Mayra Cotta

A disputa das mulheres na política e a política das mulheres em disputa

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Artigo

Misoginia na política, um problema de gênero radioativo

Os ataques de misoginia nas redes, muitas vezes coordenados, produzem efeitos imediatos de silenciamento das mulheres na política

Publicado em 10/09/2026 às 06:00
Mulheres na política: misoginia e um problema de gênero radioativo
Misoginia na política, uma questão de gênero radioativa (Ron Lach/Pexels)

É complexa e sofisticada a engrenagem que exclui as mulheres dos espaços de poder. Dentre as práticas mais efetivas está a instrumentalização da misoginia nas redes para atacar candidatas mulheres. E, se fugirmos da rasa perspectiva liberal que insiste em dar explicações individuais para questões estruturais, conseguimos enxergar o mecanismo material pelo qual a misoginia produz exclusão política.

Evidentemente, o custo individual da misoginia é gigantesco. Os ataques nas redes, muitas vezes coordenados e monetizados, produzem efeitos imediatos de silenciamento e adoecimento das mulheres que os sofrem. Isso, por si só, é grave o suficiente. 

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Misoginia articulada contra candidatas

Mas há, ainda, um outro efeito, mais estrutural, da misoginia articulada contra candidatas. Funciona da seguinte forma.

Primeiro, esse tipo de violência torna a própria candidata, no termo brilhantemente utilizado por Márcia Tiburi, radioativa. Qualquer pessoa que se associa a ela passa a também ser alvo dos mesmos ataques e o custo político de se aproximar daquela mulher se torna muito alto. Uma candidata submetida a ataques misóginos coordenados passa a expelir uma carga radioativa que afasta pessoas e instituições que poderiam apoiá-la. Quem aparece ao seu lado numa fotografia teme ser atacado. Os aliados evitam defendê-la porque não querem entrar naquela guerra. Jornalistas passam a apresentá-la a partir da controvérsia produzida pelos próprios agressores. 

Então, em seguida, a violência deixa de atingir apenas a vítima e reorganiza o comportamento de todo o campo político ao redor dela. Essa reorganização não depende de uma conspiração formal, nem de pessoas que defendem abertamente a exclusão das mulheres da política, sendo suficiente que cada ator conclua que apoiar aquela mulher custa caro demais. O silêncio em relação a mulheres específicas sob ataque pode, inclusive, vir acompanhado de discursos genéricos sobre a defesa de mulheres.

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Por fim, quando as pontes começam a desaparecer, o próprio isolamento passa a funcionar como evidência contra a candidata. Se perdeu apoios, talvez seja “difícil”. Se o partido hesita, talvez seja “radical demais”. Se provoca ataques por onde passa, talvez “não saiba construir”. A violência produz o isolamento e, em seguida, o isolamento é apresentado como prova de que aquela mulher não possui as qualidades necessárias para exercer poder.

É preciso romper com as injustiças

A perversidade desse mecanismo é que a violência se torna radioativa na candidata, mas não em seus agressores. A misoginia cria o problema e oferece a vítima como explicação. E obviamente o recado também alcança outras mulheres, uma vez que cada candidata transformada em alvo funciona como advertência para as que poderiam vir depois.

Por isso, não basta responder à misoginia recomendando que as mulheres sejam mais resilientes ou preparadas para enfrentar as redes. Essa resposta individualiza um problema estrutural e preserva intactas as estruturas que produzem e se beneficiam, inclusive financeiramente, dela.

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Também não basta ampliar a representação feminina nas instituições formais de poder. Contar quantas mulheres atravessaram a porta diz pouco sobre as condições encontradas do outro lado. Se as instituições transferem para cada candidata o custo de enfrentar sozinha a misoginia, a inclusão formal convive perfeitamente com a exclusão material.

Precisamos, portanto, deixar de perguntar por que não há mais mulheres na política, e passar a questionar como as instituições tornam a presença de determinadas mulheres progressivamente insustentável. Isso significa distribuir coletivamente um custo que hoje é imposto às mulheres individualmente.

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A misoginia online é muito mais do que um efeito desagradável da exposição pública. Estamos falando de uma tecnologia de poder que disciplina todas as mulheres que cogitam ocupar ou ocupam o espaço público. Um feminismo interessado apenas em colocar mulheres no poder não dá conta desse problema. É preciso transformar as condições materiais de exercício do poder e romper com a injustiça que faz da capacidade de sobreviver à violência misógina uma condição para a participação política das mulheres.

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