O líder da extrema direita alemã celebrou entre dois austríacos
Ulrich Siegmund soube explorar a nostalgia de um passado que não viveu, com narrativa disseminada pelos algoritmos das redes sociais

Na noite deste domingo (6/9), Ulrich Siegmund, líder regional da extrema direita alemã, subiu ao palco para seu discurso de vitória na eleição da Saxônia-Anhalt. Em um momento marcante, ele declarou: “Esse é um sinal para todo o país, pois NÓS achamos o nosso caminho de volta para a Alemanha.” Dado que seu partido, a AfD (Alternativa para a Alemanha), foi fundado em 2013 e nunca governou nenhuma região, e muito menos o país, a quem se refere com o “nós” fica claro. Sigmund Freud, o outro austríaco que parece ter “acompanhado” Siegmund em espírito, chamaria isso, além do corte de cabelo, de um ato falho.
Analistas políticos concordam que a AfD é inspirada por tendências fascistas, e o Gabinete Federal para a Proteção da Constituição classifica o partido como extremista. Diante de tudo isso, como a AfD conseguiu impressionantes 43,8% dos votos nessa eleição regional?
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Primeiramente, é crucial entender o contexto da Saxônia-Anhalt, a menor e menos desenvolvida região da Alemanha, com a maior idade média e a maior proporção de dependentes de pensão do Estado. Essa região, que fazia parte da Alemanha Oriental, teve um modelo estatal que atuava como provedor das necessidades da população sob o regime comunista.
Siegmund, astuto e perigoso, soube explorar essa nostalgia de um passado em que as pessoas se sentiam “cuidadas”. Ele espertamente vinculou a ausência de aumento nas aposentadorias à ajuda à Ucrânia, argumentando que “falta dinheiro para cuidar de vocês porque a Alemanha está enviando recursos para a Ucrânia”. Para reforçar sua mensagem, usou uma lambreta da época da Alemanha Oriental em sua campanha. Curiosamente, ele nasceu após a queda do Muro de Berlim, portanto, nunca vivenciou esse período que retrata como “feliz e mágico”. Mas, para um populista digital, os fatos pouco importam.
Extrema direita usa as redes sociais para disseminar narrativa
Com os algoritmos das redes sociais trabalhando intensamente, fica mais fácil. Não é surpresa que ele tenha agradecido publicamente a Elon Musk pelo apoio na disseminação de sua narrativa. Contudo, é essencial ter cautela ao analisar esse resultado: não há indícios de que os quase 44% dos votos se basearam na plataforma radical do partido, que liga a ideologia do AfD aos fascistas, com propostas alarmantes como escolas segregadas para imigrantes e pessoas com deficiência. O que parece ter motivado esses votos é um desejo de retornar a um passado idílico, que nunca existiu, onde todos eram “cuidados”.
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E agora? Embora o partido tenha conquistado uma ampla vitória, não obteve a maioria para governar sozinho e precisará formar alianças. Existe um entendimento entre os partidos tradicionais de não se alinhar à AfD, restando a opção de uma aliança com a extrema-esquerda, que obteve pouco mais de 5% dos votos e, como era de se esperar, está disposta a esse acordo. A AfD, por sua vez, rejeita o apoio deles.
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Se esse impasse não for resolvido, poderemos ver a manutenção provisória do governo atual, liderado pelo partido conservador CDU, que também governa a Alemanha, até que novas eleições sejam realizadas. Essa pode ser uma estratégia arriscada, porém interessante, para o Chanceler Friedrich Merz: ganhar tempo para elaborar uma saída política com os outros partidos após o choque do resultado. O problema é que isso exige uma habilidade política que o Chanceler, aparentemente, não possui.