Reportagem

Não tem como fazer a IA parar de crescer, diz diretora-presidente do BD30+

Durante a 1ª edição do Brasília Tech Summit, evento promovido pelo Amado Mundo, especialistas de tecnologia e mobilidade defenderam que o foco do país deve estar na adaptação a novos modelos de negócios e na educação tecnológica, evitando que entraves regulatórios precoces prejudiquem o desenvolvimento

por Letícia Corrêa
28/05/2026 às 16:46 · Atualizado há 4 meses
Da esquerda para a direita, publisher do Amado Mundo, Guilherme Amado; a presidente da BlaBlaCar no Brasil, Tatiana Mattos; a diretora-presidente do Plano Brasil Digital 30+ (BD30+), Maria da Glória Guimarães; e o diretor de políticas públicas da OpenAI – dona do ChatGPT – na América Latina, Bruno Lewicki (foto de Paulo Cerqueira)

A diretora-presidente do Plano Brasil Digital 2030+ (BD30+), Maria da Glória Guimarães, sustenta que o Brasil já possui um ambiente bastante regulado e não precisa criar novas leis a todo instante para lidar com inovações tecnológicas. Ela defende a adoção de modelos flexíveis, como o “sandbox” regulatório — ambiente em que o órgão regulador permite que alguma empresa opere com regras diferentes das demais por um tempo determinado para possibilitar o teste de alguma inovação —, e destacou que o verdadeiro gargalo do país é o letramento digital da população.

“Ninguém regula tecnologia, gente. Eu não consigo dizer para a IA: ‘Para de crescer’. Eu não consigo dizer para ninguém para de crescer ou para de inventar. Isso não existe. A gente regula o uso adequado desses instrumentos para defender o cidadão de algum problema que possa acontecer”, afirmou Maria da Glória, durante a primeira edição do Brasília Tech Summit, maior evento de economia e regulação digital do país, promovido pelo Amado Mundo, nesta quinta-feira (28).

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Além disso, a diretora-presidente apregoou a urgência de uma governança centralizada e de uma política de Estado para o setor. Segundo ela, o país cria bons softwares, mas carece de um direcionamento claro, diferentemente da China, que estabeleceu metas ambiciosas para formar engenheiros e liderar o desenvolvimento da tecnologia até 2030.

Na avaliação da executiva, para que o Brasil avance é preciso capacitar os micro e pequenos empreendedores, para que percam o “pavor” do meio digital e passem a utilizar os dados, o maior elemento da IA, a seu favor e de forma segura.

Menos “fetiche” de legislação

A visão de que a regulação não deve ser a barreira inicial para a inovação também foi compartilhada pelo diretor de políticas públicas da OpenAI na América Latina, Bruno Lewicki. Ele concordou que as regras são essenciais, mas alertou para o risco de o país perder o “timing” da competitividade global ao travar inovações antes de adotá-las.

“A gente tem que deixar de lado um pouco o fetiche da regulação, que é importante, é necessário ter regulação, mas não começar a conversa por regulação. Será que a gente precisa – a segunda vez que eu vou usar essa palavra hoje, me julguem –, será que precisa desse fetiche da grande codificação, desse Código Napoleônico da IA brasileira?”, provocou.

Lewicki também ponderou que o Brasil não precisa necessariamente criar “modelos de fronteira” na inteligência artificial para ser protagonista global. Citando o exemplo do Japão, que preferiu privilegiar legislações setoriais já existentes e focar na adoção local da tecnologia para os negócios, ele argumentou que a verdadeira vocação brasileira pode estar no desenvolvimento de aplicações que criem espaço para os negócios locais abraçarem a revolução da IA.

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Os desafios da regulação na mobilidade

No setor de transportes, as dificuldades em acomodar mudanças foram detalhadas pela presidente da BlaBlaCar no Brasil, Tatiana Mattos. Ela apontou que, muitas vezes, a célula fundamental da discussão regulatória foca em proteger a estrutura tradicional existente, dificultando a entrada de novos modelos, como os de economia compartilhada.

Tatiana reforçou que o Brasil, por ser um país de dimensões continentais e orçamento apertado, precisa urgentemente aceitar e desenvolver a multimodalidade. Segundo ela, para garantir a transformação e o interesse de investimentos, o debate deve focar no impacto positivo para a ponta final.

“A gente precisa começar o debate pelo poder transformador do negócio, pela disrupção, pelo que o usuário vai se beneficiar […] e não pela regulação”, concluiu a presidente da BlaBlaCar no Brasil.

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