Reportagem

Literatura palestina no Brasil: a palavra como resistência e memória

Conheça o papel das editoras independentes e de obras clássicas e contemporâneas na salvaguarda da memória e da identidade palestina

por Luiza Barufi
Publicado em 18/07/2026 às 05:51
Montagem com as capas dos livros Homens ao Sol, de Ghassan Kanafani, e Gaza, terra da poesia, organizado por Muhammad Taysir, importantes obras de literatura palestina publicadas pela Editora Tabla
Capas das obras “Homens ao Sol”, de Ghassan Kanafani, e “Gaza, terra da poesia”, organizado por Muhammad Taysir: o resgate clássico e a força poética que salvaguardam a identidade e a literatura palestina (Divulgação/montagem)

Em um mercado editorial historicamente dominado pela perspectiva eurocêntrica, a literatura palestina vem abrindo caminhos inéditos no Brasil. Impulsionada por traduções diretas do árabe e pelo empenho de editoras independentes, a chegada de obras – que vão dos clássicos de Mahmoud Darwich e Ghassan Kanafani a vozes contemporâneas – consolida a palavra escrita como um ato de permanência.

Mais do que ficção, a literatura palestina atua como documento histórico, guardiã da memória e espaço de resistência contra a tentativa de apagamento de um povo. Contudo, compreender a potência dessa produção exige olhar para a própria gênese de uma identidade forjada entre o exílio, a perda e a luta geopolítica.

A construção histórica de uma identidade

Para compreender a formação desse sentimento de pertencimento é preciso recuar no tempo. Como explica a historiadora Paula Carvalho, a semente da identidade nacional palestina remonta à virada do século 20, sob o Império Otomano, quando a região fazia parte da província da Grande Síria. Naquele período, o desejo de autonomia estava ligado a um projeto de unificação maior, que acabou barrado por interesses estrangeiros.

“A ideia de uma identidade palestina também estava ligada a uma identidade árabe, pois o plano era ter uma grande nação árabe após a Primeira Guerra Mundial. Isso não se concretizou por conta do imperialismo europeu, que fatiou a região”, aponta a historiadora, referindo-se ao período em que o território passou a ser administrado pelo Mandato Britânico.

Carvalho explica que a delimitação temporal dessa identidade divide opiniões no meio acadêmico, mas ganha contornos definitivos diante dos conflitos territoriais da região:

“Há quem defenda que essa identidade vem do século 19, enquanto outros argumentam que ela só se consolida de fato com a criação do Estado de Israel, ou mesmo após a Guerra dos Seis Dias, em 1967. O nacionalismo palestino vai se construindo ao longo do século 20 em uma luta por reconhecimento frente ao imperialismo europeu e, paralelamente, ao movimento sionista na região”.

Os pilares literários e a “Nakba contínua”

Nesse cenário de disputas e deslocamentos, a literatura assume o papel de dar corpo e voz à nação. De acordo com Paula Carvalho, é impossível compreender a formação da identidade palestina sem passar por dois pilares literários: o poeta Mahmoud Darwich e o ficcionista Ghassan Kanafani.

“As novelas de Kanafani, como ‘Homens ao Sol’ e ‘Retorno a Haifa’, foram fundamentais para dar contornos à própria ideia de nação e exílio”, explica Paula, lembrando que Kanafani, assassinado em um atentado em 1972, escrevia sob a urgência da resistência física e intelectual.

Hoje, essa urgência ganhou novas texturas na voz de autoras contemporâneas, que encontram no Brasil um espaço de recepção caloroso. A historiadora destaca o impacto de obras como “Detalhe menor”, de Adania Shibli (publicado pela Todavia, com tradução de Safa Jubran), e o romance inédito “O livro do desaparecimento”, de Ibtisam Azem (Editora Tabla), que ela mesma edita.

“São narrativas que enfrentam a chamada ‘Nakba [em árabe, catástrofe, como referência ao êxodo forçado de cerca de 800 mil palestinos durante a criação do Estado de Israel, em 1948, e à perda de suas terras e propriedades] contínua’, o trauma que se herda de geração em geração, mas que se recusa a aceitar o desaparecimento e o esquecimento de sua própria história”, conclui Carvalho.

O espaço das independentes: narrativas desafiam o eurocentrismo

Se a literatura palestina vive uma espécie de “era de ouro” em território nacional, o fenômeno deve-se quase inteiramente à coragem do circuito de editoras independentes. Longe das amarras puramente comerciais dos grandes conglomerados, essas casas editoriais assumem a missão de descentralizar o repertório do leitor brasileiro.

Para Laura Di Pietro, responsável pela direção editorial da Tabla, esse movimento de independência reposiciona o papel das editoras menores no ecossistema cultural do país.

“As editoras independentes são a força real da bibliodiversidade no Brasil. É por meio delas que saímos do eurocentrismo e ganhamos acesso a outras periferias estéticas e geográficas”, aponta Di Pietro.

Esse esforço de descentralização também guiou o nascimento da editora Rua do Sabão. Leonardo Garzaro, escritor, jornalista e editor da casa, explica que sua própria formação como leitor — sempre em busca do que as grandes editoras deixavam de fora — moldou o propósito de sua atuação no mercado.

“Eu procurava justamente as obras que não estavam em evidência. O mundo árabe possui uma tradição literária vastíssima, mas ainda pouco conhecida no Brasil”, relata Garzaro.

Ele enfatiza, contudo, que a construção do catálogo da Rua do Sabão recusa o imediatismo das manchetes: “Não gostamos de construir o catálogo apenas reagindo ao noticiário. Nosso trabalho parte de outra pergunta: onde existe uma literatura de grande qualidade que ainda não está chegando ao leitor brasileiro?”

O livro como trincheira: ativismo e memória histórica

Diante da violência sistemática e das tentativas de apagamento cultural do povo palestino, a publicação desses títulos assume contornos indissociáveis da defesa dos direitos humanos. Na visão de ambos os editores, a literatura é uma ferramenta de permanência.

Laura Di Pietro defende o posicionamento da Tabla, que mantém um alinhamento incondicional à causa palestina: “A nossa arma é a narrativa. O plano de exterminar esses corpos e territórios não vai apagar a cultura deles. Publicar é disponibilizar outras leituras, é mostrar que a cultura palestina é forte e não será silenciada”.

A diretora editorial da Tabla lembra ainda que a potência desses textos ultrapassa o campo da ficção: “Você não escreve para ser um documento histórico, mas a literatura palestina acaba tendo essa força de testemunho e registro de época”.

Na Rua do Sabão, o entendimento de que a atividade editorial nunca é um ato neutro pauta o equilíbrio financeiro da empresa. Leonardo Garzaro explica que a editora usa o retorno de obras mais comerciais para financiar e subsidiar livros de relevância política e histórica, mesmo ciente do risco de prejuízo financeiro.

“Temos projetos que precisam circular por razões ligadas aos direitos humanos, à preservação da memória e à liberdade de expressão”, afirma Garzaro. “Não enxergamos o ativismo cultural como algo separado da atividade editorial; ele está presente na própria estrutura e concepção do nosso catálogo.”

O desafio do alcance

Embora o Brasil abrigue uma das maiores comunidades de imigrantes e descendentes árabes do mundo, a sustentação desse mercado tem surpreendido os editores. Ao contrário do que se poderia prever, o maior engajamento não vem necessariamente de um nicho comunitário fechado, mas sim de um leitorado brasileiro amplo, sedento por novas perspectivas.

“No início, acreditávamos que a comunidade de descendentes seria a nossa base. Mas, na prática, o público que mais impulsiona esses livros é formado por leitores curiosos, atentos e interessados em ampliar o próprio repertório fora dos eixos tradicionais de tradução”, revela Garzaro.

O grande gargalo para a consolidação e o crescimento desse cenário no país não está na recepção do público, mas sim na distribuição em escala nacional. Laura Di Pietro identifica a logística e a visibilidade como os maiores desafios cotidianos da Tabla.

“A nossa grande luta é de alcance. Como fazer o livro chegar e circular por esse continente chamado Brasil? Porque a nossa certeza é uma só: quando o livro chega ao leitor, ele é extremamente bem recebido.”

Próximos passos: o futuro das narrativas do Sul Global

Olhando para o horizonte, ambas as editoras planejam dar passos ainda mais ambiciosos na internacionalização e no aprofundamento de seus catálogos.

A Tabla projeta uma presença massiva de literatura e historiografia palestina nos próximos anos. “Estamos programando, para 2028, um catálogo focado em historiadores palestinos. Queremos muito que a Palestina conte a sua própria história”, adianta Di Pietro, garantindo que a causa continuará no DNA da casa editorial: “Enquanto a Tabla existir, a Palestina estará presente no nosso catálogo”.

Já a Rua do Sabão projeta uma expansão internacional focada no combate direto à xenofobia e no fortalecimento das vozes do Sul Global, inaugurando operações de publicação nos Estados Unidos e em Portugal.

“Levar a literatura da Palestina e da Arábia Saudita para os Estados Unidos, ou a literatura brasileira e moçambicana para Portugal, é um ato de combate direto à xenofobia global. Nossa grande bandeira é lutar por um mundo sem fronteiras por meio do livro”, conclui Leonardo Garzaro.

Guia de leitura: as vozes da resistência e do exílio no Brasil

Para quem deseja compreender a questão palestina pela chave da literatura, o catálogo nacional oferece caminhos que vão dos clássicos fundacionais às urgências do presente. Abaixo, com a ajuda da historiadora Paula Carvalho, mapeamos obras e autores indispensáveis que já estão disponíveis em livrarias brasileiras:

Os pilares históricos (o resgate clássico)

  • Mahmoud Darwich (Editora Tabla): considerado o grande poeta nacional da Palestina. Suas obras, que misturam poesia e prosa poética, traduzidas diretamente por nomes como Michel Slemian, fundaram a identidade literária palestina moderna. Seus poemas eram tão potentes que ele chegava a lotar estádios para recitá-los.
  • Ghassan Kanafani (Editora Tabla/Expressão Popular): intelectual e cofundador da Frente Popular de Libertação da Palestina, Kanafani foi assassinado em 1972, mas deixou novelas que são consideradas a base da identidade nacional. As novelas “Homens ao Sol” e “Retorno a Haifa” (publicadas pela Tabla) são leituras devastadoras e essenciais sobre a perda e a impossibilidade do retorno.

A força da prosa contemporânea e feminina

  • Adania Shibli – “Detalhe menor” (Editora Todavia): traduzido por Safa Jubran, o livro é uma obra-prima contemporânea implacável, que investiga a violência histórica e as marcas físicas e psicológicas da ocupação.
  • Ibtisam Azem – “O Livro do Desaparecimento” (Editora Tabla): um romance distópico impactante que narra o que acontece quando, de um dia para o outro, todos os palestinos desaparecem de Israel. Uma reflexão profunda sobre memória, trauma herdado e a recusa ao apagamento.
  • Sonia Nimer – “Uma história inventada do começo ao fim” (Editora Tabla): uma excelente porta de entrada para o público infanto-juvenil, mostrando que a tradição oral e a imaginação também são ferramentas de permanência cultural.

A diáspora e as fronteiras do trauma

  • Lina Meruane – “Tornar-se Palestina” (Editora Relicário): a autora chilena, filha de pai palestino, escreve uma crônica de autodescoberta. É a história de uma descendente tateando suas origens e descobrindo como os traumas históricos atravessam e moldam gerações distantes.
  • Susan Abulhawa – “O azul entre o céu e a água” (Bertrand Brasil): narra a saga de quatro gerações de mulheres da família Baraka enfrentando a Nakba (a catástrofe palestina de 1948) e o exílio, costurando a permanência através da resiliência feminina.
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