Reportagem

‘Anjo de luz’, ‘irmãozão’, Mônaco e terreno: as mensagens de Vorcaro com Alcolumbre e Motta

Diálogos extraídos do celular do dono do Master mostram tratamento afetuoso com os presidentes do Senado e da Câmara

por Bianca Marcondes
29/09/2026 às 09:42 · Atualizado há 2 semanas
Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e Hugo Motta, presidente da Câmara: relação íntima com Vorcaro (Lula Marques/Agência Brasil)
Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e Hugo Motta, presidente da Câmara (Lula Marques/Agência Brasil)

Mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, revelam a proximidade do empresário com os dois principais nomes do Congresso: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). 

Os diálogos do ex-banqueiro com o presidente do Senado, revelados pela revista Veja, mostram que a relação entre os dois vem de pelo menos outubro de 2023, segundo a coluna de Lauro Jardim, em O Globo. As primeiras mensagens identificadas pela Polícia Federal são do dia 26 daquele mês.

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A felicitação de Vorcaro pela a eleição de Alcolumbre à presidência do Senado, enviada em 1º de fevereiro de 2025, está entre as trocas mais antigas divulgadas. O ex-banqueiro o chamou de amigo e desejou sucesso na “empreitada” e em seus “melhores anos”. O senador respondeu com “Fala meu amor!” e agradeceu pelo carinho e “amizade fraterna”. 

Vorcaro e Alcolumbre: irmãos ‘para a vida toda’

O tom de intimidade se repete em conversa do fim de março do mesmo ano, na qual Alcolumbre diz ser irmão do banqueiro “pra vida toda”. Vorcaro retribui o gesto, promete estar à disposição “a qualquer tempo” e envia cinco emojis de coração. 

Já em 30 de março de 2025, Vorcaro agradeceu ao senador pelo “carinho e apoio” e o chamou de “anjo de luz” em sua vida. Os registros também apontam ao menos oito chamadas de voz pelo WhatsApp entre os dois, feitas de abril de 2024 a setembro de 2025. 

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Um pedido de notícias sobre um “amigo” não identificado aparece em mensagem de 17 de julho de 2025, na qual Vorcaro procura Alcolumbre. O senador responde que está “em cima” do assunto, mas não há referência a quem seria essa pessoa.

Master
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, hoje preso em Brasília, quando atuava no Banco Master (Divulgação)

Mônaco e ‘sociedade’ em conversas com Motta

As conversas de Motta com o ex-banqueiro, divulgadas pelo site Fatos Online, começaram em 9 de março de 2024, quando o deputado ainda era líder do Republicanos. 

Uma mensagem sobre Mônaco, de 23 de maio de 2025, revela intimidade entre os dois. Vorcaro disse estar em São Paulo e que, no fim de semana, iria a Belo Horizonte, mas que “queria mesmo estar em Mônaco” com Motta. Os dois fizeram, em seguida, uma chamada de quase oito minutos. Vorcaro enviou então o contato de um motorista e perguntou se o deputado preferia ter alguém para servir na casa ou ninguém. Motta agradeceu chamando-o de “irmaozão”, mas também não há referência sobre de quem se trata. 

Entre as trocas, há pedidos feitos por Motta. Em 3 de março de 2025, o deputado perguntou se o banqueiro conseguia quatro entradas no camarote para o desfile das campeãs do Carnaval do Rio de Janeiro. Vorcaro respondeu que arranjaria quantas ele quisesse e pediu os dados dos convidados. 

Leia mais: Motta informa patrimônio de R$ 1,2 milhão, com R$ 250 mil em dinheiro vivo

Os encontros entre os dois se estenderam por 2025, ano em que Vorcaro foi preso pela primeira vez, na Operação Compliance Zero. Em março, Motta encaminhou ao banqueiro a mensagem de um suposto repórter que perguntava sobre a tentativa de compra do Master pelo Banco BRB. Em julho, Vorcaro tomou café da manhã na casa do deputado. Em agosto, Motta o convidou para “a casa de Davi”, possível referência a Alcolumbre. 

Terreno em João Pessoa, FGC e outros temas

O principal negócio tratado nas mensagens é a compra de um terreno em João Pessoa,  em nome da cunhada do deputado, Bianca Medeiros. Em março de 2024, Motta disse a Vorcaro que a cunhada não sabia do “formato de sociedade” combinado e pediu orientação, pois o prazo para pagar a Intercement era curto. Dias depois, o deputado agradeceu pela “confiança e parceria”, e o banqueiro falou em “parceria de vida”. A cunhada obteve do Master um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões, e a área, cujo espaço é quase o triplo do parque Ibirapuera, em São Paulo, custou R$ 45 milhões, com valor fiscal de R$ 101 milhões.

Outros temas aparecem nas conversas. Em novembro de 2024, Motta enviou ao banqueiro informações sobre o projeto de lei do mercado de carbono aprovado pelo Senado. Também pediu um estudo sobre o Fundo Garantidor de Créditos e recebeu a oferta de uma aeronave. Em uma mensagem de aniversário, Vorcaro o chamou de “guerreiro” e “amigo irmão”.

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Uma conversa de 17 de julho de 2025 liga os três políticos: Com o Banco Central analisando a compra do Master pelo BRB, Vorcaro disse a Motta que havia perguntado a Alcolumbre sobre o assunto, mas que ele também não sabia sobre detalhes da análise. Motta respondeu que o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, iria à casa do senador após uma reunião. O Banco Central afirmou à CNN Brasil que esse encontro não aconteceu.

Nota de Motta e Alcolumbre

Em nota, Motta afirmou que, em seu quarto mandato, ele sempre dialogou com diversos segmentos empresariais e que não há ilícito nas conversas publicadas. Diz ainda que o empréstimo foi contratado quando não se conheciam as investigações sobre o Master e que o deputado confia nos órgãos responsáveis pelas apurações. 

“Enfatizo que não há nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados e repudio a tentativa de atribuir conversas descontextualizadas a qualquer relação de interesse espúrio ou de favorecimento por minha parte. Tenho uma vida limpa, assim como é limpa a minha atuação política nesses 15 anos de vida pública”, diz Motta. 

A assessoria da Presidência do Senado classificou as mensagens como de “teor pessoal”, que “não indicam ilegalidade alguma”, e anunciou medidas judiciais. Na nota, Alcolumbre falou em “falsas acusações” e em “injusto ataque” da Veja, além de destacar que tomará medidas judiciais.

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