Reportagem

Traduzir a dor coletiva de um povo: o pacto que ultrapassa a técnica

Uma conversa com Safa Jubran, premiada tradutora líbano-brasileira, sobre como a tradução direta atua para impedir o apagamento cultural

por Luiza Barufi
18/07/2026 às 05:52 · Atualizado há 3 meses
Montagem com o retrato da tradutora Safa Jubran e a capa do livro Diário da Tristeza Comum, de Mahmoud Darwich, obra de literatura palestina publicada pela Editora Tabla
A tradutora e pesquisadora Safa Jubran ao lado da capa de “Diário da Tristeza Comum”, obra de Mahmoud Darwich que ela verteu diretamente do árabe: um trabalho que preserva a essência e a memória da literatura palestina. (Foto: Divulgação/Montagem)

A literatura palestina tem conquistado espaços nas livrarias brasileiras. Por trás de cada livro que chega às prateleiras, há uma engrenagem invisível e complexa: a tradução direta do árabe. Longe de ser apenas uma transferência mecânica de vocábulos entre dois idiomas, traduzir a prosa e a poesia produzidas na Palestina significa verter a própria experiência do exílio, da perda e da permanência.

Em um cenário cultural historicamente habituado a consumir narrativas do Oriente Médio mediadas pelo inglês ou pelo francês, encontrar tradutores que dominem o idioma original e evitem a reprodução do apagamento cultural é um dos maiores desafios do mercado. É nesse gargalo que a tradução se consolida como o principal elo de salvaguarda de uma cultura sob constante ameaça.

“A literatura palestina faz amplo uso de referências culturais, religiosas, geográficas e linguísticas que carregam uma densidade simbólica construída ao longo de gerações”, explica Safa Jubran, premiada tradutora líbano-brasileira, professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP).

Para a especialista, que é uma das principais responsáveis hoje por essas traduções diretas no Brasil, o ofício exige sensibilidade para lidar com a alteridade do texto. “Traduzir esses elementos exige um equilíbrio delicado entre inteligibilidade e estranhamento: oferecer ao leitor condições de compreensão sem apagar as marcas que constituem a identidade do texto”, aponta.

Compromisso ético muito além da linguagem

Para Jubran, o compromisso ético de quem traduz a Palestina vai muito além do dicionário. É um pacto que tateia as dores de uma história coletiva e busca restituir a dignidade das vozes originais.

“Traduzir literatura, seja qual for, não é verter palavras”, pontua Safa. No caso palestino, ela explica que o ofício significa, antes de tudo, “reescrever uma experiência histórica e humana profundamente marcada pelo deslocamento, pela violência e pela resistência”.

Nessa travessia linguística, o tradutor encontra alguns desafios, principalmente éticos. E o maior deles, segundo a pesquisadora, está em evitar dois extremos prejudiciais: a “domesticação” — que amacia e pasteuriza o texto para torná-lo confortável ao leitor ocidental — e a “exotização” da dor alheia.

“A tradução não pode suavizar a violência inscrita no texto, mas também não deve instrumentalizá-la ou transformá-la em espetáculo”, defende Jubran. Esteticamente, o desafio consiste em recriar em português uma escrita em que memória, oralidade, poesia e história se entrelaçam de forma indissociável, exigindo respeito absoluto à identidade estética original da obra.

A geopolítica viva nas palavras

Essa busca pela precisão ética reflete-se na decisão política de manter, em árabe, termos que carregam uma densidade histórica intraduzível. Conceitos fundamentais, como Nakba (a catástrofe do êxodo palestino de 1948 no surgimento do Estado de Israel), Intifada (os levantes populares) e sumud (a firmeza ou resiliência), são intencionalmente preservados por Jubran em suas traduções, acompanhados de notas ou pistas contextuais.

A tradutora argumenta que traduzir Nakba meramente como “catástrofe” é insuficiente, pois o termo dá nome a um evento histórico preciso e a uma condição contínua de apagamento. O mesmo vale para Intifada, que reduzida a “levante” ou “rebelião” perde sua carga simbólica.

“Creio que a tradução não deve eliminar a alteridade em nome da fluência”, afirma Safa, defendendo que o público brasileiro é plenamente capaz de absorver e aprender esses vocábulos. “Se a ocupação também opera pela disputa das narrativas e dos nomes, a tradução pode atuar no sentido oposto: preservando a memória inscrita na língua.”

Duas realidades, uma só voz: diáspora versus ocupação

Ao analisar a produção literária contemporânea, Safa Jubran identifica nuances distintas, embora não rígidas, entre os autores que escrevem dispersos pelo globo e aqueles que produzem sob as restrições físicas do território ocupado.

  • Na diáspora: a linguagem costuma tatear a memória, a distância física e a reconstrução imaginária de um lar que muitas vezes só existe na herança familiar. É uma escrita que nasce da ausência e da pergunta constante sobre a própria identidade.
  • Sob a ocupação: a escrita ganha a textura do testemunho e uma urgência cotidiana ditada pela vigilância, pela privação de liberdade e pela iminência da perda. É a transformação do cotidiano sitiado em forma estética e ritmo.

Apesar das diferenças de perspectiva, a tradutora ressalta que essas realidades se cruzam constantemente na poesia e na prosa. “O que muda é a textura da experiência: em um caso, a Palestina pode aparecer como lugar rememorado, herdado ou reinventado; no outro, como presença concreta e ferida aberta. Em ambos, a linguagem se torna uma forma de permanência”, reflete.

Literatura palestina: as portas de entrada indispensáveis

Questionada sobre por onde o leitor brasileiro deve iniciar sua jornada para compreender a Palestina por meio da ficção, Safa reconhece a pluralidade de gerações, mas não hesita em indicar um clássico absoluto: “Homens ao Sol“, de Ghassan Kanafani. Para ela, a obra condensa em uma narrativa breve e de enorme força estética os grandes dilemas palestinos, como o silêncio, a condição do refugiado e a responsabilidade coletiva, sem jamais panfletar ou reduzir a literatura a um mero discurso político.

Além de Kanafani, a tradutora aponta outros caminhos literários fundamentais que já ecoam em português. Confira:

  • A obra magistral “Porta do Sol”, de Elias Khoury, bem como sua trilogia “Crianças do Gueto” (com os volumes Meu Nome é Adam e Stella Maris já lançados no Brasil);
  • A poesia universal e de extraordinária beleza de Mahmoud Darwich;
  • E a prosa concisa e perturbadora de Adania Shibli, cuja escrita revela, nos mínimos detalhes, as engrenagens mais sutis da violência sob a ocupação.

Quem é Safa Jubran

Retrato de Safa Jubran, premiada tradutora líbano-brasileira e especialista em literatura árabe e palestina
Safa Jubran: professora, pesquisadora da USP e referência na tradução direta do árabe para o português, premiada internacionalmente por seu trabalho literário. (Foto: Divulgação)

Safa Abou-Chahla Jubran nasceu em Marjeyoun, no Líbano, em 1962, e imigrou para o Brasil em 1982. É professora livre-docente na Universidade de São Paulo (USP), onde leciona língua árabe desde 1992, tendo obtido os títulos de mestre e de doutora em linguística pela mesma instituição.

Autora de “Árabe e português: fonologia contrastiva”, traduziu para o português grandes clássicos modernos da literatura árabe, incluindo “Miramar”, de Naguib Mahfuz; “Tempo de migrar para o norte”, de Tayeb Salih; “Eu vi Ramallah”, de Mourid Barghouti; “Porta do Sol” e “Yalo”, de Elias Khoury; “Chamado do poente”, de Gamal Ghitany; e “Azazil”, de Youssef Ziedan.

No caminho inverso, verteu para o árabe obras marcantes da literatura brasileira contemporânea, como “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum, e “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha. Em reconhecimento à sua extraordinária contribuição para a difusão cultural, recebeu em 2019 o prestigiado prêmio internacional Sheikh Hamad Award for Translation and International Understanding. Atualmente, continua dedicada a traduzir novas obras do árabe para o português brasileiro.

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