Mulheres votam contra as bets
Ao retirarem recursos do orçamento familiar, as bets desorganizaram as condições materiais que permitem às pessoas viver

Proibir as bets é colocar o cuidado no centro da política, privilegiando a proteção das condições materiais de reprodução da vida sobre a pressão do lucro e as promessas de arrecadação. Uma aposta perdida aparece nas estatísticas como endividamento, mas, dentro de casa, ela se concretiza como o aluguel que não consegue ser pago ou a impossibilidade de fazer as compras do mês. E, quando alguém na família perde várias apostas em seguida, o mais provável é que recaia sobre uma mulher a responsabilidade de descobrir como fazer o dinheiro que resta dar conta de todas as demandas da casa.
Leia mais: Lula proíbe bets, por Medida Provisória, às vésperas da eleição
Na sexta-feira passada, 25/9, o presidente Lula assinou uma medida provisória que proíbe as bets no Brasil. A decisão alcança apostas esportivas e jogos online, além da publicidade dessas empresas. É uma mudança enorme de posição para um governo que havia antes defendido a regulamentação do setor. Apesar de muitos estarem acusando a medida de ser simplesmente eleitoreira, acredito que há um motivo menos cínico para a sua tomada nesse momento.
Bets são nocivas para a economia familiar
Ao retirarem recursos do orçamento familiar, as bets desorganizaram as condições materiais que permitem às pessoas viver, como comer, morar, descansar, cuidar de uma criança, tratar uma doença ou chegar ao trabalho no dia seguinte. Quando essas condições são ameaçadas, o esforço para mantê-las precisam ser intensificados. Alguém se debruça sobre o orçamento familiar, pede dinheiro emprestado, arruma um bico, acolhe o desespero de quem perdeu e tenta proteger os demais das consequências. É nessa rotina, socialmente atribuída às mulheres, que uma crise descrita como endividamento se torna uma crise da reprodução da vida.
A decisão de Lula veio na reta final da campanha. Minha impressão é que isso importa, mas não do jeito que os críticos estão colocando, como se fosse apenas um cálculo pragmático do presidente. Campanhas obrigam candidatos a sair das reuniões em que uma atividade econômica aparece como arrecadação e a ouvir pessoas para quem ela tem outro significado completamente diferente.
Leia também: Saúde mental motiva 36% dos pedidos de bloqueio em bets, mostram dados da Fazenda
Talvez o contato mais intenso com mulheres nas atividades de campanha — seja mulheres trabalhadoras em encontros temáticos, seja as mulheres candidatas do campo progressista que há muito tempo já estavam engajadas nessa luta — tenha ajudado a tornar incontornável uma realidade que elas já conheciam havia muito tempo. Não é possível afirmar que uma conversa específica produziu a decisão, mas é possível perguntar por que foi preciso chegar tão perto da eleição para que esse sofrimento tivesse peso suficiente dentro do governo. A pergunta é especialmente incômoda para um governo que, até então, sequer tinha colocado na mesa a possibilidade de proibição.
Mulheres acabam pagando o preço
Ao assinar a MP, Lula enfrentou interesses poderosos, da indústria das apostas aos setores que dependem de sua publicidade, passando pelos clubes de futebol. Colocar o cuidado no centro da política tem esse significado concreto, qual seja, de dar prioridade à reprodução da vida mesmo quando ela entra em conflito com negócios lucrativos.
Mas é fundamental lembrar que uma medida provisória não encerra a disputa, pois o Congresso poderá modificar ou deixar de aprovar o texto. Por isso, precisamos eleger deputadas e senadoras comprometidas em defender o fim das bets e em enfrentar outra ameaça cotidiana à vida que é a escala 6×1. As duas lutas confrontam o grande capital onde ele atinge a reprodução da vida. As bets capturam o dinheiro necessário para sustentar as famílias, enquanto a escala 6×1 entrega aos empregadores o tempo necessário para viver. Em ambos os casos, são sobretudo as mulheres que precisam encontrar um jeito de fazer a vida continuar.
Comece o dia sabendo o que importa. Receba gratuitamente a Antes da Reunião, a newsletter de política e economia do Amado Mundo. De 2ª a 6ª, às 6h30. Assine!
Não basta votar em mulheres por serem mulheres. É preciso procurar candidatas e candidatos com compromissos claros com essas pautas, que já vinham dizendo o que um governo dominado por homens demorou a reconhecer. No domingo, 4/10, votaremos também para que a experiência de quem sustenta a vida todos os dias tenha força no Congresso para mudar as decisões do país.