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‘O palácio das duas colinas’: literatura palestina na luta pela existência de um povo

Representante de peso da literatura palestina contemporânea, "O palácio das duas colinas" não é apenas um grande romance. Trata-se de documento e denúncia

Publicado em 18/07/2026 às 06:00
Em Gaza, palestinos esperam distribuição de comida; literatura palestina tenta dar conta de tanta história, de tanta dor
Eles se recusam a desistir: em Khan Yubis, palestinos desabrigados tentam receber comida quente distribuída por organização humanitária (foto: Abed Rahim Khatib/Anadolu/via AFP)

Ricardo Lísias*

Em 28 de dezembro de 2023, o jornal francês “Le Monde” publicou uma carta aberta a Emmanuel Macron em que o escritor Karin Kattan pedia ao presidente francês, sempre orgulhoso de seu desprendimento liberal, parar de chamar de “cristãos da terra santa” os palestinos adeptos do cristianismo.

Kattan perguntava com objetividade: “Sr. Macron, o que o senhor quer ao trocar nossa denominação? Por que o senhor escolheu, nesta época do ano, separar-nos da nossa nação? O erro de denominação, sr. Macron, é lamentável. Apaga nossa cultura e tradições com um gesto displicente, um descaso que nos deixa arrasados nesse Natal cheio de dor. Praticamos uma religião cujos mitos fundadores se originaram em Belém, na Palestina – não em Roma ou Constantinopla ou Moscou, e muito menos em Paris ou Washington”.

Trata-se enfim de um procedimento que se repete desde 1948, com a intenção de, segundo outro escritor ligado ao Oriente Médio, Omar El-Akkad, permitir “a alguns indivíduos – os que são, ao mesmo tempo, coniventes com os mal feitos e imunes a eles – desviarem o olhar”.

O papel da linguagem

El-Akkad nota que a linguagem ocupa papel central no acobertamento do massacre que o povo palestino sofre há décadas. A ideia não é difícil de ser decodificada: se a palavra Palestina for cada vez menos repetida, algum dia não só esse povo deixará de existir, na verdade será mais fácil argumentar que ele nunca existiu.

Essa versão obviamente interessa muito a uma das partes do conflito: “A noção de que palestinos, como disseram Golda Meir e tantos outros políticos israelenses, nunca existiram. Uma versão que afirma que a identidade palestina, se ela existir, não significa nada e não merece nenhum direito”. Como se sabe, jornalistas palestinos são um grupo de especial risco. A razão para exterminá-los é a mesma: “Um dia, quando todos os jornalistas palestinos tiverem sido mortos, talvez aconteça que eles nunca tenham existido”.

Kattan, que desde a terrivelmente desproporcional resposta de Israel ao ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, tem publicado textos de intervenção na imprensa francesa e internacional, nasceu em Jerusalém, região da Palestina, em 1989. De família cristã de classe média alta, mudou-se para a França, onde defendeu um doutorado em literatura comparada e vem desenvolvendo uma sólida obra artística.

Kattan escreve em francês, e isso não é um mero detalhe. Aliás, como do mesmo jeito não é apenas uma nuance bibliográfica o fato de o livro que ele acaba de lançar no Brasil, “O palácio das duas colinas”, estar registrado na ficha catalográfica como “romance francês”.

Por fim, é interessante reproduzir a advertência que os leitores encontram logo nas primeiras páginas. “Este livro contou com o apoio à publicação do Institut Français”. Kattan nasceu em território palestino, suas principais preocupações estão nos conflitos que sua origem acarreta e ainda assim seu livro se instala, pelo que dispõem os mecanismos contemporâneos de classificação, na literatura francesa.

Leia mais: Cosac volta à ficção brasileira com diário de Lena Bergstein sobre a Palestina

A diáspora palestina abrigada na literatura francesa

Kattan, assim, coloca-se no grupo de autores diaspóricos que escolheram a literatura francesa como abrigo. Além dele, dá para citar Scholastique Mukasonga e Gauz. No entanto, há uma diferença do nosso autor para os outros: no caso dele, não é uma fuga; ele vem de um Estado que está literalmente desaparecendo. E aqui vale sublinhar que não se trata de uma mudança de nome ou divisão em Estados menores, como vimos em vários casos na última década: a Palestina, está claro, vem aos poucos sumindo, bem como seu povo.

Para esse texto, vou citar apenas os ficcionistas que estão traduzidos no Brasil. Claro que antes deles havia uma rica produção artística no território que é hoje a Palestina. Como marco aqui, porém, estabeleço o mês de março de 1948, quando começa a Nakba, termo muito bem traduzido por “catástrofe”: a partir de então o povo palestino começa a perder seu território, tomado pelas forças militares de Israel.

Dessa forma, e guardados os devidos arranjos, podemos estabelecer o escritor Gassan Kanafani como uma espécie de organizador inicial da literatura palestina. Como já falei dele em outro lugar, apenas lembro que seu projeto estético foi concebido para servir ao mesmo tempo como arte e recurso auxiliar de resistência. O próprio Kanafani acabou vivendo, durante alguns anos, em um campo de refugiados.

Ficção como documentação

Aqui a obra de ficção serve como incentivo para a luta política, a organização e o combate. É possível comparar a obra de Kanafani com os primeiros livros de Pepetela ou o trabalho de Agostinho Neto, ambos angolanos. Depois da morte de Kanafani, da resistência inicial a literatura palestina passa a uma espécie de ficção de documentação.

Os autores querem mostrar, a todo custo, que seu povo existe, ocupa um lugar definido no mapa, tem raízes e identidade. Darwich, por exemplo, registra o que aconteceu no Líbano no dia 6 de junho de 1982, quando o exército de Israel invadiu o país dos cedros com o pretexto de combater a resistência palestina e causou um massacre, em “Memória para o esquecimento”.

Como muitos palestinos viviam no vizinho, o ataque foi contra eles também. Já Ibrahim Nasrallah, por meio de um romance sobre a vida da incrível fotógrafa Karima Abbud, “Biografia de um olho”, mostra através de documentos concretos como havia uma sociedade organizada nos territórios em que o Estado de Israel insiste em dizer que nunca um povo de fato viveu ali.

Do exílio, a luta possível

A nova geração de escritores palestinos se exilou. Adania Shibli está em Berlim, Kattan vive em Paris. Os dois são muito bem formados e trabalham com temáticas semelhantes. Se para Kanafani, Darwich e Nasrallah os palestinos resistiam e a literatura servia entre outras funções, para apoiar a luta e documentar a existência, para os mais jovens, seu povo está quase chegando à fase de provar que existiu.

A protagonista de Shibli visita um arquivo atrás de documentação sobre um crime sexual cometido contra uma adolescente árabe por membros do exército colonizador. Obviamente não encontra nada, assim como a própria ocorrência do fato é colocada em questão. Como já falei desse romance, vou aqui apenas reproduzir o que aconteceu com o livro de Shibli em um dos mais importantes eventos do meio literário. Para isso recorro outra vez à voz de El-Akkad:

“Em meados de outubro de 2023, a Feira do Livro de Frankfurt decide cancelar a cerimônia em que a escritora palestina Adania Shibli seria premiada pelo romance ‘Detalhe menor’. O livro se baseia na história verídica de uma menina palestina de origem beduína estuprada e assassinada por soldados israelenses. Na sequência, os organizadores do evento alegam que a decisão de cancelar a publicação foi tomada em conjunto com a autora (o que não é verdade) e que o evento não foi cancelado, e sim postergado para uma data indefinida. Revendo os fatos vejo que isso marcou o início do que seria uma enxurrada de atos de covardia institucional no mundo das artes.”

Memória, o cerne da literatura palestina

“O palácio das duas colinas”, primeiro romance de Karin Kattan, acaba de ser publicado no Brasil em caprichada edição da Ercolano, com tradução também marcante de Gabriel Semerene. Formado por um conjunto de fragmentos, que vão de parágrafos de três linhas a capítulos de poucas páginas, o livro conta a visita de um homem radicado em Paris, que retorna à Palestina para cuidar das últimas posses da família, que foi desaparecendo, sobretudo uma casa grande e um tanto isolada.

O retorno na verdade suscita uma série de lembranças – o que é, a propósito, o cerne da literatura palestina, se não for de toda a arte desse povo. A Nakba é o centro da narrativa:

“Como você já deve saber a esta altura, há vários meses estourou o que eles chamam de ‘a revolução dos assentamentos’. Vou te contar um segredinho sobre eles: se acham uns caubóis de Deus. A revolução de que falam é o dia em que os colonos, que já haviam ocupado uma parte da Cisjordânia, decidiram que estavam fartos de esperar, que a hora havia chegado. Tipo o grande espetáculo dos caubóis: eles iam tomar à força tudo o que podiam do território”.

Um dos principais recursos de Kattan é o uso de um segundo narrador, que está sempre dialogando com a voz principal. É uma espécie de fantasma, vida quase metafísica que habita o imóvel e a região.

Aqui por exemplo o narrador desabafa:

“O que eu podia responder a ela? Eu não havia pedido nada a ninguém: nem esta guerra, nem a anterior e nem a que viria depois. Toda a nossa história, no fundo, era a historia da incompetência deles. Todos os que me precederam eram incompetentes inveterados e me deixaram como herança esta casa (palácio porra nenhuma) e a incompetência deles. Pereceram tudo, tudo, as guerras, os combates, as casas e até a coragem. Quanto a mim, me rendi à minha incompetência. Eu não esperava, como todos os outros, que um dia um anjo aparecesse e nos dissesse, ‘Vocês tinham razão!

Desculpem, mas foi só um deslize no caminho. Vamos devolver tudo a vocês’. Toda a nossa historia era uma concatenação de catástrofes e eu certamente não ia me meter nisso a mando daquela velha burguesa. Foi afinal por culpa de gente como ela, que vendeu os ideais, depois as armas, depois os filhos, que chegamos a esse ponto. Madame revolucionária que se tornou madame mecenas das artes. E ela esperava continuar a manter esta casa, alguns dias, alguns meses, quanto tempo restava antes da nossa erradicação?”

Do mesmo jeito, o romance se coloca como testemunha da existência do povo palestino, de novo como o que vem ocorrendo com essa geração: “Me lembrei disso hoje de manhã, quando começaram a cercar a aldeia. Nunca poderia ter te explicado que eu sabia que tinha nascido para constatar a extinção da minha raça.” 16 Além disso, também demarca a posse desse povo quanto ao local que habita: “esta casa, esta colina, são minhas. Tenho documentos, nas minhas malas, que provam que tudo isso me pertence do topo até a base, até a estrada principal”.

Duplicidade

“O palácio das duas colinas” pode ser associado com o gênero queer de literatura contemporânea. A associação é correta, mas vale se se pensarmos em um lado francês da obra, já que autor e livro têm, por assim dizer, uma dupla nacionalidade. Em 2013, centenas de milhares de pessoas se reuniram em Paris para se manifestar contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. Cada vez mais assolados pela extrema direita, boa parte dos franceses não cansa de reafirmar seus preconceitos.

Quando vai à Palestina, porém, o fato de o narrador ser gay não faz a menor diferença: “No dia seguinte, ao acordar, fiquei um pouco na cama. O longo equinócio havia começado. Talvez a Nawal tivesse sido um sonho meu. Um fantasma, sério…. E talvez eu não tenha voltado, ainda estou na minha cama de verdade, aquela do país da Europa e o George ao meu lado no nosso apartamento moderno e inoxidável e quadrado e com as vidraças amplas que dão para uma cidade eternamente luminosa. Me virei: nada de George, só o álbum de fotos que eu estava folheando na véspera”.

Em momento algum ele sofre qualquer tipo de preconceito. Palestino algum, qualquer que seja seu gênero, fica de fora do genocídio: tragicamente, parece ser essa a única medida…

“Que se foda a tua palestra sobre arte, o meu povo está a morrer”

A excelente poeta palestina Noor Hindi percebe como a literatura que está imbricada com a historia trágica de um povo e sua resistência está além (e acima) da teoria literária. Seu poema “Que se foda a tua palestra sobre arte, o meu povo está a morrer” é claro ao mostrar que apenas “Os colonizadores escrevem sobre flores” já que “os palestinos não veem a lua das celas e das cadeias”.

A questão decisiva deve ser a condenação a que certos povos precisam enfrentar: “As metáforas sobre a morte são para poetas que pensam que os fantasmas querem saber do som.” Ela sabe, por fim, que algo porém resta a esse povo: “Quando eu morrer, promete assombrar-te para sempre”. A literatura palestina é literatura, sem dúvida, mas ultrapassa qualquer tipo de metáfora ou mesmo de teoria. Aqui estamos falando de últimas possibilidades de um povo viver.

Representante de peso da literatura palestina contemporânea, “O palácio das duas colinas” não é apenas um grande romance. Trata-se de um documento e de uma denúncia, mais bem feita do que qualquer pronunciamento oficial, de resto hoje tão tímidos quanto as manifestações de governos que, raramente, levantam-se contra a crise humanitário na Palestina.

*Ricardo Lísias é escritor, finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura

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