Entrevista

Menopausa fora do armário: Silvia Ruiz debate etarismo e machismo em novo livro para 45+

Em entrevista, a jornalista detalha novo livro sobre menopausa e defende a liberdade, o prazer e a quebra de tabus na maturidade feminina

por Luiza Barufi
02/06/2026 às 14:34 · Atualizado há 4 meses
Foto: Divulgação

Quando tinha 47 anos, a jornalista Silvia Ruiz acreditou que estava enlouquecendo. Insônia, lapsos de memória, dificuldade de concentração e mudanças bruscas de humor surgiram justamente no momento mais estável de sua vida. Após uma peregrinação em busca de respostas, veio o diagnóstico: perimenopausa, a fase de transição que antecede a menopausa.

O alívio por entender o próprio corpo logo deu lugar à indignação pelo silêncio ensurdecedor que cerca o tema.

“Tive uma sensação de alívio — afinal, era somente uma causa normal, não uma demência, como cheguei a cogitar. Mas, ao mesmo tempo, foi uma revolta. Durante anos fiz reportagens de saúde, e esse assunto simplesmente nunca tinha sido tratado por mim, nem por ninguém na mídia”, conta a autora em entrevista ao Amado Mundo.

Decidida a quebrar esse tabu, ela transformou sua experiência pessoal em uma profunda investigação jornalística. O resultado é “Menopausa sem censura” (Companhia das Letras), livro que rompe estigmas, combate a desinformação e enfrenta um preconceito ainda pouco debatido: o etarismo.

O impacto em números: o silêncio no mercado e na saúde

A urgência da obra se reflete nas estatísticas brasileiras. Segundo dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), cerca de 17 milhões de mulheres no país estão na transição para a menopausa (entre 40 e 65 anos), e outras 9,2 milhões já se encontram na pós-menopausa (50-65 anos). Em média, os primeiros sinais desse ciclo — conhecido tecnicamente como climatério — surgem por volta dos 46 anos, culminando na interrupção definitiva da menstruação por volta dos 48 anos.

Embora seja um processo biológico natural que impacta diretamente a saúde física, mental e social de milhões de brasileiras, a transição ainda é vivida sob a sombra do isolamento. E o reflexo disso transborda para a vida profissional: pesquisas apontam que 80% das brasileiras na menopausa sentem que não recebem apoio no ambiente de trabalho, enquanto 49% afirmam enfrentar barreiras reais na progressão de carreira e no reconhecimento profissional ao atravessarem essa fase.

O que esperar do livro “Menopausa sem censura”?

No prefácio da obra, a jornalista Sandra Annenberg pontua como esse cenário expõe as engrenagens do preconceito etário: “Silvia Ruiz foi uma das primeiras a falar sobre menopausa e sobre um preconceito que ainda precisa ser vencido, o etarismo. E esse, ao contrário de tantos outros, atinge todos, sem exceção.”

Cruzando relatos reais de mulheres com evidências científicas obtidas em entrevistas com especialistas nacionais e internacionais, Silvia apresenta seis pilares essenciais para que o envelhecer feminino seja sinônimo de saúde, equilíbrio, bom humor e, acima de tudo, autonomia.

Confira a entrevista com Silvia Ruiz:

Para uma jornalista acostumada a investigar a realidade, como foi o processo de perceber que a própria identidade e saúde estavam sendo silenciadas pela falta de informação pública? Em que momento a sua perplexidade individual se transformou na urgência coletiva de escrever o livro?

Ao receber o diagnóstico de perimenopausa, tive ao mesmo tempo uma sensação de alívio e indignação. Me dei conta de que por trás disso estava o etarismo. Menopausa era um tema sobre o qual ninguém queria falar abertamente. Isso me deu um impulso para agir e mudar esse cenário. Eu costumo dizer que decidi tirar a menopausa do armário.

Por que você acredita que a menopausa ainda é tratada quase como um “segredo de estado” na nossa sociedade? A quem interessa manter as mulheres desinformadas e invisíveis no auge de sua maturidade produtiva e intelectual?

O etarismo e o machismo costumam andar de mãos dadas. Os homens têm muito mais permissão social para envelhecer do que as mulheres. A menopausa sempre significou uma transição para uma fase pós-45/50 anos em que deixamos de ter o padrão de juventude exigido pela sociedade. Por isso, as mulheres preferiam viver isso em silêncio, quase que com vergonha de assumir a maturidade e, consequentemente, o selo de “prazo de validade vencido” que nos é imposto. A minha geração começou a dar um basta nisso.

Muitas vezes, a sociedade associa o fim da idade fértil ao fim da vivência do prazer, do desejo e do próprio corpo. Como a sua obra ressignifica a sexualidade e o bem-estar físico da mulher 45+?

A questão da sexualidade e do prazer feminino vem sendo discutida de maneira mais aberta apenas recentemente. No imaginário coletivo, envelhecer significava o término da vida sexual para a mulher. A gente se acostumou a ver homens deixando casamentos na meia-idade para se unirem a mulheres de 30 anos, mas quase nunca o contrário. O que estamos ressignificando é o papel da mulher com mais de 45 anos. Nós queremos viver mais, mas também queremos viver bem. E isso inclui continuar trabalhando, se divertindo e sentindo prazer.

Diante de um mercado que muitas vezes oscila entre a medicalização excessiva da menopausa e as promessas milagrosas de “jovialidade eterna”, como foi o seu filtro jornalístico para equilibrar a ciência rigorosa com uma linguagem que acolhe em vez de assustar?

Acho que o equilíbrio vem de assumir e externar as nossas vulnerabilidades e dores. Não é fácil virar uma chave e eliminar o etarismo que está enraizado dentro da gente de um dia para o outro; é um processo e é importante falar sobre ele. Ao mesmo tempo, como jornalista, minha obrigação é ouvir a ciência, as sociedades médicas e os especialistas sérios que jogam luz sobre o que realmente há de eficaz para tratar os sintomas e trazer bem-estar. Meu exercício nesse livro foi combater o estigma e a desinformação de forma conjunta.

De que maneira a produção deste livro e a imersão nesse ecossistema de mulheres 45+ transformaram o seu próprio fazer jornalístico? 

Falar sobre esse tema me fez ser, simultaneamente, a jornalista e a personagem do conteúdo. Pela primeira vez me coloquei dentro das minhas reportagens, trazendo depoimentos pessoais sobre as questões abordadas e compartilhando minhas próprias vivências. Foi um exercício totalmente novo para mim. Com certeza, nos últimos anos, o assunto ganhou visibilidade. A mídia acordou para essa realidade e hoje faz uma cobertura muito mais consistente.

A solidão é um dos sentimentos mais relatados por mulheres na perimenopausa, justamente pelo silêncio em torno dos sintomas. Durante as suas entrevistas para o livro, qual foi o impacto de ouvir outras histórias?

Ouvir outras mulheres nos dá a clareza de que não estamos sozinhas. Foi impressionante perceber o quanto as nossas experiências são semelhantes: quase todas começam com muitas dúvidas, sem entender o que está acontecendo com o próprio corpo, seguidas por uma verdadeira peregrinação por consultórios até conseguir um diagnóstico preciso. Dividir a mesma jornada traz alívio e alimenta o desejo de falar cada vez mais abertamente sobre o que sentimos.

O que significa o “poder feminino” aos 40, 50 anos ou mais? Que tipo de liberdade a menopausa — quando vivida sem censura — pode inaugurar na vida de uma mulher?

Ao mesmo tempo em que traz desafios físicos e emocionais, gosto de encarar a menopausa como uma “pausa poderosa” para fazermos um balanço da vida. É a hora exata de deixar para trás os pesos que não fazem mais sentido carregar. É muito comum ver mulheres nessa fase repensando carreiras, relações, amizades e a própria relação com o corpo. Eu sinto que a gente se liberta de uma série de regras sociais e ganha autonomia. Esse é o grande valor da maturidade: a liberdade.

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