Mais que futebol: relembre homenagens a perdas do esporte antes de Diogo Jota e Portugal
De Diogo Jota a Maradona, o luto sempre encontrou um jeito de entrar em campo, mesmo quando o apito inicial teima em dizer para que se siga em frente

Quando Portugal entrar em campo contra a Croácia nesta quinta-feira (2/7), às 20h, no horário de Brasília, pela fase de 16-avos da Copa do Mundo, já será meia-noite em Lisboa. O relógio, ali, já terá virado a página do calendário: será 3 de julho — exatamente um ano desde que Diogo Jota e o irmão, André Silva, morreram em um acidente de carro em Zamora, na Espanha. O atacante, de 28 anos, havia se casado com Rute Cardoso, mãe de seus três filhos, apenas 11 dias antes.
Desde a estreia do torneio, a seleção portuguesa vem carregando essa data como um fio condutor silencioso. Os pais de Jota, Isabel e Joaquim Silva, foram convidados de honra da Federação Portuguesa de Futebol para acompanhar o primeiro jogo, contra a República Democrática do Congo, em Houston — e enxugaram as lágrimas nas arquibancadas quando a imagem do filho apareceu no telão, em preto e branco, logo após o hino.
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Rúben Neves, amigo próximo do atacante, passou a vestir a camisa 21, número que Jota usava. Jogadores receberam pulseiras com o nome do companheiro, presente do primeiro-ministro português, Luís Montenegro, e boa parte do elenco aderiu. O técnico Roberto Martínez chegou a nomear Jota “membro honorário” da seleção e definiu o confronto desta quinta como o “Jogo do Diogo Jota”. A seleção portuguesa, inclusive, se refere ao time como 27+1, em referência aos 27 convocados (Portugal levou um goleiro extra, que só pode ser inscrito se algum dos goleiros levados se machucar) e a Diogo.
@rubendsneves_ 🔗 Diogo Jota 🤍 pic.twitter.com/d3HwJTwYIw
— Portugal (@selecaoportugal) September 2, 2025
“Acho que precisamos homenagear o Diogo Jota. É um momento para valorizar que tudo o que começamos nessa equipe começou com ele. Ganhamos a Liga das Nações com ele. Ele é provavelmente o símbolo e a luz, o maior estímulo que temos”, disse o treinador em coletiva.
Segundo o jornal português “A Bola”, o elenco fechou um “pacto de honra” pela vitória como forma de tributo. “Cada corrida, cada dividida e cada gol” carregando, segundo a publicação, “a urgência de uma homenagem sincera”. O volante Vitinha resumiu o sentimento do grupo, em entrevista na véspera da partida.
“Temos toda a motivação: pelas nossas famílias, pelo Diogo Jota, por todo o país, por todo Portugal.”
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Jota marcou 14 gols em 49 partidas pela seleção e, depois de perder a Copa de 2022 por uma lesão na panturrilha sofrida em outubro daquele ano (um lance que o técnico Jürgen Klopp, então no Liverpool, temeu que fosse grave assim que aconteceu), era dado como presença quase certa no elenco que disputa o Mundial nesta edição.
𝗡𝗮𝗱𝗮 𝗡𝗼𝘀 𝗣𝗼𝗱𝗲 𝗦𝗲𝗽𝗮𝗿𝗮𝗿. Por ti, Diogo Jota 🤍 pic.twitter.com/Qy56zijvNP
— Portugal (@selecaoportugal) September 2, 2025
O luto de Diogo Jota atravessa fronteiras
Andy Robertson, capitão da Escócia e ex-companheiro de Jota no Liverpool, revelou que pensou imediatamente no amigo no momento em que a seleção escocesa garantiu, em novembro, sua primeira classificação para uma Copa do Mundo em 28 anos.
“Consegui disfarçar bem, mas hoje fiquei arrasado. Sei a minha idade, essa pode ser minha última chance de disputar uma Copa do Mundo, e não consegui tirar meu amigo Diogo Jota da cabeça”, contou à BBC. “Conversamos muito sobre a Copa do Mundo. Ele perdeu a do Catar porque estava machucado, eu perdi porque a Escócia não foi. Sempre discutíamos como seria ir ao Mundial de 2026.”
Às vésperas do torneio, Robertson recebeu uma carta de Rute Cardoso, parte da campanha “Letters That Unite”, promovida pela Fifa.
“Diogo falava frequentemente sobre você, sobre a amizade que construíram, as batalhas que enfrentaram juntos, os desafios, as risadas e as conversas sobre futebol e sonhos”, escreveu a viúva. “Ao viver esse momento e garantir seu lugar na Copa do Mundo, você não estará indo sozinho; estará levando o sonho dele com você.”
Robertson respondeu à altura: “Não estarei jogando apenas por mim. Estarei jogando por nós dois”. O Liverpool, clube de Jota, aposentou a camisa 20 em sua homenagem.
Diogo Jota's wife, Rute Cardoso, has written a letter to Scotland captain Andy Robertson ahead of the World Cup.
— Ben Jacobs (@JacobsBen) June 8, 2026
She thanks Robertson for his friendship, and for preserving Diogo's memory. Robertson adds he'll have Jota at the forefront of his mind.🙏 pic.twitter.com/h5KsfPyCCx
Não é a primeira vez que uma Copa do Mundo carrega o peso de uma ausência assim. O futebol, esporte que se organiza em torno de rituais coletivos – hinos, minutos de silêncio, faixas pretas –, tem uma longa e desconfortável relação com o luto. Às vezes, a homenagem acontece dentro do próprio torneio, como agora. Outras vezes, ela chega tarde demais, quando o Mundial já passou e o jogador que deveria estar em campo já não está com o time.
O fenômeno que morreu antes do auge
Em 6 de fevereiro de 1958, o avião que trazia o Manchester United de volta de Belgrado, após uma partida da Copa dos Campeões (nome anterior da Liga dos Campeões), tentou decolar três vezes em uma pista coberta de neve, em Munique. Na terceira tentativa, caiu. Sete jogadores morreram na hora.
Entre os sobreviventes iniciais estava Duncan Edwards, meio-campista de 21 anos considerado, à época, o futuro melhor jogador do mundo — e uma peça certa da seleção inglesa que disputaria a Copa do Mundo daquele mesmo ano, na Suécia. Ele resistiu por 15 dias no hospital. Ainda sedado, chegou a perguntar ao auxiliar técnico Jimmy Murphy a que horas começaria o próximo jogo contra o Wolves.
Não resistiu: morreu em 21 de fevereiro, quatro meses antes do início do Mundial. A Inglaterra chegou à Suécia enfraquecida, precisando recorrer a veteranos que já haviam disputado a Copa de 1950 para tentar preencher o vazio deixado por Edwards e mais dois titulares mortos em Munique, Tommy Taylor e Roger Byrne. Não havia, na época, a linguagem simbólica que conhecemos hoje — nada de faixas no braço ou imagens no telão. O luto apareceu do único jeito que podia: na escalação improvisada, no time que nunca chegou a ser o que poderia ter sido.
❤️ #OTD in 1936, United legend Duncan Edwards was born. pic.twitter.com/CZDFOJO4wR
— Manchester United (@ManUtd) October 1, 2025
A ausência que formou um titular
Mais de cinco décadas depois, a Alemanha viveria sua própria versão da mesma tragédia, dessa vez sem acidente aéreo, mas com um desfecho igualmente definitivo. Robert Enke, goleiro do Hannover 96, era o favorito para defender o gol da seleção alemã na Copa do Mundo de 2010. O jogador enfrentava depressão havia anos, um sofrimento agravado pela morte da filha Lara, em 2006, por complicações de uma doença cardíaca congênita, e escondia isso quase completamente dos colegas de time. Em 10 de novembro de 2009, tirou a própria vida.
A seleção alemã reagiu de forma imediata: cancelou o amistoso que disputaria dias depois contra o Chile e, quando voltou a campo contra a Costa do Marfim uma semana depois, os jogadores entraram com faixas pretas no braço e a camisa de Enke foi colocada no banco de reservas, com um vídeo da carreira do goleiro exibido no telão do estádio.
Quando o luto vira combustível
No Catar, em 2022, a Argentina jogou a primeira edição do torneio depois da morte de Diego Maradona, ocorrida em novembro de 2020, sob a lembrança do gênio. O rosto do Pibe de Oro esteve em praticamente todos os cantos do país-sede: camisas, bandeiras, tatuagens.
Nas arquibancadas, os torcedores cantavam pedindo que ele os iluminasse do céu. Depois de vencer o México na segunda rodada da fase de grupos, os próprios jogadores argentinos cantaram, ainda no vestiário, a música que os torcedores haviam criado em homenagem ao ídolo. A campanha até o título, seis semanas depois, foi lida por boa parte da Argentina como uma dedicatória coletiva.
Essa mesma lógica volta a se repetir agora, em escala institucional. A cerimônia de abertura da Copa de 2026, no Estádio Azteca, reservou um segmento dedicado a Maradona e a Pelé, que morreu em dezembro de 2022. O gesto relembrou as campanhas de Brasil (1970) e Argentina (1986), ambas decididas justamente naquele estádio. Não é mais uma seleção prestando contas a um jogador seu: é a própria Fifa organizando o luto, décadas depois.
#DiegoEterno ♾️
— 🇦🇷 Selección Argentina ⭐⭐⭐ (@Argentina) November 25, 2025
Solo muere quien es olvidado y a vos, Diego, te recordamos cada día 🩵🤍
🙌 A 5 años del paso a la inmortalidad de Diego Armando #Maradona 🔟 pic.twitter.com/tr1OFaLp8f
O gol contra que virou sentença
Nem toda história de luto no futebol nasce de um acidente ou de uma doença silenciosa. Em 1994, durante a própria Copa do Mundo nos Estados Unidos, o zagueiro colombiano Andrés Escobar marcou um gol contra na derrota de 2 a 1 para o país-sede que foi decisiva na eliminação da Colômbia ainda na fase de grupos. Dias depois, em 2 de julho, com o Mundial ainda em andamento, Escobar foi assassinado em Medellín, crime que a investigação relacionou à repercussão daquele lance. Não houve homenagem em campo, porque não havia mais jogo a se jogar. O luto veio depois, em estátuas erguidas na cidade natal do zagueiro.
Uma forma de amor que ainda está sendo escrita
Colocados lado a lado, esses episódios desenham uma linha do tempo silenciosa: da ausência sem rito, em 1958, até o luto institucionalizado de 2022 e 2026. O que Portugal faz agora por Diogo Jota é parte de um vocabulário que o futebol só aprendeu a falar com fluência nas últimas duas décadas. Talvez seja por isso que a data de hoje pese tanto.
Não é só um aniversário de morte coincidindo com uma oitava de final. É a certeza, compartilhada por uma seleção inteira e por amigos espalhados em outras seleções, de que ainda dá tempo de fazer diferente — de levar quem se foi para dentro de campo, e não apenas guardá-lo na lembrança.