Karim Aïnouz sobre novo filme, ‘Rosebush pruning’: ‘Por mais doido que seja, fala de esperança’
Diretor cearense Karim Aïnouz lança seu segundo filme em inglês. Com Elle Fanning e Pamela Anderson no elenco, 'Rosebush pruning' estreia no Brasil em outubro

De LISBOA — Karim Aïnouz esteve esta semana em Portugal, em sessões no Porto e em Lisboa, para o lançamento de “Rosebush pruning”, seu segundo filme em língua inglesa, após o drama de época “O jogo da rainha” (2023). O cineasta cearense de 60 anos recebeu o Amado Mundo numa sala do Cinema São Jorge, um dos espaços mais tradicionais da sétima arte na capital lusitana.
A trama, escrita pelo roteirista grego Efthymis Filippou — colaborador de longa data do premiado cineasta Yorgos Lanthimos — acompanha uma rica e perturbada família americana radicada na Catalunha, na Espanha. Entre conflitos fraternos, um pai cego e excêntrico, uma mãe supostamente morta e situações grotescas, os irmãos Ed, Anna, Jack e Robert tentam entender seu lugar no mundo. A obra é uma sátira ácida sobre a sociedade contemporânea, livremente inspirada em “De punhos cerrados” (1965), do diretor italiano Marco Bellocchio.
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“Foi uma ideia que me passou pela cabeça durante a pandemia, aquela coisa do isolamento, de fazer um último filme, porque eu achei que a gente não ia mais para lugar algum. E um remake me parecia mais rápido. Só pedi para trocar o personagem principal do filme do Bellocchio — que era uma mãe — para um pai. Tornou-se um filme não só sobre concentração de renda, mas também sobre a ganância. Essa questão moral, realmente, que é uma consequência do isolamento dos super ricos. E também queria falar do patriarcado, de ser uma família americana, branca, que gosta de luxo”, conta Aïnouz.

O longa é uma coprodução entre Espanha, Alemanha, Itália e Reino Unido, e mostra a história de Ed (Callum Turner) que passa a seguir o irmão mais velho Jack (Jamie Bell) quando ele começa um relacionamento com Martha (Elle Fanning), a forasteira que abala a já disfuncional rotina da família. Apesar de ser inspirado em Bellochio, o filme remete a um clássico de outro diretor italiano: “Teorema” (1968), de Pier Paolo Pasolini.
“Eu pensei no ‘Teorema’ pelo grotesco, pela provocação. E por esse personagem, que chega de fora e que desestrutura tudo que está ali, as estruturas arcaicas da família. Que, nesse caso, é a personagem da Elle. Ele é muito primo desse filme no sentido conceitual, mesmo. E também um longa dirigido por Tracy Letts — na atuação soberba no papel do patriarca abusador —, o ‘Killer Joe’ (2011). Esses dois filmes foram também muito influentes nas decisões que a gente foi tomando, assim como as primeiras obras pós-Movida do Almodóvar”, analisa o cineasta.
‘Pamela Anderson tem uma alma jovem, é destemida’, exalta Karim Aïnouz
O grotesco e o absurdo das situações, que vão de inveja, ganância e desejos incestuosos a planos fratricidas, são emoldurados pela trilha sonora de Matthew Herbert, do bate-estaca pesado techno ao erudito contemporâneo. Mas há também passagens cômicas, principalmente por meio do humor satírico e do desconforto, com atuações viscerais de nomes como Jamie Bell, o Jack, e Pamela Anderson, que interpreta a mãe.
“É uma atriz que tem uma alma de jovem, que não tem medo. É tão bonito quando você encontra um ator que é destemido nesse sentido. Isso foi fundamental na escolha dela para fazer o papel da mãe, que tinha que adentrar um lugar que é quase do absurdo. Seria fácil você fazer isso de maneira irônica, e ela faz isso, mas há também uma candura ali naquele personagem bizarro. Tem uma vulnerabilidade que vai além do talento dela como atriz. É um dos seres humanos mais surpreendentes no sentido da doçura, da inteligência, uma pessoa absolutamente brilhante, e com muita generosidade. Não é uma mistura que encontramos todos os dias”, exalta Aïnouz.
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Segundo o diretor, a química com Pamela Anderson deu-se também devido ao filme “A vida invisível” (2019), adaptação de Aïnouz para o romance “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha, que a atriz americana admira. Na obra, uma jovem nos anos 1950 lida com a opressão de uma sociedade machista e opressora.

E o cineasta conta uma anedota sobre algo em comum entre os dois filmes: a genitália masculina. “O que aparece em ‘A vida invisível’ não é o do Gregório (Duvivier). Aquela cena não estava no roteiro. Mas depois eu lembrei de conversas que tivemos com mulheres de mais de 80 anos, perguntando como tinha sido a primeira vez delas, na década de 1950. Algumas jamais tinham visto nem um desenho do órgão masculino. E tinha uma coisa aterrorizante sobre aquilo, de horror. Aí fui atrás de um dublê de pênis. E em ‘Rosebush pruning’ também foi assim. Eu sou o rei do dublê de pau”, gargalha um bem-humorado Aïnouz.
No entanto, o novo filme do diretor tem uma cena de abuso em que nada gráfico é mostrado, como em uma sequência de “Paisagem na neblina” (1988), de Theo Angelopoulos, quando um ato de violência sexual não aparece na tela, deixando na imagem apenas a boleia do caminhão em que o crime está sendo cometido.
“Acho que tem alguns tipos de violência que não dá para a gente filmar, tem uma coisa ética ali. Não dá para filmar uma criança morta, não dá para filmar um corpo negro morto, entendeu? Mas acho que esse filme fala de esperança. É a história de um cara inserido num ambiente fraturado, apodrecido, corroído. E ele se apaixona, é a primeira vez que ele tem a possibilidade de ter uma relação afetiva que o liberta. E ele quebra esse ciclo de violência. Por mais doido que seja, é um filme divertido”, reflete.
Faroeste nordestino é o próximo projeto de Karim Aïnouz
Enquanto lança “Rosebush pruning”, que terá sua estreia brasileira no Festival do Rio, em outubro, Aïnouz prepara “Lana Jaguaribe”, faroeste nordestino ambientado durante a grave seca da década de 1870.
“É um western, mas que é muito parecido com o momento que a gente está vivendo. Se passa em 1877, durante a grande seca, quando morreram mais ou menos 400 mil pessoas no Nordeste. Mas que é um momento também onde tem uma reconfiguração de papel, tanto dos ex-escravizados quanto dos matutos. E como que isso também foi uma crise que gerou oportunidade, dos quilombos que foram fundados no Amazonas, tudo isso. É assumidamente um faroeste.”