Paulo Abrão
Tentando explicar o Brasil para o mundo: relações internacionais, política, direitos humanos, democracia e meio ambiente
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Análise

Lula e Trump levam à ONU duas visões de mundo

Em discursos consecutivos na ONU, presidentes do Brasil e dos Estados Unidos expõem concepções radicalmente distintas sobre soberania e limites do poder

22/09/2026 às 21:59 · Atualizado há 3 semanas
Lula e Trump em lados opostos (Crédito: Montagem a partir de fotos de Angela Weiss/AFP e Mandel Ngan/AFP)

Às vezes, o protocolo produz uma metáfora perfeita. Em pouco mais de uma hora, Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump ocuparam sucessivamente a mesma tribuna da Organização das Nações Unidas (ONU) e apresentaram duas concepções radicalmente distintas sobre como o mundo deve ser organizado, como o poder deve ser exercido e quais limites a soberania de um país impõe à força de outro.

Não foi propriamente um duelo. Lula não mencionou Trump pelo nome e Trump tampouco organizou seu discurso como uma resposta ao presidente brasileiro. O que ocorreu foi, talvez, mais revelador: diante da mesma Assembleia, os dois partiram de um diagnóstico semelhante, de que a ordem internacional atravessa uma crise profunda, para oferecer respostas quase opostas sobre como enfrentá-la.

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Lula resumiu sua visão numa frase que atravessou todo o discurso: “Não desconheço as realidades do poder. Mas as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites”. E acrescentou: “Isso não é idealismo. É o mais puro realismo”. Para o presidente brasileiro, o mundo está sendo chamado a escolher entre “multilateralismo ou unilateralismo; democracia ou extremismo; soberania ou subordinação”.

Trump apresentou outra resposta. Seu discurso começou pela celebração da expansão do poder americano , seja econômico, militar, energético ou tecnológico, e prosseguiu com uma extensa exposição dos resultados que atribui precisamente à capacidade dos Estados Unidos de usar esse poder. “Enquanto outros falaram de paz, eu fiz a paz”, afirmou, acrescentando que, enquanto outros prometeram força, ele a utilizou. Tarifas, sanções, superioridade militar, poder energético e relações pessoais apareceram não como problemas da ordem internacional, mas como instrumentos legítimos para produzir resultados.

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A diferença não significa que Lula ignore as relações de poder nem que Trump rejeite a paz ou a negociação. Ambos falaram em soberania e ambos criticaram uma ONU incapaz de responder às crises atuais. A divergência está na resposta que oferecem ao problema. Lula propõe reconstruir regras e instituições capazes de limitar inclusive os mais poderosos. Trump aposta mais explicitamente na capacidade do poder nacional americano de produzir ordem.

Em nenhuma região esse contraste apareceu com tanta nitidez quanto aos exemplos utilizados por ambos sobre a realidade nas Américas. Lula afirmou que a proximidade da América Latina e do Caribe com “a maior potência militar do mundo é inescapável”, especialmente diante do “recrudescimento de tentações hegemônicas”. E pronunciou uma das frases mais fortes de seu discurso: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

A referência aos Estados Unidos não precisava ser nominal. Logo depois, Lula advertiu que “a democracia está novamente em xeque”, condenou a volta da “ingerência externa em processos eleitorais” e classificou como anacrônicas “a divisão do mundo em zonas de influência e as investidas neocoloniais por recursos estratégicos”. Afirmou ainda que “o povo venezuelano merece definir o próprio destino”.

Pouco depois, Trump apresentou uma concepção hemisférica muito diferente. Celebrou a ação militar americana na Venezuela, vinculou a nova relação com o país às suas enormes reservas petrolíferas e afirmou que as ações dos Estados Unidos demonstravam que Washington não permitiria ameaças aos interesses americanos em nenhuma parte do Hemisfério Ocidental. Falou ainda em Cuba, México, cartéis, Groenlândia e expansão da presença militar americana como partes de uma estratégia de reafirmação do poder dos Estados Unidos. A agência Reuters destacou precisamente essa promessa de reafirmar o poder americano no hemisfério e empregar, quando considerado necessário, sua superioridade militar contra os cartéis.

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Essa visão já começa a adquirir uma arquitetura institucional própria. O Escudo das Américas, lançado por Trump em março, nasceu como uma coalizão de governos da região para coordenar o enfrentamento aos cartéis e ao crime transnacional, compartilhando inteligência e ampliando a cooperação em segurança. Desde sua criação, porém, a iniciativa também foi apresentada no contexto da disputa dos Estados Unidos com a China pela influência no hemisfério. Brasil e México permaneceram fora.

A propósito, enquanto a Assembleia Geral discutia o futuro da ordem internacional, representantes do Escudo das Américas reuniam-se em Nova York com o secretário de Estado, Marco Rubio, para aprofundar essa articulação regional. De um lado, portanto, Lula recupera uma tradição brasileira de integração e concertação política latino-americana, construída em diferentes momentos por meio do Mercosul, da Unasul e da Celac. De outro, Trump impulsiona uma coalizão seletiva estruturada sobretudo em torno da agenda de segurança dos Estados Unidos. Não são instituições equivalentes, mas expressam concepções diferentes sobre como organizar politicamente a região.

É difícil imaginar contraste mais explícito. De um lado, rejeição a zonas de influência e ao direito das grandes potências de determinar o destino de seus vizinhos. De outro, uma concepção na qual a segurança do Hemisfério Ocidental é apresentada primordialmente a partir dos interesses estratégicos e da capacidade de intervenção dos Estados Unidos.

Contrastes na ONU

A diferença também apareceu no enfrentamento ao crime organizado. Lula reconheceu a gravidade do problema e defendeu cooperação policial, combate à lavagem de dinheiro e integração entre os nove países amazônicos. Mas estabeleceu um limite: “não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras”. E resumiu: “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime.” Trump, em contraste, comparou os cartéis ao Estado Islâmico, defendeu tratá-los como inimigos militares e reivindicou ataques das Forças Armadas americanas contra embarcações ligadas ao narcotráfico.

A mesma oposição atravessou as instituições internacionais. Lula fez uma crítica devastadora à ONU. Disse que sua credibilidade nunca esteve tão baixa, denunciou o “privilégio da insensatez” concedido às grandes potências pelo veto no Conselho de Segurança e afirmou que a organização está falhando em sua missão fundamental de evitar a guerra. Mas a sua crítica pretende reformar e recuperar o multilateralismo.

Trump também criticou as instituições multilaterais, mas celebrou a redução do orçamento e da burocracia da ONU, rejeitou aquilo que classificou como agenda de burocratas globalistas e declarou que “não existe governo global”. Foi ainda mais longe em relação ao Tribunal Penal Internacional: pediu aos países integrantes que abandonassem a instituição. Lula, minutos antes, havia sustentado exatamente o contrário: perseguir o TPI e seus integrantes, afirmou, estimula a impunidade.

Até os novos desafios globais foram enquadrados por lentes diferentes. Lula chamou de “omissão histórica imperdoável” não regulamentar as Big Techs e a inteligência artificial e acusou “tecno-oligarcas” de promover uma corrida tecnológica “sem freios éticos”. Trump rejeitou mecanismos globais de controle da inteligência artificial, rebatizou-a como “super intelligence” e apresentou a disputa tecnológica sobretudo como uma competição que os Estados Unidos precisam vencer.

No clima, a distância foi semelhante. Lula pediu uma nova ofensiva internacional para “impor uma derrota ao negacionismo”, ao mesmo tempo em que defendeu a exploração brasileira de petróleo, minerais críticos e terras raras sob condições que produzam desenvolvimento, transferência tecnológica e benefícios internos. Trump voltou a ridicularizar os alertas sobre mudança climática e apresentou a abundância energética americana como componente do poder nacional.

Talvez a divergência mais profunda esteja, porém, na relação entre força e paz. Lula rejeitou uma das máximas mais antigas da política internacional: “A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política.” Para ele, “a diplomacia é a única opção” diante da guerra entre Rússia e Ucrânia. Trump reivindicou também o papel de pacificador, enumerando conflitos que afirma ter encerrado, mas atribuiu seus resultados ao uso combinado de relações pessoais, tarifas, ameaça econômica e superioridade militar. São, portanto, não apenas duas políticas externas, mas duas concepções sobre como a paz pode ser produzida.

Para o Brasil, entretanto, a parte mais importante veio no final. Lula transformou sua reflexão sobre a ordem internacional numa mensagem sobre as próximas eleições de 4 de outubro no país. Prometeu um pleito “transparente e competitivo”, advertiu contra redes de desinformação e interesses estrangeiros e declarou que não permitirá que “os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”. Concluiu: “A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano.”

Na véspera, Lula havia chamado Trump de “imperador” ao explicar que nenhum presidente, por mais poderoso que seja seu país, tem o direito de governar os demais. Na ONU, retirou o nome e transformou a crítica em uma questão universal: quais são os limites do poder numa ordem internacional cada vez mais instável? Trump, à sua maneira, respondeu à mesma questão sem que fosse necessário responder a Lula.

A coincidência do protocolo fez o restante. Na mesma manhã, diante dos mesmos líderes e a partir do mesmo púlpito, emergiram duas respostas profundamente distintas para a crise contemporânea. De um lado, a tentativa de reconstruir a força das regras. De outro, a convicção de que a força pode estabelecer as regras. É aqui que reside a diferença essencial que melhor explica a atual crise da ordem internacional.

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