Reportagem

Debate sobre Neymar nas redes foi mais político do que esportivo durante a Copa, mostra estudo

Levantamento do Instituto Democracia em Xeque mostra que temas políticos concentraram 59% das publicações e 67% do alcance sobre Neymar durante a Copa do Mundo

por Brenda Gusmão
08/07/2026 às 20:06 · Atualizado há 2 meses
Neymar voltou a jogar pela seleção brasileira na partida contra a Escócia na Copa do Mundo
Neymar voltou a jogar pela seleção brasileira na partida contra a Escócia na Copa do Mundo (Patricia de Melo Moreira/AFP)

A eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo não transformou Neymar apenas no principal alvo das análises sobre o fracasso da seleção. Nas redes sociais, a derrota serviu de combustível para uma disputa política em torno da imagem do camisa 10, com críticas, defesas, embates entre direita e esquerda que superaram a própria discussão sobre futebol.

É o que mostra um relatório do Instituto Democracia em Xeque (DX), divulgado nesta quarta-feira (8/7). O levantamento analisou 5.417 publicações sobre Neymar entre 19 de junho e 6 de julho, que somaram alcance estimado de 90,6 milhões nas redes sociais.

Segundo o estudo, o debate se organizou em cinco eixos temáticos, divididos em dois blocos. De um lado, os três eixos de politização direta – a disputa sobre a culpa pela eliminação, as reações à declaração do presidente Lula, que chamou Neymar de “jogador home office”, e a disputa pela imagem do atacante – concentraram 59% das publicações e 67% do alcance das conversas monitoradas, quase o dobro dos dois eixos de cobertura esportiva. Em volume, a disputa política sobre Neymar superou o próprio relato do futebol.

Ao todo, a direita respondeu por 45% das publicações, contra 29% da esquerda e 26% da imprensa. O campo conservador predominou justamente nos três eixos de politização direta, enquanto a imprensa liderou apenas a cobertura da seleção e dividiu com os demais campos o relato da eliminação para a Noruega, o eixo mais equilibrado do levantamento.

O maior eixo individual identificado pelo DX foi a disputa sobre quem deveria ser responsabilizado pela eliminação para a Noruega. Sozinho, ele respondeu por 29% das publicações analisadas e registrou 56% da audiência em perfis de direita. Já o relato da partida apresentou distribuição mais equilibrada entre os campos monitorados: 39% da direita, 28% da esquerda e 34% da imprensa.

Para a direita, um ídolo; para a esquerda, um retrato de privilégios

Neymar e Flávio Bolsonaro
Neymar ao lado do senador Flávio Bolsonaro (Foto: @neymarjr/Instagram)

A direita predominou nos três eixos mais políticos do estudo. O mais favorável ao campo conservador foi o da disputa pela imagem de Neymar, responsável por 58% da audiência. Nele, apareceram publicações que comparavam o legado do atacante ao de nomes como Lionel Messi e Kylian Mbappé, associavam o jogador ao bolsonarismo e criticavam Lula por supostamente atacar um dos maiores ídolos do futebol brasileiro.

Entre os exemplos destacados pelo relatório está um vídeo publicado por Flávio Bolsonaro, produzido com inteligência artificial, em que o senador aparece “buscando” Neymar em um caça. Também ganharam força publicações de Nikolas Ferreira, Romeu Zema e Magno Malta reagindo à declaração do presidente sobre o “jogador home office” e tratando o atacante como patrimônio do campo conservador.

A idolatria, porém, não foi unânime nem mesmo na direita. O levantamento aponta que o pré-candidato à presidência Renan Santos, do Missão, classificou Neymar como um “ex-jogador em atividade” e o comparou a celebridades envolvidas com o crime organizado, expondo um raro racha entre perfis de direita sobre o camisa 10.

Do outro lado, a esquerda concentrou críticas ao comportamento de Neymar – dentro e fora de campo. As publicações questionavam o individualismo do atacante, a discussão com jogadores da Noruega após o gol brasileiro, o tratamento diferenciado recebido na seleção, sua relação com empresas de apostas esportivas e a convocação para a Copa sem plenas condições físicas. Também houve postagens celebrando o “fim da era Neymar” na Seleção.

A reação à fala de Lula também virou motivo de disputa. Enquanto a direita acusava o presidente de desrespeitar um ídolo nacional, perfis de esquerda defenderam a piada e passaram a acusar adversários de fazer “mimimi” diante de uma brincadeira, apesar de historicamente defenderem a liberdade para o humor político.

Do “home office” à eliminação

Copa do Mundo
Brasil perde para a Noruega e está eliminado da Copa do Mundo (Hakan Akgun / Anadolu via AFP)

O comentário de Lula marcou o primeiro pico do debate. Entre 19 e 22 de junho, a declaração sobre o “jogador home office” impulsionou uma onda de publicações lideradas pela extrema direita. Segundo o relatório, o episódio funcionou tanto como diversionismo diante de agendas negativas – como o escândalo “Dark Horse”, o tarifaço, o embate entre Michelle e Flávio Bolsonaro e as declarações de Paulo Figueiredo sobre o voto feminino – quanto como uma oportunidade para reforçar a imagem de Neymar como símbolo político. O tema respondeu por 19% das publicações analisadas e concentrou 50% da audiência em perfis de direita.

Mas foi a eliminação para a Noruega que levou essa disputa a outro patamar. O segundo pico de repercussão, registrado entre 5 e 6 de julho, foi significativamente maior e deslocou o debate para a busca de culpados pela derrota.

No dia seguinte à eliminação, a direita alcançou 57% da audiência (o maior índice de todo o período analisado). Entre as publicações destacadas pelo relatório estão postagens de Nikolas Ferreira, Sergio Moro e Adolfo Sachsida (economista, ex-ministro de Bolsonaro) relacionando o fracasso da seleção ao governo Lula. Também circularam conteúdos que apresentavam o gol de pênalti de Neymar como uma resposta às críticas da esquerda, apesar da eliminação brasileira.

Já a imprensa manteve Neymar no centro da cobertura, mas sob outra perspectiva. O foco esteve na recuperação física do atacante, na atuação durante os jogos, na discussão com o goleiro norueguês após o gol brasileiro, em sua vida pública e política e na possibilidade de despedida da seleção.

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