Reportagem

Livro narra o amor secreto entre Marcel Duchamp e escultora brasileira Maria Martins

Historiador de arte americano Francis M. Naumann lança 'Impossível' nesta segunda (17/8), na Janela Livraria da Gávea, no Rio de Janeiro

por Sérgio Luz
17/08/2026 às 12:45 · Atualizado há 1 mês
Marcel Duchamp e Maria Martins
Marcel Duchamp (Foto © Naomi Savage Coleção Francis M. Naumann and Marie T. Keller) e Maria Martins (Foto: Coleção Nora Lobo)

O pintor, escultor e poeta francês Marcel Duchamp (1887-1968) já era um veterano e celebrado artista de vanguarda do dadaísmo e dos ready-made e objets trouvés quando esbarrou com a brasileira Maria Martins (1894-1973). Eles se conheceram no vernissage da exibição “Amazonia” da escultora mineira, em 1943, em mostra que também contava com obras de Piet Mondrian. Duchamp tinha 56 anos; Maria, então casada com o diplomata gaúcho Carlos Martins, tinha 49.

E a paixão surgida desse encontro é narrada no livro “Impossível: a história de amor de Maria Martins e Marcel Duchamp” (Pinakotheke Editora), que o historiador de arte americano Francis M. Naumann lança nesta segunda-feira (17/8) na Janela Livraria do Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, às 19h. Haverá palestra com autor, bate-papo no cinema e sessão de autógrafos na livraria.

Um especialista na obra de Marcel Duchamp

A partir de documentos, correspondências inéditas e um conhecimento enciclopédico da vida e da obra de Duchamp, em quem Naumann é especialista, o livro conta os bastidores da relação e mostra como essa história de amor influenciou a obra de ambos na eternidade de quanto durou.

“Este é o principal tema e intenção do meu livro. Em termos de trabalho, eles se influenciaram profundamente. Ele adotou uma visão totalmente nova e diferente para expressar sua afeição por ela. E ela abraçou plenamente os princípios do surrealismo para se tornar parte do círculo dele”, explica Naumann ao Amado Mundo.

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Os exemplos do reflexo dessa paixão nas obras de Duchamp e Martins estão ilustrados em fotos de alta qualidade da época, tanto mostrando os artistas quanto imagens de trabalhos que produziram no período, com destaque para as três esculturas da série “O impossível”, de onde o autor tirou o título do livro, e a derradeira obra de Duchamp, “Étant Donnés”. Segundo Naumann, a importância de Maria Martins deveria ser mais exaltada no Brasil e no exterior.

Maria Martins, O Impossível, 1945_Foto © William Maywald
“O Impossível”, 1945, de Maria Martins (Foto © William Maywald)

“Eu acredito que ela é a escultura mais importante de origem brasileira. E talvez também seja a escultora surrealista mais importante de sua geração”, exalta o autor. “Eu devo ter sido o primeiro a interpretar esse incrível trabalho (‘O impossível’) como uma representação da relação deles. Se assim foi, a única pessoa que se recusou a aceitar sua mensagem foi o próprio Duchamp, que continuou a demonstrar seu carinho pela Maria em suas cartas até o fim de 1951, depois que ela já havia retornado ao Brasil.”

Maria Martins: muitas vidas em uma

No entanto, Naumann enumera os possíveis motivos para rejeição da brasileira — que teve um caso com o ditador fascista italiano Benito Mussolini, em 1923, foi amiga de Getúlio Vargas e entrevistou o líder comunista chinês Mao-Tsé Tung — em jogar-se de cabeça no relacionamento com Duchamp.

“Acho que ele se apaixonou perdidamente pela Maria. Contudo, por causa da sua situação de ser casada com o embaixador brasileiro e ter filhos, foi algo não correspondido. Ou seja, ela não poderia nunca se entregar totalmente a ele. Isso não significa que ela não tivesse afeição por ele, certamente tinha, mas que ela não conseguia abrir mão da posição social que havia conquistado antes de ele entrar em sua vida”, pondera.

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E a interpretação de Naumann é corroborada pela jornalista Ana Arruda Callado, autora de “Maria Martins – Uma Biografia” (Gryphus). Na ocasião do lançamento do livro, no final de 2004, Arruda Callado contou à “Folha de SP” que Maria e seu marido diplomata “tinham uma relação aberta, um tendo conhecimento de casos do outro, mas também tinham uma solidariedade completa e se ajudaram muito em seus objetivos”.

“Ao escrever o livro, eu tentei uma abordagem da posição de uma ‘mosca na parede’, reconstruindo possíveis conversas que eles possam ter tido sem ‘colocar palavras em suas bocas’. Não há qualquer invenção ou ficção, apenas um razoável grau de especulação, tudo baseado em lógica e, em alguns casos, em relatos de testemunhas oculares”, explica Naumann.

Questionado sobre o fato de muitos jovens hoje em dia não saberem quem foi Maria Martins ou Marcel Duchamp, o estudioso americano preferiu fugir do didatismo de um especialista em história da arte, focando outras lições que “Impossível” pode dar.

“Talvez a mensagem do meu livro para as gerações mais jovens seja para prestar atenção em como se apaixonar. Entregar seu coração completamente para outra pessoa afeta a sua vida inteira. Isso é algo que muitos podem não perceber quando acontece, mas que mudará tudo que você faz. E, se tiver sorte, de uma maneira positiva.

Serviço

“Impossível: a história de amor de Maria Martins e Marcel Duchamp”

Pinakotheke Editora

192 páginas

Capa dura

16 x 23 cm

Tradução: Richard Sanches


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