‘Floresta Amazônica pode ter mais sustentabilidade por meio do comércio’, diz presidente da Apex
Laudemir Müller lidera semana de missões na Europa para promover produtos da sócio-biodiversidade e atrair investimentos focados em sustentabilidade e minerais críticos

O novo presidente da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), Laudemir Müller, afirma ter uma missão clara para os próximos anos. De acordo com ele, os principais tópicos da agência serão diversificar a pauta de exportações do país, incluindo pequenos produtores, e usar o poder do comércio exterior para manter a Floresta Amazônica em pé.
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Müller está na Europa nesta semana liderando a “Jornada exportadora cooperar para exportar”. A agenda, focada em promover a sócio-biodiversidade brasileira no mercado europeu, começa em Lisboa e passa por Berlim, Roma e Bruxelas.
Durante o evento em Portugal, o executivo concedeu uma entrevista ao Amado Mundo, na qual detalhou as prioridades de sua gestão, o impacto do Acordo Mercosul-União Europeia, o reposicionamento da imagem do Brasil no exterior e a negociação para derrubar sobretaxas nos Estados Unidos.
Quais são as prioridades da sua gestão até o fim do mandato do presidente Lula?
Temos três grandes focos. O primeiro é trabalhar muito na implementação do Acordo Mercosul-União Europeia. Antes do acordo, somente 11% a 12% do nosso comércio estava sob o guarda-chuva de alguma preferência tarifária, e agora passamos para mais de 30%. O segundo é inserir mais pequenas e médias empresas, além da agricultura familiar, na exportação. Para ter uma ideia, até o ano passado atendíamos menos de 90 cooperativas e agora já passamos de 500. O terceiro ponto é ajudar o Brasil a se posicionar na corrida da transição energética e inteligência artificial, especialmente na atração de investimentos em minerais críticos e terras raras.
Falando em minerais críticos, o governo defende que o Brasil não seja apenas um exportador de matéria-prima bruta. Qual o papel da Apex nisso?
Nosso papel é atrair capital externo para agregar valor a essa cadeia dentro do Brasil. Costumo dizer aos investidores que queremos ir da mineração até o ímã [“from mining to magnet”, em inglês]. A reserva mineral por si só é apenas uma reserva; para virar riqueza, precisamos de muito capital e engenharia. O ambiente já está se movendo: em uma feira recente em Hannover, por exemplo, acompanhamos o anúncio de um pool de empresas que vai investir R$ 12 bilhões em hidrogênio verde no Rio Grande do Norte.
O escritório da Apex em Lisboa está completando dois anos. Qual tem sido a importância dessa base na Europa?
Portugal tem uma importância estratégica gigante, servindo como porta de entrada e hub para o restante da Europa, principalmente por não termos a barreira do idioma. A abrangência do nosso escritório aqui inclui os países membros da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa]. Temos também um ecossistema pioneiro, dividindo espaço com a Embratur, o Sebrae e a Fiocruz. A demanda tem sido notável: no ano passado, já somando os contatos do Web Summit, atendemos mais de 700 empresas brasileiras e realizamos cerca de 15 missões e seminários a partir daqui.
A vigência do Acordo Mercosul-UE completa um mês agora. Já é possível notar benefícios imediatos ou tendências?
Sim. Alguns setores tracionam mais rápido, como o de frutas frescas, que já tem tarifas zeradas e se beneficia da diferença de safras entre os hemisférios. Mas percebemos já uma tendência clara de aumento nas exportações de cafés especiais e premium, máquinas agrícolas, além dos setores têxtil e de calçados. Outro ponto que me surpreendeu positivamente é a mudança no ambiente de negócios: eu nunca vi a Europa olhar tanto para o Brasil como um lugar prioritário para investir e produzir, usando o país como uma plataforma de exportação para a própria Europa.
Floresta Amazônica no meio do comércio
Como está a percepção global sobre o produto brasileiro? A imagem do país melhorou nos últimos anos?
Melhorou muito. Em uma pesquisa que fizemos sobre a reputação do Brasil na Europa, referente ao período entre 2019 e 2021, vimos que mais de 80% das menções e posicionamentos no Parlamento Europeu sobre nós eram altamente negativos, muito em função do descaso com o desmatamento e o incentivo a atividades ilegais, como o garimpo. Hoje, com a redução do desmatamento e os avanços em políticas sociais e controle da inflação, a imagem mudou. Além disso, o próprio presidente Lula já liderou 24 missões internacionais levando empresários, o que reconstrói nosso posicionamento como um parceiro aberto e confiável.
E o que a Apex preparou para esta semana de eventos voltados à Amazônia aqui na Europa?
O nosso propósito esta semana é colocar para a Europa que podemos, e devemos, promover a sustentabilidade da Floresta Amazônica por meio do comércio. A Jornada Exportadora reúne 22 participantes brasileiros, sendo 10 cooperativas e 12 micro e pequenas empresas. Trouxemos produtores de três biomas, Amazônia, Cerrado e Caatinga. Queremos mostrar que, quando o europeu consome açaí, castanha-do-brasil ou óleo de babaçu, ele está gerando renda para comunidades ribeirinhas e ajudando a manter a floresta em pé. E temos de tudo um pouco, desde empresas de cosméticos lideradas por mulheres até hidromel e gim produzidos na Amazônia. Vamos passar por Lisboa, Berlim, Roma e Bruxelas, inclusive com encontros no Parlamento Europeu.
Com o mundo em instabilidade, a força agropecuária do Brasil se torna uma espécie de “arma” geopolítica?
No bom sentido, como um ativo de estabilidade. Num momento em que as regras multilaterais perdem espaço para a instabilidade, o Brasil se coloca como um parceiro democrático, que honra acordos e garante a segurança alimentar. Vou te dar um exemplo prático: quando o México teve uma grave crise de inflação de alimentos recentemente e zerou tarifas de importação, nós entramos pesado com produtos básicos, exportando quase US$ 3 bilhões em cerca de dois anos, o que ajudou o país a ancorar sua inflação.
Para encerrar com um assunto espinhoso: as sobretaxas que os Estados Unidos aplicam contra diversos produtos brasileiros. Qual tem sido a estratégia da Apex para tentar derrubar essas barreiras?
O nosso esforço tem sido juntar os setores privados do Brasil e dos EUA para mostrar ao governo americano que importar do Brasil é essencial para a própria economia deles. Muitas vezes, os técnicos de lá desconhecem os detalhes das cadeias. No caso do café, por exemplo, a cada 1 dólar que os EUA importam, eles geram cerca de US$ 43 dentro da economia americana. E o mesmo acontece com o mel: 85% do mel orgânico importado pelos americanos vem do Brasil e é fundamental para a composição (“blend”) dos produtos finais deles. Até na carne bovina, a nossa carne magra (dianteiro) é misturada lá para garantir a consistência ideal do hambúrguer americano. Quando mostramos que a nossa exportação movimenta negócios cruciais dentro dos Estados Unidos, a perspectiva muda.