Literatura e longevidade: a ciência do envelhecer em lançamento da Fósforo
Em ‘Longevidade hoje’, as pesquisadoras Sharon Sanz Simon e Ilana Pinsky unem psicologia e neurociência para desmistificar tabus e apontar caminhos para o decurso da vida

“Em sua acepção mais básica, o envelhecimento é o efeito do tempo sobre nós — algo, portanto, distinto do conceito de velhice. Envelhecimento é um processo, e não uma fase da vida.” A afirmação que abre o novo lançamento da editora Fósforo, unindo literatura e longevidade, dá o tom do debate urgente trazido pelas psicólogas e pesquisadoras Sharon Sanz Simon e Ilana Pinsky no livro “Longevidade hoje: o que a psicologia e a neurociência falam sobre envelhecer bem em qualquer idade”.
A obra chega às livrarias no fim de julho, e marca um momento em que a discussão sobre o amadurecimento tem ganhado espaço no país. De acordo com os dados mais recentes do Censo do IBGE, o contingente de idosos no Brasil cresceu 57,4% em 12 anos, acelerando o envelhecimento da população e demandando novas perspectivas, políticas e narrativas que fujam de visões fatalistas ou estereotipadas.
Em uma estrutura que une rigor científico e acolhimento, as autoras apresentam o que há de mais recente no conhecimento mundial e brasileiro sobre a complexa relação entre o cérebro e as emoções. A proposta central é transformar o envelhecimento em uma pauta democrática e transversal — um assunto para todas as idades, não apenas para quem já chegou à velhice.
Longevidade e caleidoscópio da prevenção: o que esperar do livro
Dividida em duas frentes principais — “Entender o envelhecimento” e “Construir o envelhecimento” —, a obra funciona como um mapa prático e conceitual ao longo de suas 280 páginas. Simon e Pinsky tratam a longevidade como uma experiência diversa e moldada por um arranjo entre genética, estilo de vida, traços de personalidade e ambiente socioeconômico.
Longe dos clichês do mercado de bem-estar, o livro destaca um contraponto biológico importante: nem tudo no avançar dos anos significa perda de habilidades. A ciência comprova que existem melhorias cognitivas reais associadas à idade, visíveis no enriquecimento do vocabulário e no desenvolvimento da chamada “sabedoria social”.
Para mitigar os declínios esperados, as autoras introduzem o conceito de “caleidoscópio de prevenção”, uma abordagem integrada que avalia simultaneamente múltiplos fatores de risco. Ao longo dos capítulos, são esmiuçados temas que vão da neuroplasticidade e o funcionamento dos diferentes tipos de memória até temas do cotidiano e da saúde pública, como:
- Impacto físico e nutricional: os efeitos práticos dos exercícios físicos no cérebro e a relação profunda entre o eixo intestino-cérebro e a alimentação
- Esfera social e emocional: a dinâmica da solidão, os horizontes temporais, a importância do senso de propósito e o impacto da inteligência artificial
- Clínica e diagnóstico: um panorama claro sobre o universo das demências, detalhando as causas vasculares, por corpos de Lewy e as doenças de Alzheimer e Parkinson
O livro é endossado pelo médico Drauzio Varella, que assina uma das leituras de destaque da obra: “Ele traz uma discussão profunda sobre o envelhecer, um processo complexo, causador de descompassos entre as ações do cérebro e as limitações que a idade impõe. O envelhecimento não se instala a partir de determinada fase, é um caminho a ser percorrido”.
Unindo literatura e longevidade: duas trajetórias
A profundidade da obra reflete a bagagem acadêmica e de campo de suas autoras. Sharon Sanz Simon é psicóloga e neurocientista, com doutorado pela Faculdade de Medicina da USP, além de passagens como fellow em Harvard e pós-doutorado na Universidade Columbia. Atualmente, ela é professora e pesquisadora no Krieger Klein Alzheimer’s Research Center, da Universidade Rutgers (EUA), onde lidera o Engaging Lab.
Ilana Pinsky é psicóloga, escritora e colunista de saúde mental, com pós-doutorado pela Universidade de Medicina e Odontologia de Nova Jersey (EUA). Sua carreira acumula passagens como pesquisadora na Universidade Columbia, na Organização Mundial da Saúde (OMS), na Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), na Unifesp e na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Apoiadas na premissa de Marie Curie escolhida para a epígrafe do volume — “nada na vida deve ser temido, mas compreendido” —, as autoras entregam um manifesto científico em favor de um envelhecer consciente, interessante e, sobretudo, digno.