A miopia digital das campanhas presidenciais em 2026
As campanhas disputam o feed loucamente. E ignoram o mar aberto. Nenhuma delas, a julgar pelo que a máquina lê, pensou na resposta fornecida pelas IAs

Semana passada pedi a um agente de inteligência artificial que fizesse uma tarefa simples: abrir outras IAs, perguntar sobre os candidatos a presidente e anotar as respostas. Nem opinar, nem votar, nem produzir conteúdo. Só coletar e registrar.
Ele recusou. “Não presto assistência a esse tema, em nenhuma forma: nem consulta, nem pesquisa, nem registro, nem organização de material.”
Dois dias depois, pedi a mesma coisa a outro agente. Ele abriu o navegador, rodou os prompts, tirou print de tudo e me entregou uma planilha com 138 observações. Mesma tarefa, mesma semana, dois comportamentos opostos. Um bom começo para entender o que acontece quando o eleitor brasileiro, a dois dias do primeiro turno, pergunta a uma máquina sobre quem está na urna.
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O que todo mundo já testou
Desde maio, jornais e centros de pesquisa fizeram a mesma pergunta às IAs: em quem votar. A BBC fez. A Folha fez, com ranking por nota. O ITS Rio publicou um estudo mostrando que 85% das IAs recomendam candidato. O Observatório IA nas Eleições, a SpaceMoney e o Canaltech foram pelo mesmo caminho. A resolução do TSE de março proíbe que sistemas de IA ranqueiem, recomendem ou priorizem candidatos, e testar a regra dá manchete.
Mas essa não é a pergunta que o eleitor faz. O eleitor pergunta quem é fulano, o que ele propõe para a segurança, o que ele propõe para a economia, se tem caso de corrupção. Perguntas permitidas, que a IA responde. E quando ela responde, usa alguma fonte. Ninguém olhou para as fontes. Foi isso que resolvi fazer.
Sete perguntas, em linguagem de eleitor comum, para os cinco candidatos que lideram as pesquisas. Duas rodadas, em dois dias diferentes, no ChatGPT e no Gemini, com nova conversa a cada pergunta e sem login. As mesmas perguntas foram feitas no Google, para registrar quando o bloco de resposta por IA aparece e o que ele cita. Ao todo, 138 observações e 312 capturas de tela. Claude e Copilot ficaram de fora porque exigem conta. DeepSeek não entrou.
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A IA trava na pergunta proibida e responde todas as outras
ChatGPT e Gemini responderam 44 das 46 consultas. A única recusa, nas duas rodadas, foi “em quem devo votar”. Nas perguntas comparativas, do tipo “qual candidato tem a melhor proposta para segurança”, as duas abriram dizendo que não podem apontar o melhor e, na sequência, compararam as propostas, sem nota e sem ranking. Cumprem a norma na letra. E descrevem à vontade.
Se a IA está proibida de recomendar, toda a influência dela sobre o eleitor se concentra em como ela descreve o candidato. E a IA descreve “a partir de quê?”. Quem descreve o candidato é a imprensa. E, no caso do presidente, o próprio Estado. Nenhuma das 92 respostas veio sem fonte. Todas trouxeram links.
Somando as duas IAs, os domínios mais citados foram UOL, com 50 menções, Congresso em Foco, com 30, Folha, com 23, G1, com 22, Wikipédia, com 21, gov.br e Agência Brasil, com 19 cada. O Gemini citou imprensa em 41 das 46 respostas.
O caso do Lula mostra isso com clareza. Quando perguntei o que ele propõe para a segurança, o ChatGPT respondeu lendo o texto da PEC no site do Planalto e a Mensagem ao Congresso de 2026. Para a economia, leu o Plano Plurianual e a página da Receita sobre a reforma tributária. O governo fala pelo candidato. O site da campanha, lula.com.br, não apareceu em nenhuma das consultas.
Ser governo é uma vantagem estrutural que nenhum outro candidato tem. O Estado publica, a máquina lê. Não dá para comparar a campanha do presidente com as outras na mesma régua.
Quem aparece, e como: cadê as campanhas?
Tirando o Lula, os sites de campanha apareceram como fonte em 7 de 46 respostas no ChatGPT e em 4 de 46 no Gemini. E quase tudo isso é um candidato só.
O site de Ronaldo Caiado apareceu em mais da metade das consultas sobre ele, nas duas IAs. O de Flávio Bolsonaro, em duas. Os de Augusto Cury e Romeu Zema, em nenhuma. O Zema aparece três vezes no Gemini pelo site do partido, novo.org.br.
Quatro campanhas presidenciais, orçamentos de dezenas de milhões, equipes inteiras de digital. Para a IA, três delas não existem como fonte da própria narrativa. Quem fala por elas é o jornal, a Wikipédia e, quando a pergunta é comparativa, o site do adversário.
E não é por sofisticação técnica
Antes de rodar o teste, eu apostava que a diferença estaria no código: dados estruturados, marcação para máquina, o arsenal que o mercado chama de GEO. Perdi a aposta. Os sites do Lula e do Zema têm dados estruturados na página inicial e na página de propostas. São justamente dois que não são citados. O site do Caiado não tem marcação nenhuma e é o mais citado.
O que o site do Caiado tem é mais simples. Uma página de propostas em HTML, dividida por tema, com âncora própria para segurança, para economia, para cada assunto. Conteúdo aberto, que uma máquina consegue ler, recortar e citar.
Nos outros, a história é diferente. O site do Flávio bloqueou o navegador da coleta: só respondeu quando identificado como robô do Google. Um site de campanha que fecha a porta para agentes de IA. O site do Cury não tem plano de governo; tem notícias e materiais de campanha, e o programa inteiro só existe no PDF do TSE. O do Zema tem a página de propostas, mas a IA preferiu o site do partido.
Para quem vende GEO como truque, o recado é ruim. Ser citado por uma IA não é questão de marcação escondida no código. É publicar o conteúdo de um jeito que a máquina consiga ler e confiar. Uma página clara por tema vale mais do que um PDF bonito atrás de um bloqueio.
Os extremos
No Google, o bloco de resposta por IA apareceu em 17 das 23 buscas, nas duas rodadas, com resultado idêntico. Nunca para “quem é fulano”. Nunca para “em quem votar”. Sempre para propostas e corrupção. As fontes: G1, Nexo, Gazeta do Povo, Valor, CNN. Campanha, nenhuma.
Em 138 observações, não apareceu um único conteúdo patrocinado. Bate com a promessa da OpenAI de deixar política fora da publicidade que começou a vender dentro do ChatGPT.
E há a outra ponta. A DeepSeek não entrou no meu teste, mas os estudos do ITS Rio e do Observatório IA mostram que ela ranqueia candidatos, recomenda por perfil de eleitor, desaconselha nomes e chegou a indicar como candidata à Presidência uma organização social que não disputa a eleição.
Entre o agente que se recusa até a pesquisar e a IA que inventa candidato, está o eleitor. Com o celular na mão, perguntando.
O que isso diz sobre GEO
Faz meses que escrevo aqui sobre a mudança do clique para a citação. Sobre como, na era da resposta sintetizada, já não basta aparecer numa lista: é preciso estar dentro da resposta. A eleição de 2026 virou o laboratório perfeito dessa tese.
As campanhas disputam o feed loucamente. E ignoram o mar aberto. Investem em corte de vídeo, em rede de apoiadores, em WhatsApp, em mídia paga. Nenhuma delas, a julgar pelo que a máquina lê, pensou na resposta. E a resposta é onde parte do eleitorado está formando opinião agora, sem clicar em nada.
Isso não é um erro de estratégia de campanha. É o mesmo problema de qualquer marca, empresa ou instituição.
Quando alguém pergunta sobre você a uma IA, alguém responde. Se não for você, será a imprensa, a Wikipédia, o concorrente. A campanha do Caiado não fez nada de extraordinário: publicou o programa de um jeito que dá para ler. E isso bastou para ser a única presente na conversa.
As ressalvas
Foram duas rodadas em dois dias, num único navegador, de uma única localidade. Respostas de IA mudam com o tempo e com o contexto. Claude e Copilot ficaram fora. Um dos agentes que fez a coleta é da OpenAI e consultou o próprio ChatGPT. Os links do Google vieram como redirecionamento, o que limita a classificação das fontes. É uma fotografia, não um censo. Mas é uma fotografia que ninguém tinha tirado.
No domingo, o eleitor vota. Uma parte dele, antes de votar, perguntou a uma inteligência artificial quem são os candidatos e o que propõem. A resposta veio da imprensa, da Wikipédia, do governo. De quase nenhuma campanha. Em 2030, a pergunta não vai ser se as IAs vão falar sobre os candidatos. Vai ser quem elas vão ler para responder.
E quem não publicar de um jeito que a máquina entenda vai descobrir, tarde, que alguém já falou por ele.