O poder da poesia: da saúde mental ao diálogo entre vivos e mortos
Os poetas Ana Rüsche e Ricardo Domeneck discutem a permanência do verso e a potência do gênero em entrevista no Festival Poesia no Centro

O Festival Poesia no Centro, realizado em São Paulo pela Megafauna e pela Associação Livros no Centro no mês de maio, reuniu 40 poetas e artistas de diversas geografias para debater a relevância e a circulação da poesia contemporânea. No evento, o Amado Mundo conversou com os escritores Ana Rüsche, doutora pela USP e pesquisadora de ficção especulativa e ecocrítica, finalista do Prêmio Jabuti e vencedora do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica, e Ricardo Domeneck, poeta, ensaísta e artista visual, vencedor dos prêmios Jabuti e Alphonsus de Guimaraens em 2024. Eles discutiram o panorama atual do gênero, as dinâmicas de consumo no ambiente digital e a relação entre o texto escrito e a tradição oral.
Diferente da prosa, a poesia opera em outra temporalidade: “Se a prosa muitas vezes nos captura pelo fluxo contínuo da narrativa, a poesia opera em outra frequência. Ela se assemelha à canção: possui um caráter profundamente meditativo”, analisa Rüsche. Para a autora, o gênero exige pausas e revisitas, assemelhando-se a um disco cujas faixas se revelam gradualmente.
A poeta aponta que essa característica impacta diretamente a recepção das obras no mercado consumidor: “O tempo de leitura não é tão imediato quanto o da prosa. E isso faz com que o livro, às vezes, vá fazer sentido muito depois do tempo em que foi lançado. Então essa circularidade, esse formato de lidar com o texto, ele é um pouco distinto. Até um modo de sentir”.
Apesar de ser frequentemente apontada como um gênero periférico no mercado editorial, os defensores da poesia argumentam que ela atua como um contraponto à velocidade da sociedade contemporânea. Conforme destaca a autora, essa permanência confere ao poema uma resistência maior ao descarte imediato: “E um livro de poesia eu acho que até dura a mais, entre aspas, que uma prosa, que pode ser o grande companheiro de uma vida, às vezes. E isso acho que a poesia traz que faz muita diferença.”
O gancho jornalístico e a crítica
Essa temporalidade estendida do livro de poesia, no entanto, entra em conflito com a dinâmica de atualização da imprensa cultural. Ricardo Domeneck argumenta que o suposto isolamento do gênero é, em grande parte, alimentado pelas engrenagens da própria cobertura midiática, que prioriza efemérides em detrimento da análise contínua:
“Isso acaba sendo reforçado pela própria imprensa. Porque ela continua viciada nessa questão do gancho [jornalístico], por exemplo, o gancho é porque faz 100 anos que morreu algum poeta ou faz 100 anos que nasceu, ou porque foi o mais vendido, isso acaba só reforçando de certa forma esses lugares periféricos de certos gêneros literários. Eu acho que se os jornalistas da cultura assumissem um caráter quase que investigativo no mundo da cultura, essa questão da poesia deveria ser menos fraca.”

Para o escritor, há uma necessidade de que os cadernos de cultura recuperem o fôlego investigativo e exerçam um papel crítico mais ativo, jogando luz sobre discussões que não são pautadas estritamente pelo mercado.
As frestas que correm a poesia no mundo contemporâneo
Se o mercado tradicional impõe barreiras, a poesia tem encontrado novos canais de distribuição por meio da música e das redes sociais. Domeneck lembra que a separação entre o texto impresso e o som é recente e que a oralidade permanece como a principal via de acesso ao gênero.
“Eu não vejo separação entre o poema no livro e o poema na música. É a poesia. A população do mundo seguiu leal à tradição oral. A poesia cantada é a arte mais popular do mundo. E eu sempre digo para os amigos que fazem música e para os amigos que escrevem, nós deveríamos colaborar mais, porque eu acho que seria bom para os compositores, porque às vezes eles se descuidam um pouco da letra, nós poderíamos contribuir nesse aspecto, e eu acho que nós observar o trabalho dos compositores seria bom para os escritores também no quesito de performance.”

Essa transmutação ganha força no ambiente digital. Assim como o público fragmentou o consumo de álbuns musicais em faixas isoladas no streaming, os poemas passaram a circular de forma autônoma em plataformas como o Instagram.
“Agora existe um acesso muito fácil, não é mais tão comum aquela coisa de comprar o álbum inteiro. Há pessoas que gostam de ouvir uma canção, elas vão ouvir aquela canção no Spotify. E isso acontece um pouco com os poemas também. Então, como as pessoas têm acesso a poemas no Instagram, às vezes a pessoa não vai procurar o livro. E eu acho que isso é legítimo. A gente não pode querer obrigar as pessoas, ‘não, tem que comprar o livro’. O que acho que é importante é que haja o acesso.”
Poesia como exercício de lucidez
Para além do debate estético e mercadológico, Domeneck defende que a poesia desempenha uma função prática no bem-estar mental e na preservação cognitiva. Alinhando-se a estudos neurocientíficos que recomendam o exercício intelectual constante para evitar o declínio cerebral, ele aponta a memorização de versos como uma atividade protetiva para a lucidez.
No plano emocional, o autor ressalta o papel do gênero como suporte em momentos de crise pessoal e luto:
“Quem não precisa de um poema ou de uma canção quando leva um pé na bunda? Quem não precisa dessa sabedoria de uma geração anterior quando tá passando por um momento de luto, de um momento de perda? Eu sempre digo: Tenha um ou dois poetas de cabeceira e vai ser bom para vocês.”
Essa conexão temporal também se estende à história da própria literatura. Citando a pensadora canadense Anne Carson, para quem “o poeta salva e é salvo pelos mortos”, Domeneck enfatiza a dimensão comunitária da escrita:
“E o que eu acho bonito no trabalho da poesia é que eu não consigo pensar em muitas outras atividades em que você está numa conversa com os mortos, com os vivos e com quem ainda não nasceu. Eu acho que de certa forma isso acontece em várias áreas. Mas na poesia, isso é muito central. Você tá conversando com os mortos, com os seus contemporâneos, com quem você tá dividindo o mundo e com gente que ainda não nasceu. É muito bonito isso.”
Ao fim, a permanência da poesia justifica-se por sua própria origem histórica. Parafraseando o filósofo italiano Giambattista Vico, Ana Rüsche conclui que o gênero caminha lado a lado com a própria constituição da linguagem:
“A poesia é a língua materna da humanidade. Eu acho que é mesmo. É a grande arte. Por isso que eu nunca deixo de escrever poesia ou de ler poesia.”