Michael ‘Oliso’ Olise: o fio condutor que faz a França parecer imbatível
Coadjuvante de luxo ao lado de Mbappé e Dembélé, Olise soma números pela França na Copa que nenhum jogador alcançava desde 1994

Tem um apelido aparecendo nas redes sociais brasileiras para descrever o que Michael Olise tem feito nesta temporada: “Oliso” — porque a bola simplesmente escorrega para ele, e ele escorrega pelos adversários. O trocadilho é uma brincadeira, mas também é preciso. Depois de quatro jogos na fase de grupos e nas oitavas, Olise não é apenas coadjuvante do show de Kylian Mbappé e Ousmane Dembélé: ele é o mecanismo que faz a máquina francesa funcionar.
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O dado mais espetacular é também o mais simples de contar: Olise chegou a 5 assistências no Mundial, um número que só tem dois paralelos em toda a história das Copas do Mundo. Ele é o primeiro jogador a somar 5 ou mais assistências em uma única edição desde o alemão Thomas Habler, em 1994, e o único nome à frente dele nos registros desde 1966 é Pelé, que deu 6 assistências pelo Brasil em 1970.
Ou seja: Olise está a uma assistência de igualar o Rei do Futebol em uma métrica que resistiu por mais de meio século. E ele fez isso ora atuando como ponta, ora recuando para armar jogadas do meio-campo, um perfil híbrido que ajuda a explicar por que os números dele são tão fora da curva. Até agora, o francês tem 14 finalizações e nenhum gol. É a fotografia de um jogador que está sacrificando protagonismo estatístico individual em favor da equipe, algo que os próprios companheiros já notaram.
38 – France's Michael Olise has been involved in 38 open play attacking sequences at the 2026 FIFA World Cup (13 shots, nine chances created, 16 build ups to shot), the most of any player.
— OptaPlay (@OptaPlay) July 1, 2026
Involved. pic.twitter.com/DvZtqiwRbA
“É um verdadeiro prazer jogar ao lado dele. Ele tem o dom de fazer gols. Ainda não balançou a rede, mas vai conseguir. A bola bate na trave ou o goleiro faz uma defesa crucial, mas dá para perceber que ele vai marcar. Toda vez que ele toca na bola, é um perigo para o adversário”, disse o atacante francê Bradley Barcola após a vitória sobre a Suécia.
Como Olise construiu essa régua
Contra o Senegal (3 a 1), na estreia, Olise teve uma primeira etapa discreta, apenas um toque na área senegalesa, segunda a Opta, mas foi movido pelo técnico Didier Deschamps para uma função mais central no intervalo e mudou o jogo: 10 finalizações a mais da equipe na etapa final (10 chutes valendo 1,87 xG), 27 passes no terço final (12 a mais que qualquer companheiro, com 92,6% de acerto) e 4 chances criadas, o dobro de qualquer outro jogador em campo.
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Foi o ponta quem lançou Mbappé para abrir o placar. No total, os 0,95 de xA (assistências esperadas) dele naquele jogo só perderam para o espanhol Pedri (1,23) entre todos os jogadores até aquele momento do torneio, e sua soma de 1,35 em xG e xA foi a maior de qualquer atleta na Copa até ali — em apenas um tempo de bola.
The assister 🫂 The goalscorer 💙 pic.twitter.com/clgn0YKSTm
— French Team ⭐⭐ (@FrenchTeam) July 1, 2026
Contra o Iraque (3 a 0), Olise voltou a aparecer na frente do ataque francês: foi ele quem armou o gol de Mbappé logo aos 14 minutos, em um passe direto de um-dois. Aos 20 do segundo tempo, mais um toque para gol, assistência para Dembelé fazer o terceiro e selar o placar.
Contra a Noruega (4 a 1), o retrato foi mais discreto que nos outros três jogos, mas Olise seguiu no radar da criação francesa. Ele teve três finalizações na etapa inicial, já no segundo tempo, aos 15 minutos, foi ele quem levantou na segunda trave para Lacroix entrar nas costas da marcação e finalizar — o zagueiro isolou a bola, mas o lance nasceu dos pés de Olise. Aos 19 minutos da etapa final, saiu para a entrada de Cherki, na mesma leva de substituições que tirou Dembélé (autor do hat-trick na primeira etapa), um sinal de gestão de carga em um jogo que a França já controlava com tranquilidade, sem premiar Olise com gol ou assistência dessa vez.
Contra a Suécia (3 a 0), nas oitavas, Olise voltou a ser decisivo duas vezes: deu o passe entre as pernas de Gustaf Lagerbielke para Barcola ampliar, aos 53 minutos e, na sequência, foi quem lançou Mbappé para o terceiro gol — a assistência que o colocou na liderança isolada do ranking de assistências da Copa, superando o brasileiro Bruno Guimarães (4). Ele ainda arriscou três finalizações, incluindo uma bicicleta que acertou a trave, e quase fez seu primeiro gol no torneio.
🇫🇷 ALLEZ LES BLEUS! 👀
— CazéTV (@CazeTVOficial) June 30, 2026
Com direito a show de Mbappé e Olise, a França passeou contra a Suécia, venceu com facilidade e carimbou o passaporte para as oitavas de final. O próximo confronto será contra o Paraguai.@budweiser_br #BudNaCopa #BebaComModeração #VídeoPatrocinado pic.twitter.com/6ocjFABNV7
Por que Olise funciona tão bem nesse time
Fora de campo, Olise é conhecido nos bastidores da seleção francesa como “Monsieur Nonchalant” — apelido que reflete o jeito desligado e a discrição do jogador diante da imprensa. Dentro de campo, porém, o contraste é total: ele alterna entre criar pela ponta-direita e recuar para organizar como um meio-campista avançado, funcionando também como primeira linha de marcação depois da perda de bola, um perfil dois-em-um que Deschamps tem explorado deliberadamente, movendo-o para dentro do campo quando a França precisa de mais posse e passe entre linhas.
Nascido em Londres, filho de pai nigeriano e mãe franco-argelina, Olise era elegível para defender Inglaterra, Nigéria ou Argélia, mas escolheu a França por admiração a ídolos como Zidane e Thierry Henry, segundo entrevista concedida à Highsnobiety. Chega à Copa em temporada de consagração pelo Bayern de Munique, clube pelo qual foi eleito o melhor jogador da Bundesliga.
Com Paraguai pela frente nas oitavas, a régua histórica de Pelé — e a permanência da França como a única seleção a marcar três gols ou mais em cinco jogos seguidos de Copa — coloca Olise no centro da narrativa francesa daqui pra frente. Se ele completar mais uma assistência, e a França seguir embalada, “oliso” deixa de ser brincadeira de torcedor e vira parte da história da Copa.