Lula chama Flávio de traidor por articular adiamento do tarifaço para depois das eleições
Documento enviado pelo senador aos EUA pede suspensão da aplicação da tarifa de 25% e negociação bilateral; Lula reagiu nas redes: "traição e entreguismo"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu nesta quinta-feira (2/7) a um documento protocolado por Flávio Bolsonaro junto ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), em que pede, ao menos até as eleições, a suspensão de tarifas adicionais de 25% sobre o comércio brasileiro. O petista criticou o senador e classificou a manifestação como um ato de “entreguismo”, além de chamar a família Bolsonaro de “traidores da Pátria”.
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Lula acusa Flávio de pedir que o tarifaço contra o país seja apenas adiado para depois das eleições. O senador formalmente solicitou a “suspensão” da ação proposta pelo USTR e argumentou que “o cenário político que determinará a viabilidade de qualquer solução negociada será redefinido dentro de aproximadamente noventa dias”, citando as eleições de outubro.
“Os Estados Unidos têm um interesse bem estabelecido em não tomar uma ação econômica de grande porte contra uma democracia estrangeira nas semanas que antecedem uma eleição nacional disputada”, escreveu Flávio no documento. “Adiar a implementação até depois da votação afasta essa caracterização.”
Em publicação nas redes sociais, Lula foi duro: “É inaceitável que a família Bolsonaro, com seu entreguismo, queira submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos”, escreveu, e seguiu afirmando que “nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois”. O presidente também acusou o senador de querer “entregar o Pix a interesses estrangeiros” e de defender “o fim do Mercosul”.
“O mais absurdo é saber que a origem disso tudo foi motivada pela própria família Bolsonaro que defendeu publicamente o aumento de tarifas contra os produtos brasileiros”, escreveu Lula.
É inaceitável que a família Bolsonaro, com o seu entreguismo, queira submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos, como fica claro no documento enviado hoje por um de seus integrantes ao governo norte-americano.
— Lula (@LulaOficial) July 2, 2026
Nós sempre vamos dialogar de igual pra igual com qualquer…
O documento criticado por Lula
A manifestação de Flávio Bolsonaro foi apresentada no âmbito da investigação aberta pelo governo americano contra práticas comerciais brasileiras — processo que pode resultar na aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos do país. O senador havia pedido, na semana passada, para participar da audiência pública marcada para 6 de julho em Washington. O Itamaraty também criticou em suas redes sociais oficiais o pedido de Flávio Bolsonaro.
Veja a íntegra do documento enviado por Flávio Bolsonaro aos EUA:
No texto, Flávio faz dois pedidos centrais: que o USTR suspenda as tarifas proposta; e que abra imediatamente um mecanismo de negociação bilateral cobrindo as seis áreas apontadas pela investigação americana – comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
O documento defende que a tarifa, do jeito que está proposta, daria a Lula uma vitória política.
“As tarifas propostas dariam ao atual governo brasileiro exatamente a vitória política que ele vem buscando, ao mesmo tempo em que puniriam a economia americana e os próprios brasileiros que defendem uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos”, escreveu Flávio
Lula cita entrega do Pix e indicação de fim do Mercosul
Flávio define o Pix como uma infraestrutura pública soberana, e não uma empresa comercial concorrente. O USTR acusa a tecnologia de prejudicar as empresas estadunidenses que prestam serviços de pagamento eletrônico, como Mastercard, Visa e o WhatsApp Pay. No documento, o senador do PL garante que o Pix não será interconectado com países “não ocidentais” – a referência à China é inequívoca. Trump já disse que os EUA não ficarão parados diante da ideia de outros países tentarem substituir o dólar, citando os Brics naquela ocasião.
Já sobre o Mercosul, o texto defende que o Brasil busque formas de se “libertar das amarras do Mercosul”, que teriam impedido governos anteriores de negociar diretamente com os Estados Unidos. Ele cita o caminho seguido pela Argentina de Javier Milei como uma formulação mais próxima de flexibilização das regras do bloco do que de sua extinção. Na prática, Milei tem tentado deixar o bloco completamente de lado.
O documento afirma que o governo Trump erra com essaa política tarifária: argumenta que a taxa de 25% “erra o alvo” nomeado pelo próprio presidente americano — a conduta do governo brasileiro e do Judiciário —, defende que instrumentos mais precisos (como sanções individuais e vistos) seriam mais eficazes que uma tarifa geral, e pede formalmente a suspensão da medida, não sua aplicação.
Sanções individuais já foram aplicadas pelo governo Trump a autoridades brasileiras. Ministros do STF foram alvos da Lei Magnitsky, que impôs punições econômicas. Os EUA também revogaram vistos de ministros e outros membros do governo Lula no ano passado.
Flávio Bolsonaro também defendeu, no documento, a eliminação de tarifas para o etanol e a redução da carga tributária de empresas de cartão de crédito, como medidas para negociar o fim das sobretaxas.