou mais se consolida como o mais convicto do país, no qual 88% dos entrevistados afirmam ter certeza absoluta sobre sua escolha para presidente no primeiro turno e apenas 11% indicam que o voto ainda pode mudar.

Na intenção de voto estimulada para o primeiro turno, o Datafolha aponta a liderança de Lula (PT) com 42% entre os idosos, seguido por Flavio Bolsonaro (PL) com 37%. Na simulação de segundo turno entre os dois candidatos, Lula alcança 49% contra 44% de Flavio Bolsonaro no grupo de 60 anos ou mais. No quesito rejeição, 43% dos eleitores sênior dizem que não votariam em Lula de jeito nenhum, enquanto a rejeição a Flavio Bolsonaro atinge 45% nessa mesma faixa.

A pesquisa do instituto Quaest, realizada no mesmo período de setembro de 2026, corrobora o papel central desse eleitorado no cenário nacional. A Quaest indica que 51% dos eleitores com 60 anos ou mais aprovam o trabalho do presidente Lula, contra 41% que desaprovam, o que posiciona o bloco idoso como o principal polo de sustentação da gestão federal. Esse nível de apoio contrasta diretamente com a avaliação registrada entre os eleitores de 16 a 34 anos, grupo no qual a desaprovação ao governo atinge 54%. Segundo os levantamentos, enquanto os segmentos jovens exibem maior índice de indecisão e mudanças de voto, o eleitorado idoso demonstra firmeza em seu posicionamento.

A economia do cuidado e a dupla dimensão da mulher idosa

Para compreender as motivações que orientam a decisão dessas eleitoras para além das siglas partidárias, Ferro explica que a trajetória feminina é atravessada pela economia do cuidado. A cientista social enfatiza que as mulheres enfrentam uma dupla dimensão em relação ao trabalho de cuidar.

Em primeiro lugar, atuam como provedoras históricas de um trabalho invisível e não remunerado, dedicando décadas de vida ao cuidado de filhos, netos, cônjuges e familiares doentes. Segundo ela, essa dedicação não paga drenou o tempo dessas mulheres, limitou seu acesso à educação formal e comprometeu sua inserção no mercado de trabalho regulamentado, gerando desproteção previdenciária e vulnerabilidade econômica na velhice.

Em segundo lugar, para a professora, ao alcançarem a terceira idade, essas mesmas mulheres emergem como sujeitos com direito inequívoco a receber cuidados do Estado. Elas passam a demandar serviços públicos integrados de saúde, fornecimento contínuo de medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e infraestrutura comunitária que assegure sua autonomia e dignidade.

Leia o artigo da cientista social, que inspirou esta matéria do Amado Mundo: Eleições 2026: mulheres idosas tornam‑se força eleitoral emergente nas urnas

“Estas mulheres conhecem o custo da ausência de serviços públicos, porque, durante boa parte da vida, foram elas que compensaram essa ausência com seu próprio trabalho. Quando não havia creche ou um familiar adoecia, alguém precisava assumir — e esse alguém foi, muito frequentemente, uma mulher”, explica Silvia.

Superando a ‘tia do zap’ e o peso da fé

A pesquisadora defende que a caricatura da “tia do zap” combina etarismo e misoginia para desqualificar a opinião política feminina.

“É um erro confundir idade com incapacidade de julgamento político. As mulheres idosas têm histórias políticas, origens de classe, raça e território diversas. Elas não votam apenas como avós ou pessoas doentes, mas como cidadãs com projetos e posições sobre os rumos do país”, declarou.

Ela lembra que a aprovação da lei que criou a Política Nacional de Cuidados em dezembro de 2024 foi um marco histórico, mas alerta que sua efetivação corre riscos constantes diante de cortes orçamentários e alternâncias ideológicas no poder. Além disso, ressalta que, embora a religiosidade tenda a aumentar na velhice, o apelo de líderes religiosos não apaga o pragmatismo da vida real: a decisão do voto passa diretamente pelo acesso ao SUS, pela fila de exames e pelo preço dos alimentos e remédios.

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O paradoxo dos 70+: inversão de gênero e abstenção nas urnas

Se no segmento de 60 a 69 anos o comparecimento cívico é elevado, a dinâmica muda a partir dos 70 anos, faixa na qual o voto se torna facultativo pela Constituição. Levantamentos compilados pelo Movimento Voto 70+ e pelo hub de inteligência data8 revelam um paradoxo demográfico, pois o eleitorado com mais de 70 anos foi o que mais cresceu no país, registrando uma expansão de 59,37% entre 2014 e 2026, ao saltar de 10,82 milhões para 17,25 milhões de pessoas aptas a votar. Esse grupo representa 10,87% de todo o eleitorado brasileiro.

No entanto, essa expansão populacional não tem se refletido em presença equivalente nas urnas, mantendo taxas de abstenção elevadas que atingiram 58,86% no primeiro turno de 2022 e 59,4% no segundo turno de 2024. O achado estatístico mais marcante das pesquisas, para a cofundadora do data8 e uma das coordenadoras do Movimento Voto 70+, Cléa Klouri, diz respeito à inversão no recorte de gênero.

Enquanto abaixo dos 70 anos as mulheres se abstêm menos do que os homens, a partir dos 70 anos o padrão se inverte. No primeiro turno das eleições de 2024, a abstenção das mulheres 70+ alcançou 55,4% contra 45,4% dos homens, e no segundo turno a ausência feminina saltou para 63,7% contra 53,0% dos homens idosos.

Barreiras de mobilidade, desestímulo familiar e ações de engajamento

Em entrevista ao Amado Mundo, Klouri identifica quatro fatores centrais para o afastamento eleitoral das mulheres com mais de 70 anos. Entre os motivos citados estão a socialização política passiva vivida na juventude, a sobrecarga contínua do trabalho de cuidado de netos e parentes doentes, o desestímulo sofrido no ambiente familiar e a sensação de invisibilidade gerada pelo etarismo.

A especialista em longevidade econômica explica que a frase recorrente ouvida de parentes, de que a idosa “não precisa mais ir votar”, costuma ser interpretada pela mulher como uma mensagem de desimportância do seu voto e perda de autonomia política.

“A mulher sofre mais o impacto do envelhecimento e do etarismo do que os homens. Ela começa a achar que o voto dela e a sua participação não têm mais tanta importância, trazendo uma sensação de invisibilidade: ‘já estou velha, ninguém mais faz questão de me ouvir, então para que preciso votar?”, disse.

Para enfrentar esse isolamento e resgatar o engajamento da população sênior, o movimento tem impulsionado campanhas como a “Vovó Vota”, desenvolvida em parceria com a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e os coletivos Elas Decidem e Serenas, incentivando os jovens a acompanharem suas avós às seções eleitorais.

Além disso, nas eleições de 2026, o comparecimento às urnas ganha um efeito prático inédito ao ser utilizado pelo INSS no processo automático de Prova de Vida para aposentados e pensionistas. Contudo, a cofundadora do data8 ressalta que, para garantir a plena participação desse eleitorado, a Justiça Eleitoral e os candidatos precisam assegurar transporte acessível, eliminar filas e integrar propostas concretas de longevidade em seus programas de governo.

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