Para além do preto e branco: Mary Del Priore debate parditude em novo livro
Em 'História das mestiçagens no Brasil', historiadores propõem superar a polarização do debate racial

“O mundo está se mestiçando”, afirma a historiadora Mary Del Priore em entrevista ao Amado Mundo. Doutora em História pela USP, vencedora de prêmios como Jabuti e Casa-Grande & Senzala, a autora lança “História das mestiçagens no Brasil” (Editora Unesp), obra organizada em parceria com Gian Melo, doutor em História (UFPE) e professor da UFAL, na qual exploram o conceito de mestiçagem e parditude no país.
A coletânea reúne especialistas do Brasil e do exterior para examinar, sob múltiplos ângulos e amparados por vasta documentação de arquivo, um dos processos mais complexos da formação nacional: a construção biológica e cultural de uma sociedade majoritariamente parda.
Em um momento em que as discussões sobre raça, inclusão, cotas e pertencimento ocupam o centro do debate público, a historiografia propõe um recuo analítico. Para Mary Del Priore, o debate contemporâneo sobre o racismo acabou enquadrado em uma lógica polarizada que enxerga o país sob um prisma exclusivo de “branquitude versus negritude”, deixando de fora o segmento populacional mais expressivo demograficamente.
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“Existe um grupo que está silenciado nessa discussão entre negritude e branquitude. A pardidade ficou apagada durante décadas e está agora no debate. Há uma resistência em aceitar um Brasil dividido estritamente entre brancos e pretos, e essa polarização não está fazendo a reflexão progredir”, aponta Del Priore.
O objetivo central da publicação é resgatar o protagonismo histórico da população parda — um conceito que não nasceu recentemente, mas que atravessa os séculos da formação brasileira. “O nome pardo aparece na Carta de Pero Vaz de Caminha; é uma palavra que existe há muito tempo. Queríamos concentrar a questão das mestiçagens como uma cultura, tal como Gilberto Freyre vislumbrou: toda uma cultura mestiça”, explica a historiadora.
Mestiçagens: a obra e o resgate do sujeito histórico
A perspectiva adotada na coletânea busca reposicionar os trabalhadores e as populações mestiças do país não apenas como vítimas passivas de processos estruturais, mas como agentes de sua própria trajetória. A historiadora pondera a evolução dos estudos sobre o tema no século XX: “Nos anos 1920 e 1930, essa questão começou a ser tratada sob o ponto de vista estrito da raça. Depois, deu-se um passo à frente entre as décadas de 1950 e 1970, passando para o olhar marxista entre explorados e exploradores. Agora, caímos de novo nessa polarização”.
Para os organizadores, romper com recortes simplistas é essencial para avançar na compreensão da desigualdade social no país. “A democracia racial não existe, a desigualdade no Brasil é profundamente econômica. Todo o esforço da historiografia atual é tirar o debate do lugar da vitimização, porque quando você vitimiza, retira o sujeito do protagonismo. As pessoas foram e são agentes de sua própria história”, afirma.
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Inspirada por uma lacuna clássica apontada pelo historiador Evaldo Cabral de Melo — que lamentava a escassez de estudos dedicados à história das classes trabalhadoras pobres —, a pesquisa traz luz a arquivos inéditos. “Saindo do forno com fôlego e muita documentação, o livro é fundamental para iluminar essa parcela, a maioria da população brasileira, que está sem história até hoje”, defende Mary Del Priore.
O levantamento bibliográfico e documental do livro percorre ainda a presença da mestiçagem na criação artística do país. “Temos um capítulo sobre como o teatro e a poesia sempre valorizaram a mestiçagem, embora certos personagens nas artes e na literatura tenham sido retratados um pouco branqueados demais. Já o jornalismo guardava um preconceito grande sobre o tema, como mostra o artigo da historiadora Lizir Arcanjo presente no volume”, exemplifica.
‘A miscigenação não cala o racismo’, diz Mary Del Priore
‘A coletânea recusa interpretações reducionistas que oscilam entre a idealização romanceada e a negação dos conflitos. “A mestiçagem existiu como uma prática colonial, cheia de tensões, violências, mas também de acomodações e adequações aos projetos políticos de cada época”, escrevem Mary Del Priore e Gian Melo, que é também líder do Núcleo de Estudos Sociedade e Escravidão na Época Moderna (NESEM/CNPq), na apresentação do volume.
A historiadora faz questão de ressaltar que trazer a miscigenação para o debate não significa mascarar o preconceito estrutural da sociedade: “O livro quer mostrar que a miscigenação não cala o racismo”. Ela pontua, contudo, que a experiência histórica do mestiço não pode ser reduzida unicamente ao trauma: “É preciso desmistificar a ideia de que toda mestiçagem é fruto exclusivo de estupro. Embora a violência sexual tenha sido uma realidade inegável na Colônia, também existiram encontros, trocas afetuosas, alianças e uma cultura mestiça própria que faz parte de um todo”.
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Ancorados em pesquisas de arquivo realizadas no Brasil e no exterior, os ensaios abordam a presença da Igreja na sociedade colonial, as dinâmicas de formação das famílias, a atuação de militares mestiços e a forte influência das línguas africanas e indígenas no português brasileiro e na culinária nacional. Com contribuições de especialistas como Serge Gruzinski, Yeda Pessoa de Castro, Eduardo França Paiva e Hendrik Kraay, a publicação demonstra que o fenômeno transcende a biologia e se estabelece como linguagem, síntese e resistência cultural.
“Desde sempre os negros foram um número minoritário no total demográfico brasileiro; o grosso da população é mestiço, é pardo. O livro vem para dar luz a essa história, a essa gente que foi silenciada. É a oportunidade de falarmos abertamente sobre a complexidade desse problema”, conclui Mary Del Priore.